08 de julho de 2026
Cultura

Uma década de Nação

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O última grande chacoalhada na história da música brasileira aconteceu há dez anos, quando a Nação Zumbi, então capitaneada por Chico Science, lançou “Da Lama ao Caos”. Primeira gravação da banda criada em 1990, em Recife, o disco era um caldeirão inédito de funk, hip hop, maracatu, samba, guitarras psicodélicas, música eletrônica, muita percussão, conteúdo social nas letras... Tudo isso na interpretação inconfundível de Chico.

O disco, que trazia o manifesto do movimento Mangue beat assinado por Chico em parceria com Fred Zero Quatro (do Mundo Livre S/A), chocou público e crítica, apontou os holofotes para a capital pernambucana e influenciou uma leva de bandas de todo País a seguir o mesmo caminho de (de um modo geral) fundir o moderno com o tradicional.

Chico morreu no início de 97, mas a Nação continuou e hoje à tarde faz o melhor programa do feriado do Dia do Trabalho em Bauru se apresentando no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc). O show faz parte do projeto Turnê TIM Motorola que, em parceria com a gravadora Trama, promove uma série de 18 apresentações pelo Interior de São Paulo com a Nação, Fernanda Porto e Cláudio Zoli.

Uma década depois do lançamento de “Da Lama ao Caos”, Jorge Du Peixe, vocalista do grupo, acredita que ainda é cedo para avaliar o que resultou do movimento mangue beat. “A cena continua forte, tem muita gente fazendo um som interessante também”, diz o músico em entrevista por telefone ao JC.

Para Jorge, um dos aspectos mais positivos da trajetória da banda e do mangue beat em geral foi o fato trazer à tona elementos culturais quase esquecidos ou exclusivos da região e mostrá-los para o mundo. “Num país onde a cultura do efêmero impera isso é importante. Hoje todo mundo sabe o que é maracatu. Tem nação do maracatu em São Paulo, no Rio, na Alemanha...”, diz.

“Muita gente não ia conhecer muito das tradições se outras pessoas não tivessem as buscado para mostrar sob outra perspectiva, como é nosso caso”, afirma, deixando claro que não se trata de uma postura pretensiosa, mas sim a de alguém que, acima de tudo, respeita a cultura regional e seus representantes, sem passar por cima de ninguém. “Chico vivia comentando que é bom você olhar em volta e perceber que existe muita coisa para se usar”, lembra.

Hits

No show de hoje à tarde a banda vai tocar músicas do último CD, “Nação Zumbi”, lançado em 2002, mas também vai revisitar “antigos” sucessos. “Não incomoda a gente tocar as músicas dos primeiros discos, até porque são músicas nossas também”, diz Jorge, sem problemas de abordar o assunto. O fato é que depois da morte de Chico muita gente achou que o grupo não sobreviveria fora da sombra do cantor e compositor, uma aposta que se provou falsa.

A Nação não só sobrevive com as próprias pernas como também tem moral para poder voltar ao repertório antigo sem que isso seja uma muleta. “Com o passar do tempo, com o lançamentos de novos discos, é normal que as músicas mais velhas entrem numa quantidade menor nos shows, não é fácil fazer um repertório, mas fazemos questão de mostrar as músicas antigas, de repente com outras roupagens, mostrando outras possibilidades”, explica Jorge.

Por isso quem for ao Sesc hoje terá a chance de ouvir “A Praieira” e “Risoflora”, do primeiro disco, que há muito tempo o grupo não tocava.

O repertório do show tem essa mescla de velho e novo e é próximo do que o grupo vai apresentar em seu primeiro DVD, a ser lançado no segundo semestre. Gravado no Direct TV Hall, em São Paulo, em outubro do ano passado, o DVD foi feito para captar o clima do show em todos os seus detalhes, segundo o vocalista da banda. Os extras devem incluir imagens da turnê européia. “Fomos para a Europa com o Chico e já fizemos vários shows depois também por diversos países. O fato de cantar as músicas em português não impede o público de gostar da gente”, decreta Jorge.

• Serviço

Show da Nação Zumbi. Hoje, às 17h, no ginásio do Sesc. Realização: TIM, Motorola e Trama. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.