31 de maio de 2026
Articulistas

O mundo fragmentado


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A fragmentação do espaço e a destruição do tempo provocada pela televisão a partir dos anos 80 do século passado, quando começaram a proliferar os canais, colaborou para mudar radicalmente todo o pensamento estético, social e lingüístico. A capacidade de raciocínio e reflexão das pessoas diminuiu muito. Uma pesquisa americana revelou que os telespectadores médios só se lembram de 10% do que foi ao ar no jornal da noite. Ainda existe o “zapping” como vingança do telespectador contra a ditadura da antena. Se não gostou ou o intervalo comercial é desinteressante, o freguês muda de canal num apertar de botão. Isso o permite ser o seu próprio editor, o que tem seu lado positivo.

Agora, imagine um professor dando quatro aulas de 50 minutos cada. Tem que ser um grande animador cultural para prender a atenção de jovens acostumados ao “timing” televisivo, com a agravante de não poder parar de dez em dez minutos para intervalos comerciais. A menos que tenha um grande repertório de piadas. Os alunos, coitados, também não têm um controle remoto à mão para dar um clic no professor ou mudar de canal.

Somente em Cuba, onde a televisão é estatal e não oferece muitas opções, o povo é capaz de ouvir Fidel Castro em discursos de 4 horas ou mais. Assim mesmo por obrigação já que todos são funcionários do Estado e o homem é o grande e único patrão.

Significativo foi aquele garoto norte-americano que o David Latermann mostrou no seu “talk-show” pela TV a Cabo. O menino estava postado justamente na primeira linha atrás do presidente George Bush que fazia um discurso da tribuna. Flagrado pela televisão, bocejava escancaradamente e, entre um aplauso e outro dado de má vontade, olhava impacientemente o relógio, esfregava a cabeça e enfiava o dedo no nariz.. O menino deu um show repetido inúmeras vezes em todos os canais de tevê dos EUA e do mundo. Mas os oradores chatos jamais se flagram, pois só têm ouvidos para as palmas e a para a própria voz.

Culpa da televisão. As crianças (e nós todos) estamos cada vez mais acostumados à velocidade dos videoclips ou à dinâmica dos telejornais com os assuntos divididos em blocos onde se alternam notícias emocionantes com outras sem contexto social, como a ida ao tribunal de Michael Jackson para depor.

Somente um grande tribuno consegue cativar platéias durante mais de uma hora. Especialmente aqueles que falam em auto-ajuda a pessoas massacradas pelos dissabores da vida familiar ou o mundo selvagem dos negócios. Esses ainda ouvem porque esperam encontrar a salvação naqueles que se apropriam do seu imaginário, papel antes exercido pela Igreja.

Outro que ainda tem vez é o contador de “causos”. A reconstrução de um episódio interessante cativa ouvintes de qualquer idade, especialmente quando o narrador sabe mexer com as emoções e a imaginação, com algumas pitadas de bom humor pelo meio.

Engraçado que Marx, em 1842, já reclamava desse golpe baixo do capitalismo que avacalhava com seu método científico de provar verdades sócio-econômicas. A dialética é incapaz de resistir ao que faz a classe dominante: esta nega a história e a substitui pelo imaginário para seduzir o real. Isso me lembra o quadro de Pedro Américo presente em todos os livros de História do Brasil para o Primeiro Grau. Mostrava D. Pedro I montado em fogoso corcel branco, cercado pela Guarda de Honra em uniformes com apliques dourados reluzentes, no momento em que desembainhava a espada para gritar “Independência ou Morte”.

O cavalo que não era branco era “negro como as asas da graúna e mais preto que uma noite sem luar”. Para quem acabava de subir a Serra do Mar, vindo de Santos da casa da amante, com dor de barriga, até que o Imperador estava muito bem arrumado. O detalhe é que a trilha na serra somente poderia ser vencida, naquela época, em lombo de burro. Os puros-sangue ingleses foram frutos da imaginação do pintor.

Hollywood já tem em mãos vários roteiros para filmes sobre o atentado às Torres Gêmeas e a Guerra do Iraque onde a história, contada à maneira americana, certamente terá muitos vilões de turbante com seus golpes traiçoeiros contra os seus democráticos “libertadores”. É a substituição do real pelo imaginário. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)