31 de maio de 2026
Geral

Bauruense exporta cachaça orgânica

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Adeptos da alimentação orgânica que gostam de pinga têm um motivo a mais para comemorar: a cachaça orgânica. Testado há cerca de dois anos, o produto é confeccionado de forma artesanal e totalmente livre de agrotóxicos e outros produtos químicos. A iniciativa é de um bauruense que segue a tradição de família e agora está abrindo as portas para o mercado estrangeiro.

O produtor rural Ronaldo Polido Padilha, 60 anos, conta que iniciou as pesquisas com a cachaça orgânica há cerca de dois anos e sem nenhuma pretensão comercial. Ele afirma que adquiriu uma sítio no município paulista de Natividade da Serra, no Vale do Paraíba.

Ele percebeu que a cana da região era muito boa, comprou uma moenda simples, montou um pequeno alambique e resolveu fazer cachaça. Ele aproveitou a técnica aprendida com o avô e somou a ela conhecimentos obtidos junto a universidades e pesquisadores. “O resultado é uma cachaça totalmente ecológica”, garante.

Segundo o produtor, a cana é cultivada sem qualquer tipo de agrotóxico. “Ela é adubada com restos de bagaço e humus (esterco de minhoca), que nós mesmos produzimos. Como reforço da terra, aplicamos vinhoto - que é um produto que sobra do processo de destilação do caldo”, explica.

Toda a cana é colhida manualmente, sem queimadas. Depois ela é moída e colocada em dornas de aço inoxidável para a fermentação. “O fermento também é natural, feito com uma bactéria cultivada numa base de fubá. No ponto correto, nós retiramos o caldo e colocamos numa panela de cobre para ferver, cuidando para que a temperatura não ultrapasse os 84 graus”, detalha.

Padilha explica que acima desta temperatura, o caldo da cana desprende aldeídos e acetato - substâncias que alterariam o sabor e a qualidade da cachaça. “Pesquisas científicas mostram que são essas substâncias que deixam a cachaça com sabor ardido e que causam queimação e dor de cabeça. Nossa produção vigia a temperatura para que isso não ocorra”, orgulha-se.

De acordo com o produtor, o intervalo entre o corte da cana e a destilação da cachaça é de aproximadamente 48 horas. “Isso também é importante, porque um período muito longo de armazenagem da cana já cortada facilitaria a contaminação por fungos e bactérias, o que também alteraria o sabor da bebida”, comenta.

Depois de muitos testes, Padilha conta que conseguiu encontrar a melhor bebida há cerca de um ano. Começou vendendo entre os amigos, depois para hotéis e bares finos. Informado sobre o valor dos produtos artesanais no Exterior, ele mandou amostras para a Europa por meio de amigos e agora lança o produto envasado em garrafas diferenciadas para exportação.

“Mas estamos começando devagar porque a confecção é artesanal e nossa produção é de 100 litros por dia. Temos que seguir esses padrões para manter a produção ecológica e a qualidade da cachaça. Nos últimos três meses já mandamos cerca de 1.000 garrafas para o Exterior”, informa.

As Cachaças Padilha são produzidas em dois sabores - prata e ouro. Prata é a bebida de sabor convencional. Ouro é a cachaça envelhecida em barris de carvalho, que dão uma cor amarelada e gosto característico ao produto. “E já estamos preparando um terceiro sabor - a cachaça envelhecida em barris de bálsamo, que dão à bebida um aroma semelhante ao licor de pequi. Devemos começar a vendê-la daqui a seis meses”, adianta.

As Cachaças Padilha são consideradas bebidas finas e, por isso, são vendidas quase exclusivamente por distribuidores deste tipo de bebida. Em Bauru, ela pode ser encontrada no Comprando, no supermercado Trigale e no Bar do Skinão.

Uma história de 84 anos

A produção das Cachaças Padilha dá continuidade a uma tradição familiar que já tem 84 anos. De acordo com o consultor econômico Roberto Polido Padilha, 64 anos, o patriarca da família, Antonio Padilha, imigrou da Espanha em 1920.

“Tão logo chegou a Bauru, firmou-se como fazendeiro bem-sucedido. Abriu o Bar e Restaurant Crystal para comércio de secos e molhados - que supria os colonos da fazenda e a população da cidade - e abriu a primeira fábrica local de bebidas quentes (destiladas)”, conta.

O imigrante e seus estabelecimentos tornariam-se tradicionais na cidade, pontos de encontro dos formadores de opinião da época, segundo Roberto. “Quis o destino que, 84 anos depois, meu irmão (neto de Antonio Padilha) estivesse hoje produzindo cachaça também”, comemora.

A família Padilha tornou-se tão importante no cenário sócio-político da cidade, que está registrada no livro “Nos tempos do Bar e Restaurant Crystal - A história dos irmãos Padilha”, lançado em 1996 como parte das comemorações do centenário de Bauru.

“Na época do centenário, o artista plástico Walter Mortari, muito amigo da família, pintou um quadro com a fachada do Crystal e os quatro irmãos Padilha - entre eles Antonio Padilha Filho, nosso pai - como uma aura sobre o bar. A obra ilustrou a capa do livro e hoje está no rótulo das Cachaças Padilha, vendida no Brasil e no Exterior com o título de tradição familiar”, encerra.