Greve de fome. A medida extrema adotada ontem à tarde por Luzia Aparecida Francisca foi a última alternativa encontrada por ela para reivindicar do poder público medicamentos para o filho paraplégico de 22 anos. Antes de radicalizar, ela peregrinou por unidades municipais e estaduais de saúde, pela imprensa e pela Justiça, que determinou à prefeitura o fornecimento de fraldas, remédios e material curativo.
Até ontem à tarde, a administração municipal providenciava a aquisição do material. “Faz 20 dias que ele está sem remédio para o rim e para as escaras (feridas provocadas pela falta de circulação). Ele já está com princípio de infecção urinária e com água no joelho. Agora é tudo ou nada. Se eu morrer em frente à Câmara, a sociedade vai tomar alguma providência”, diz Luzia.
Para sensibilizar a comunidade, ela escolheu as portas do Legislativo, onde acampou ontem às 17h30. Munida de cobertor, travesseiro, blusa de frio e cigarros, pretende permanecer no local até o recebimento dos remédios. Também levou dois quadros pintados pelo filho, que deixou de freqüentar a escola por falta de fraldas.
“Água vou beber até as 24h, depois nem isso. Almocei hoje (ontem) às 11h. Comi arroz, feijão e salada. Não tenho medo de mais nada. Já perdi meus dois filhos de criação por causa dessa situação. Devolvi para os pais naturais. Vendi tudo o que tinha para mantê-lo (o filho paraplégico). Vou temer o quê?”, questiona, ao ser alertada quanto aos perigos de permanecer ao relento.
Compreende a situação extrema o coordenador-geral do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência de Bauru (Comude), Francisco Takao Kajino.
“Até eu já pensei em adotar a mesma medida, mas em outras circunstâncias. É uma atitude radical, que pode ser confundida pela população como vontade de aparecer. Mas quem depende de medicamentos sabe que é dramático. A condição dela é desesperadora porque ela não tem condições financeiras nenhuma”, alerta.
Talvez, se estivesse em situação semelhante, a metalúrgica Lúcia Helena da Silva, que aguardava ônibus em frente à Câmara ontem à noite, tomaria a mesma decisão. “Pelos meus filhos faria qualquer coisa”, garante. Já uma outra usuária do transporte coletivo, reprova a iniciativa de Luzia. “Greve de fome não resolve nada, existem outros meios”, diz Maria de Lourdes Brito.
No entanto, a história tem mostrado que a alternativa costuma ser eficaz por colocar o poder público numa situação constrangedora, informa o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martin Vicente.
“É uma estratégia muito apelativa, usada para chamar a atenção e comover a sociedade para causas desesperadoras”, comenta. Ele não se recorda de outros casos de greve de fome em Bauru, assim como o historiador Luciano Dias Pires.
“Acho uma judiação ela chegar nessa condição. A greve de fome é uma situação limite, que ninguém deveria passar”, avalia a vereadora Majô Jandreice (PC do B). De acordo com ela, as instâncias competentes deveriam resolver a questão, pois o atendimento à saúde está garantido na Constituição Federal e o Sistema Único de Saúde (SUS) é universal.
Mas se Luzia mantiver a decisão e permanecer sem se alimentar por muito tempo, ela própria poderá engrossar a lista de pacientes do SUS. É impossível prever quanto tempo uma pessoa consegue ficar sem comer, mas é inegável a vulnerabilidade da situação.
“Uma pessoa bem alimentada resiste até uma semana (sem comer nada), mas cada pessoa reage de um jeito. O componente emocional é muito importante. (A resistência) depende das condições de saúde e se ela tem alguma patologia (doença) paralela”, informa a médica Telma Regina da Cunha Gobbi.