10 de julho de 2026
Política

Cerimonial ganha caráter mais informal

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

As cerimônias oficiais de hoje em dia já não são mais as mesmas. O excesso de regras e o protocolo, com o tempo, foram deixando de ter tanta importância e os eventos foram ficando mais informais. Pelo menos no que diz respeito aos municípios.

A jornalista e relações públicas Marli Baccan, que durante 29 anos trabalhou no departamento de comunicação da Prefeitura Municipal de Bauru, diz que, com o passar dos anos, as regras ficaram mais flexíveis e foram se acomodando de acordo com os eventos. “Um dos responsáveis por essa mudança foi o ex-presidente Fernando Collor, que quebrou muito o protocolo”, destaca.

Outra explicação para essa alteração nos costumes é o decreto que rege os cerimoniais. Ele é datado de 1972, ou seja, ainda guarda resquícios da época da ditadura militar. “O município de Bauru não possui um decreto que rege o cerimonial e tudo sempre foi feito com base nas regras do Estado e da União”, salienta.

O desuso do cerimonial é tão grande que as repartições públicas do município já não contam mais com um departamento especializado nisso.

Na Câmara Municipal, por exemplo, o cargo de assessor de cerimonial até existe, mas não tem ninguém nomeado para o cargo. O presidente do Legislativo, Renato Purini (PMDB), explica que tomou essa decisão por contenção de gastos. “Quando tem algum evento na Câmara, a diretora de apoio legislativo é quem cuida da organização”, salienta.

Essa funcionária, no caso, é a Soraia Elisa Segatto Pereira. De acordo com ela, o mais comum é a realização de entrega de títulos de cidadão do município e medalhas a homenageados. “Nós já temos todo um esquema preparado para essas ocasiões, mas também cuidamos das recepções que acontecem no Legislativo. Por exemplo, estamos sempre recebendo alunos de vários colégios da cidade para visita e damos o apoio que é necessário para isso”, frisa.

O advogado Célio Gonçalves, que durante 30 anos trabalhou no cerimonial da prefeitura, tanto na organização quanto atuando como mestre de cerimônia, salienta que o cerimonial do município não é tão rígido quanto o dos governos federal e estadual. “Os eventos mais importantes da esfera municipal, geralmente, estão relacionados às visitas do presidente ou do governador. Nesse caso, o cerimonial deles vêm junto e cuida dos detalhes”, salienta.

Ele diz que o tipo mais comum de evento organizado pela prefeitura é a inauguração de obras públicas e que, nesse caso, não há tantas regras a seguir. “Depende muito de cada prefeito. O chefe do Executivo é que determina como quer que seja o ritual”, destaca.

Palácio dos Bandeirantes

Enquanto no plano municipal o cerimonial não é muito rígido, o mesmo não se pode dizer na esfera estadual.

A responsável por esse departamento no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, Brasilia de Arruda Botelho, explica que tem uma equipe de cerca de 20 pessoas para cuidar de todos os trâmites que cercam esse cargo.

Ela esteve em Bauru na última semana participando da 1.ª Semana de Comunicação, Secretariado e Turismo (Comsetur), evento organizado pela Universidade do Sagrado Coração (USC).

Uma das atribuições do cargo, segundo ela, é cuidar para que tudo saia bem no dia-a-dia do governador, marcado por diversos compromissos. “Nossa missão não é apenas organizar grandes eventos, mas cuidar de tudo o que o governador vai fazer durante o dia”, diz.

Para se ter uma idéia, o chefe do governo estadual, Geraldo Alckmin, recebe uma média de 1,6 mil convites por mês e participa de cerca de 45 eventos mensalmente.

Quando se desloca para algum município para fazer visitas oficiais, o cerimonial precisa entrar em ação para que tudo saia dentro do esperado.

Brasilia explica que, em parceria com a Casa Militar e a Casa Civil do Palácio dos Bandeirantes, ela programa todo o roteiro do governador. “Enquanto a Casa Civil cuida dos detalhes para saber se o local está adequado para receber a comitiva, a Casa Militar verifica a segurança”, esclarece

Ela trabalha desde 1995 na chefia do cerimonial. Nesse período, desempenhou a função junto ao ex-governador Mário Covas e, em seguida, foi mantida no cargo por Alckmin.

Brasilia conta que o governador começa a trabalhar por volta das 8h todos os dias, e não tem hora para parar. Enquanto ele está na ativa, o cerimonial está em alerta, para deixar sempre tudo organizado.

Comparando os dois chefes do governo, Brasilia destaca que, enquanto Mário Covas tinha um temperamento mais explosivo, Alckmin demonstra ser mais calmo e segue tranqüilamente as regras do protocolo.

“O Covas não gostava muito de seguir certas regras, mas a gente sempre conseguia negociar com ele”, ressalta.

Para exemplificar, ela conta que, certa vez, durante a visita do imperador do Japão a São Paulo, o visitante disse que queria assistir a um jogo de futebol.

Na época, iria acontecer a final do Campeonato Paulista entre Corinthians e São Paulo, no estádio do Morumbi. Como esses eventos costumam ser muito tumultuados, organizou-se um forte esquema de segurança para levar as autoridades ao estádio. Só que, para garantir que tudo corresse tranqüilamente, o imperador teria de sair no meio do jogo.

Segundo o protocolo, o imperador só poderia deixar o recinto depois do governador, ou seja, Covas teria de se levantar primeiro da cadeira para o imperador japonês sair do estádio.

“O problema é que o governador estava gostando do jogo e não se levantava para o visitante poder ir embora”, lembra Brasilia.

Ela diz que avisava Covas de que era preciso ir embora, e ele respondia que o imperador estava gostando do jogo e que eles deviam ficar mais um pouco.

“O problema é que não havia como mudar o esquema de segurança e eles teriam que sair naquele momento. O imperador japonês não sabia o que fazer, pois ele tinha consciência que teria de ir embora, mas ficava esperando o governador se levantar. No fim, conseguimos convencer o Covas de que era preciso sair e ele foi numa boa”, destaca Brasilia.