08 de julho de 2026
Articulistas

Vida desgramada


| Tempo de leitura: 3 min

“Que importa o tempo sucessivo se nele houve uma plenitude, um êxtase, uma tarde”. A frase de Jorge Luiz Borges salvou o meu dia, justamente quando estava meio down por sentir que o tempo cronológico se esvai e as coisas que gostaria de fazer vão ficando para trás. Já não sou capaz de varar madrugadas lendo um livro sentado na poltrona aconchegante. O sono chega devastador e os compromissos, no dia seguinte, começam logo ao alvorecer.

Razão disse o Lula ao inaugurar a Bienal do Livro, em São Paulo – “Dá uma preguiça desgramada”. Os jornais repercutiram a declaração no dia seguinte. Como se tratava do dia dedicado ao índio alguém disse, interpretando as palavras do presidente, que ler seria entretenimento de silvícola. Ou mais diretamente: programa de índio.

Coitado do nosso presidente-operário. Existe uma vigilância exagerada sobre quem é obrigado a toda hora de fazer algum discurso. Seja na Festa da Cerveja ou no Encontro das Classes Produtoras. Esse contraditório espírito nacional baixou sobre nossa imprensa, antes compassiva com as gafes de outros presidentes tidos como “mais cultos” e agora mostra-se tão rigorosa com o presidente Lula. Maldade... Alguns jornalistas tacharam como gafe o seu eufemismo. Desgramada é uma maneira de suavizar “desgraçada”. Dalton Trevisan criou “desgraciada”. Outros disseram que ele estava comparando o ato de ler com o de fazer ginástica. Nada a ver...

Quando Lula enxergou, sem eufemismo nenhum, “trezentos picaretas” no Congresso Nacional, ele estava certo. Veja aí o que estão fazendo com o bingo, fonte de lavagem de dinheiro, corrupção e desgraça de jogadores compulsivos. Agora querem acabar com uma interpretação séria do Tribunal Superior Eleitoral de guardar a proporcionalidade entre o número de vereadores e o de habitantes de cada município. Se estamos numa democracia representativa nada é mais lógico do que acabar com essa anomalia danosa. São quase 61 mil vereadores espalhados pelo país. Custam R$3 bilhões por ano. No ano passado o governo cortou R$2,5 bilhões da saúde, da educação e da reforma agrária para ficar bonito na fita junto ao FMI. E não se trata somente de um problema de caixa. Qualquer aldeia sonha (e muitas já conseguiram) passar a município porque os que fazem política nesses grotões estão de olho nos subsídios. Na qualidade de cabos eleitorais de figurões do Legislativo, acabam conseguindo.

Desculpe-me o destempero. Este País deixa a gente nervoso. O que eu queria mesmo era reclamar da falta de tempo para as leituras prazerosas. Sou obrigado a ler o que os outros querem que eu leia: teses, dissertações, monografias, relatórios... Os textos que os amigos nos enviam, os livros que as editoras nos mandam e as revistas especializadas avolumam-se no escritório. Reluto pensar como Fernando Pessoa: “Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.”

Dia desses minha vizinha, mulher inteligente e culta, reclamava da falta de hábito de ler do brasileiro. Mais que uma questão cultural existe o lado econômico – os livros são caros e as bibliotecas escassas e de acervos modestos. Esse assunto também comporta análises sociológicas e antropológicas. As modernidades tornam o tempo ainda mais fugaz. A gente perde horas para abrir os imeils (favor não mudar). Recebi um que avisava: “Você está sendo traído”. Caracas.

É vírus. Só pode ser vírus. Imagina. Absurdo. Vírus, claro. Certeza. Tenho consciência de que ali existe um vírus embutido. Esses hackers são sórdidos. Não chega os bilhões de prejuízos que causam no mundo inteiro e ainda atentam contra o consciente dos internautas, psicologicamente mais fracos. Quando penso em certezas lembro novamente Fernando Pessoa: “Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer. Creio que esses princípios são fundamentais”. Tenho que encerrar porque o computador insiste em informar que fiz alguma coisa errada e programa vai ser fechado. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)