08 de julho de 2026
Mulher

Incorpore a camisinha

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

“Vista-se contra a Aids” dissemina a artista plástica Adriana Bertini na mostra homônima que pôde ser vista até a última quarta-feira, na Escola de Moda do Senac, em São Paulo e que no mês de julho abre a Conferência Internacional de HIV e aids, que será realizada em Bancoc, na Tailândia, onde a autora também terá direito a voz.

Há 10 anos, com o reaproveitamento de preservativos que não passam pelo o controle de qualidade das indústrias, Adriana levanta uma das questões mais problemáticas da sociedade atual: a importância do uso do preservativo e o cuidado com a vida sexual.

Ao investigar o tema da sexualidade do ponto de vista do sexo seguro, ela trabalha reelaborando os preservativos feitos de látex, tingindo-os e manuseando-os de diferentes maneiras e formas, provocando uma reflexão.

Na mostra “Vista-se contra a aids”, a artista criou uma coleção de roupas utilizando-se de recortes, aplicações e montagens de camisinhas, inteiras, recortadas, tingidas, texturizadas em peças de puro látex ou de látex sobre tecido obtendo resultados irreverentes, clássicas e glamourosas, perfeitamente usáveis.

Mas a idéia de Adriana não é vender as peças para desfilarem pelas ruas e sim fazer delas uma obra de arte que provoque questionamentos.

“O objetivo é trazer a camisinha para a roupa que é o elemento que está mais próximo do corpo. Quero confundir as pessoas e questionar o usar ou não usar do preservativo como roupa nas vias de fato. É uma metáfora e é essa reflexão que quero causar”, aponta Adriana Bertini.

E este uso seria indiscriminado na festa, no trabalho, no dia-a-dia e, principalmente, no Carnaval. Entre ternos, tops e vestidos, a artista expõe a alegoria de uma passista da escola de samba carioca Grande Rio, para quem confeccionou também as roupas de mestre-sala e porta-bandeira para os desfiles da Marquês de Sapucaí deste ano.

“O fato dessa exposição em massa já causou uma reflexão. A passista que representou a escola com a minha fantasia ganhou o concurso Musa de Verão, do programa Caldeirão do Huck”, conta.

Outro ponto que chama a atenção é que todas as peças têm nome de mulher. Adriana justifica a escolha como outro fator multiplicador de sua obra. “O seu nome pode estar ou não em uma das roupas, mas com certeza terá alguém que você conhece que está representada na mostra e você irá contar e debater o assunto com sua amiga. Isso para mim, já é gratificante.”

A artista também revela o orgulho em provocar a primeira conversa sobre sexo entre pais e filhos a partir de uma de suas exposições. Afinal, há uma década ela se preocupa com educação, arte e prevenção.

Pesquisa e alta costura

“Eu investigo o preservativo”, define Adriana Bertini, ao mostrar seu trabalho diferenciado, rico em detalhes como é o caso dos vestidos em que usou alta costura, com técnica de modelagem francesa e pinturas especiais em tecido, que enriqueceram esteticamente a transformação do preservativo.

Na coleção “Vista-se contra a aids”, a artista comenta nas legendas da mostra que utilizou basicamente a técnica de colagem onde trabalha a camisinha nas formas abertas, recortadas e fechadas.

Já a técnica de pigmentação, dependendo da cor utilizada, pode chegar até a 30 formas diferentes de se apresentar. Ao contrário das cores azul e verde, cujo processo de estabilidade é mais lento, demorando um período de até dois anos para obter um resultado satisfatório. “Você tinge, fecha, guarda e o resultado vai depender também da umidade, já que as caixas são enterradas. Até tintura de cabelo eu usei para conseguir uma coloração diferente.”

Já com as cores quentes como o vermelho, o rosa e o laranja, Adriana revela que o procedimento é mais rápido por se tratar de pigmentos naturais. “Sempre tomo muito cuidado em relação à ação e reação do meio ambiente. Em casos onde observo que minhas obras correm o risco de ficar muito expostas a uma intensidade grande de luz e ao calor, todo o cuidado é pouco, já que no próprio preservativo natural ocorrem transformações na sua coloração.”

Para a professora doutora, Loris Graldi Rampazzo, curadora da mostra, não seria suficiente dizer que o preservativo que vemos é um material de uso. “O que está diante de nós é como uma matéria transformada em um sensual objeto cujo pulso energético é vivo como fogo. Adriana Bertini rompe com tradições e tabus e oferece um lugar ao público.”

A jornalista viajou a convite do Curso de Moda e Estilo do Senac Bauru.

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Quem é Adriana Bertini

A artista plástica Adriana Bertini fez seus primeiros contatos com arte em dois setores distintos.

O primeiro, quando cursou decoração de interiores (cenografia) em Porto Alegre, RS. E o segundo no Rio de Janeiro quando freqüentou o curso de artes cênicas. Mas foi em São Paulo que ela descobriu o mundo da moda e começa a desenvolver acessórios para as grifes Forum, Ópera Rock, Carmim entre outras.

Em Florianópolis trabalhou como voluntária no Grupo de Apoio a Aids (Gapa) fazendo oficinas de arte para crianças soro positivas e iniciou a investigação artística do objeto preservativo reprovador pelo controle de qualidade.

Em 1997, fez sua primeira exposição individual no Hotel Hilton, em São Paulo. Paralelamente trabalhou com pinturas de arte, execução de cenários e adereços para campanhas publicitárias como Mamíferos Parmalat, McLanche Feliz e amaciantes Monbijou.

Freqüentou as aulas de saúde pública na Universidade de São Paulo (USP) e atuou no percurso de sua carreira em projetos sociais fazendo exposições, desfiles e palestras em Fortaleza, Porto Seguro, Maceió, Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro. Adriana fez pesquisas voluntárias em comunidades carentes, tribos indígenas, hospitais, penitenciárias e casas de apoio a pessoas vivendo com hiv e aids, onde observou o preconceito e a discriminação ao soro positivo.

Seu trabalho possui um caráter pedagógico e informativo e busca, pelo meio da arte, da educação e da estética, proporcionar debates e reflexões sobre as questões contemporâneas.