09 de julho de 2026
Bairros

Leishmaniose causa a segunda morte

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) confirmou ontem a segunda morte por leishmaniose visceral humana em Bauru, desde novembro do ano passado. A dona de casa Rosemary Lopes, de 46 anos, morreu no domingo após passar os últimos 15 dias internada em tratamento no Hospital Estadual (HE) Arnaldo Prado Curvêllo. Segundo vizinhos e parentes, porém, ela já apresentava sintomas da doença há quatro meses.

Desde que o primeiro caso de leishmaniose visceral humana foi diagnosticado em Bauru, em setembro do ano passado, a doença atingiu 18 pessoas. A última notificação a ser divulgada pela SMS, há uma semana, foi justamente a de Rosemary, que morava no Núcleo Edson Francisco da Silva (Bauru 16).

Segundo a diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da SMS, Maria Helena Abreu, o atestado de óbito da dona de casa traz como causas da morte edema agudo de pulmão, insuficiência renal aguda, septicemia, infecção urinária e pancitopemia (queda de produção de glóbulos vermelhos e brancos).

A filha de Rosemary, Priscila Lopes, de 20 anos, reclama que a mãe começou a se sentir mal no início do ano, mas em todas as vezes que foi ao médico foi informada de que estava com anemia profunda e infecção urinária. “Eles falavam que era uma coisa, mas na verdade era outra”, protesta.

A diretora do DSC confirma que a paciente passou a apresentar os sintomas de leishmaniose em fevereiro, mas só foi encaminhada para o HE no final de abril, após passar por nova consulta na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Nova Esperança. “Ela realmente já chegou com um quadro grave. O nosso pessoal está analisando os prontuários para verificar, exatamente, o que ocorreu”, comenta.

Segundo Abreu, porém, por enquanto não há nenhum indício que aponte ter havido negligência médica no caso. Ela acredita que o histórico médico da paciente também pode ter contribuído para a sua morte. “Antes de contrair a leishmaniose, ela já fazia uso crônico de medicamentos há oito anos. Além disso, ela teve várias complicações ao longo do tratamento”, relata.

Região de risco

O Núcleo Bauru 16, onde morava a dona de casa, está localizado na região da cidade que mais preocupa o DSC em termos de leishmaniose e que inclui, ainda, os bairros Vila Dutra, Núcleo Nova Esperança e Jardim Petrópolis. “Eles oferecem todas as condições para a proliferação da doença, pois apresentam muitos animais soltos e muito lixo nos quintais e terrenos baldios, além de um rio e da linha do trem”, afirma a diretora do DSC.

Ela explica que os funcionários da prefeitura manterão o trabalho que vem sendo realizado nessa região da cidade. “As equipes de vistoria do meio ambiente continuam fixas por lá, fazendo uma operação com autuações e multas nos locais que não são limpos pelas pessoas”, declara.

Percorrendo as ruas do Bauru 16, é possível notar que o núcleo é realmente um prato cheio para a procriação do mosquito palha, transmissor da doença, já que é comum encontrar terrenos baldios com lixo orgânico e fezes de animais no bairro.

Aliado a esse problema, a notícia da morte de Rosemary deixou os moradores do Bauru 16 preocupados. “E se um filho da gente pegar essa doença?”, questiona a dona de casa Rosa Maria.

Em novembro de 2003, José Carlos Weckwerth, de 47 anos, foi a primeira pessoa a morrer por leishmaniose visceral humana na cidade. O caso, porém, foi divulgado apenas no início de março desse ano, pois a Secretaria da Saúde alegou que não queria alarmar a população, decisão que foi amplamente criticada por diversos segmentos da sociedade e pela própria família da vítima.

Na região, a doença já havia matado uma criança de 8 anos, que morava em Guarantã (78 quilômetros a Noroeste de Bauru), no mês de janeiro.

Dos 18 casos de leishmaniose visceral humana registrados em Bauru desde setembro do ano passado, quatro foram em 2004. Embora o DSC tenha divulgado seis notificações neste ano, o órgão contabiliza duas delas como sendo referentes a 2003.

A mudança teve como objetivo atender à determinação da Secretaria de Estado da Saúde, que orientou os municípios a contabilizarem os casos em função da data em que o paciente começou a apresentar o sintomas da doença, e não mais a partir de quando a contaminação por leishmaniose for confirmada.

Em cães, foram registrados 192 casos da doença em Bauru neste ano para um total de 2.278 animais que tiveram amostras de sangue coletadas para exame.