Fabiano Fermino Ferreira, 25 anos, preso em Lençóis Paulista no último sábado sob acusação de ter furtado uma mobilete, acusou policiais militares de sua cidade de terem obrigado-o a engolir um pedaço de lâmina de barbear. O fato teria ocorrido quando o detento era levado da Cadeia de Avaí para fazer exame de corpo de delito, anteontem. Ele foi submetido a raio-X anteontem no Hospital de Base de Bauru, que revelou a existência de um corpo estranho metálico já no intestino reto, que pode ser a lâmina.
Ferreira fez a denúncia anteontem, ao ser transferido da Cadeia de Avaí para o Centro de Detenção Provisória (CDP). Ele disse que estava sem comer porque não conseguia engolir - a garganta e o esôfogo estariam feridos. O detento confirmou a versão ao delegado J.J. Cardia, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que vai encaminhar o caso para a Delegacia Seccional para abertura de inquérito.
A Polícia Militar afastou os dois policiais que escoltaram o rapaz e está apurando a denúncia em um inquérito policial militar. Após passar por consulta médica e ser submetido a raio-X, Ferreira foi recolhido ao CDP. O laudo médico aponta que ele não precisa ser internado e nem ser submetido a cirurgia, uma vez que o objeto estranho já estava no intestino reto. “O médico deu medicamentos para que o objeto seja expelido naturalmente pelo corpo”, conta Cardia.
Ferreira relatou que no trajeto da cadeia para o hospital ele e um dos policiais que o escoltava desentenderam-se. “Ele me perguntou se eu tinha alguma coisa no bolso da blusa e eu disse que não. Ele enfiou a mão no bolso e cortou o dedo porque tinha uma gilete”, conta.
O policial teria ficado com raiva de ter sido enganado pelo preso e, em represália, teria obrigado-o a engolir o objeto. Ferreira teria engolido a lâmina, mas não disse nada para o médico que fez o exame de corpo de delito. Ele só fez a denúncia quando iria dar entrada no CDP de Bauru.
Investigações
Até ontem, a DIG ainda não havia identificado os policiais militares acusados por Ferreira. “O caso será encaminhado para a Delegacia Seccional de Bauru, que deve pedir a instauração de inquérito para apurar os fatos pela delegacia de Lençóis Paulista”, explicou J.J. Cardia.
O delegado diz que a suspeita de automutilação não está descartada. “Há presos que se automutilam para prejudicar os policiais. Eu acredito que as investigações irão comprovar se houve ou não a participação dos policiais militares. Mesmo porque o preso alega que foi obrigado a engolir a lâmina por volta das 9h de quarta-feira. Alguém pode ter visto se isso realmente aconteceu. Não é um fato comum e tão rápido”, diz.
De acordo com o major Pedro Batista Lamoso, comandante interino do 4.º Batalhão da Polícia Militar, os policiais que escoltaram Ferreira já foram identificados. Seus nomes estão sendo mantidos em sigilo até que o caso seja esclarecido. “Eles desmentiram a versão do preso, mas já foi designado um oficial que fará a investigação”, diz.
Segundo o major, caso fique comprovado que os policiais obrigaram o preso a engolir uma lâmina, eles poderão ser demitidos da corporação. “Se no final das investigações houver provas que eles são culpados poderão ser punidos com a demissão. Ambos têm menos de 10 anos de serviço”, conta.
Ele adiantou que há contradição entre a versão apresentada pelo preso no CDP e na delegacia. “Para funcionários do CDP, ele (o preso) disse que engoliu a gilete por livre espontânea vontade. Além disso, os dois policiais que escoltaram Ferreira passaram por exames que comprovaram que eles não têm lesões causadas pela lâmina nas mãos”, diz.
Ontem à tarde, como procedimento do inquérito policial militar, a PM levou os policiais da escolta ao CDP para, entre outras pessoas, serem reconhecidos por Ferreira. “Ele (Ferreira) só reconheceu um dos dois policiais que fizeram a escolta e esse policial não tem nenhuma lesão no dedo, contradizendo a versão que ele apresentou. São provas que estamos juntado ao inquérito policial militar”, diz Lamoso. O inquérito deve ser concluído em 30 dias.
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Hipóteses
• Ferreira pode ter engolido um objeto, que não seja lâmina de barbear, e ter afirmado que foi obrigado por um policial para tentar prejudicá-lo
• Um outro preso pode ter obrigado Ferreira a engolir a lâmina e ele ter culpado o policial
• Ferreira pode ter sido obrigado pelo policial militar a engolir a lâmina ou outro objeto estranho