08 de julho de 2026
Regional

Índios de Avaí desenvolvem apicultura

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Avaí – O desenvolvimento da apicultura nas terras indígenas de Araribá, em Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru), é a nova promessa de geração de renda para cerca de 50 famílias terenas e guaranis. Desde o início do ano, elas têm se dedicado ao trabalho, mantendo apiários nas aldeias Kopenoty, Nimuendaju, Pyhau, Ekeruá e Tereguá.

Ontem, porém, um passo importante foi dado em direção à consolidação do projeto: a inauguração da chamada Casa do Mel, um espaço dotado de laboratório de processamento, com centrífuga e tanques de decantação, que permitem a produção de mel de forma profissional. O prédio está instalado na aldeia Tereguá e atenderá aos apicultores das cinco comunidades.

O projeto de desenvolvimento da apicultura nas terras indígenas da região nasceu a partir de uma iniciativa da Universidade do Sagrado Coração (USC), em parceria com as entidades alemãs Sozialwerk Brasilienhife e Kinder Missionswerk. No total, foram investidos cerca de R$ 100 mil no projeto.

Nas aldeias, a iniciativa foi coordenada pelo professor de botânica da USC, Dorival José Coral, que desenvolve trabalhos de extensão em Araribá desde 1996.

Atualmente, cada uma das cinco aldeias indígenas de Avaí conta com um apiário com dez colméias, cuja capacidade de produção pode chegar a 200 quilos de mel por ano. Ou seja, com o aperfeiçoamento da atividade, a reserva poderá gerar até uma tonelada de mel.

“Para isso nós precisaremos melhorar algumas coisas, como a pasta apícola e as plantas com flores. Os índios estão começando a ter consciência disso”, ressalta Coral. Na avaliação dele, as aldeias estarão preparadas para atingir esse pico de produção em quatro anos.

Nos primeiros meses de implantação do projeto, a reserva de Araribá já conseguiu extrair das colméias cerca de 80 quilos de mel. “A comunidade ainda não tem grande produção para estar comercializando para fora, porque está no começo. Mas eu acredito que a partir de um ano, a produção de mel já será significativa”, afirma Coral. Apesar de cada aldeia contar com seu próprio apiário, todo o trabalho de processamento, armazenamento e embalagem do produto estará concentrado na Casa do Mel. Segundo Coral, a infra-estrutura do laboratório montado em Araribá permitirá uma produção de qualidade, que atenda as exigências do mercado.

O professor afirma que esse é o primeiro laboratório de processamento de mel instalado na região. “Em comunidades indígenas, no Estado de São Paulo, não existe nenhum”, destaca.

Além da USC e das entidades alemãs, o projeto da Casa do Mel também conta com a parceria da Fundação Nacional do Índio (Funai) e Diocese de Bauru.

Geração de renda

Segundo Coral, o objetivo principal do desenvolvimento da apicultura em Araribá é fixar o índio e sua família na prórpria aldeia. “Essa atividade vai fazer com que o índio permaneça dentro da terra indígena. Até um tempo atrás nós tínhamos grandes problemas da maioria dos índios ter que trabalhar fora, como bóia-fria. Essa é uma atividade que permite a subsistência da família”, ressalta o professor, lembrando que a produção de 100 quilos de mel, gera, em média, uma renda de R$ 15 mil.

Para o terena Jasoni de Camilo, cacique da aldeia Ekeruá, a importância do projeto de apicultura reside exatamente nessa possibilidade de geração de renda dentro da reserva. “Os índios terão uma fonte para sobreviver, através da venda de mel, trabalhando na própria aldeia”, diz.

A mesma opinião é compartilhada por um dos apicultores formados dentro do projeto, o terena Cândido Lepu, 35 anos, que já trabalhou como bóia-fria durante sete anos. “Naquela época, eu levantava 4h30 para ir trabalhar fora (nas fazendas). Agora não, nós temos a hora marcada para visitar nosso apiário e podemos ficar perto da família”, comemora o terena, que é pai de três filhos.

O guarani Nelson Alves da Silva, 27 anos, da aldeia Nimuendaju, afirma que os índios da reserva já tinham motivação para trabalhar com abelhas, entretanto não possuíam recursos para investir no negócio. “Antes nós tirávamos o mel no mato, só para o sustento da família”, diz.

O projeto da Casa do Mel, segundo ele, foi um incentivo para que a atividade seja organizada de forma profissional. “O mel é um comércio para muitas coisas. Era um sonho nosso mexer com isso”, diz o guarani, que está trabalhando em seu apiário com a ajuda da mulher e da filha de 9 anos.

Nelson lembra que o mel produzido também será utilizado para o próprio consumo na aldeia, já que este é um alimento característico da cultura indígena. “Em casa, nós fazemos remédios e xaropes para gripe”, conta.

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Cultura

De acordo com César de Moraes, representante da Fundação Nacional do Índio (Funai), a produção de mel sempre fez parte da cultura terena e guarani.

“Segundo os representantes indígenas, há cerca de 50 anos, aqui existia mata e eles produziam mel, com abelhas nativas. O mel está presente novamente na reserva e isso implica na própria revitalização da cultura”, avalia.

Moraes também destaca a importância do processo de geração de renda dentro das aldeias. Segundo ele, o exercício da atividade de bóia-fria, ao qual muitos índios dedicaram-se até pouco tempo, afastava o indígena da família e de suas terras, enfraquecendo, inclusive, seus laços culturais. “Hoje, eles trabalham na sua própria terra, obtém lucro e seu alimento”, afirma.

A professora da USC, Miryam Schuckar, que intermediou a liberação de recursos junto às entidades alemãs financiadoras do projeto, lembra que a produção de mel na aldeia também será uma fonte de profissionalização para os jovens indígenas. “A criança vendo o pai sendo capacitado para produzir o mel indiretamente está aprendendo aquele ofício. E as crianças e adolescentes de 13 e 14 anos poderão ser pré-profissionalizados nessa área”, destaca.