09 de julho de 2026
Geral

Carrinhos de recicláveis levam secretarias a discutir projeto

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Uma cena inusitada chamou a atenção de motoristas e moradores de diversas ruas do Centro da cidade, ontem por volta de 16h. O catador de material reciclável Carlos Eduardo Alves da Costa, 29 anos, empurrava a carcaça de uma Brasília, equilibrando-a sobre as duas rodas de seu pequeno carrinho de mão. Por mais curiosa que fosse a situação, ela expõe um problema social que vem crescendo nos últimos anos em Bauru: o número de catadores de materiais recicláveis circulando pela cidade, inclusive crianças e adolescentes.

Costa relata que havia ganho a Brasília de uma oficina de funilaria na Vila Vicentina. “Precisou de quatro pessoas para colocá-la em cima do carrinho! Agora, vou levar para vender em um ferro-velho na rua Antônio Alves”, comentou, com um sorriso no rosto.

Motoristas e pedestres que cruzavam com o rapaz não esboçavam qualquer reação irritada, mesmo com a Brasília ocupando boa parte das vias. Entre sorrisos e gestos de apoio, era possível ouvir os motoristas justificando um pequeno atraso por conta da passagem de Costa. “Eu vou me atrasar um pouquinho porque estou parado na (avenida) Duque de Caxias e tem um cara carregando uma Brasília nas costas”, comentou um motorista.

O catador de material reciclável conta que mora com a esposa e quatro filhos no Centro da cidade, e que ganha a vida recolhendo papelão, alumínio, ferro e outros materiais há mais de quatro anos. “É uma vida dura, a gente passa perigo, tem motoristas que só faltam passar por cima do carrinho. Mas a situação é essa. Antes, eu estava desempregado”, lembra.

A Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) não tem estimativa do número de pessoas que circulam pelas ruas da cidade com carrinhos para recolher recicláveis e sucata. Ontem, representantes da pasta se reuniram mais uma vez com integrantes das secretarias municipais do Meio Ambiente (Semma) e de Planejamento (Seplan) para discutir o projeto de uma Associação dos Catadores de Material Reciclável.

A diretora do Departamento de Ação Social da Sebes, Janete Aparecida Fraga da Silva Sôniga, explica que o projeto vem sendo desenvolvido há alguns meses, exatamente por conta do aumento da circulação dos catadores pelas ruas. “Os catadores e a reciclagem agora são mais uma questão social do que ambiental. A falta de qualificação profissional e a baixa renda leva essas pessoas para as ruas”, diz.

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Projeto

A proposta da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) é cadastrar os ambulantes e realizar a análise socioeconômica de cada um, com o intuito de verificar o que os levou a deixar o mercado formal e de que forma eles podem ser inseridos em programas de geração de renda. Segundo Janete Sôniga, diretora da Sebes, a idéia é organizar os ambulantes de maneira que eles possam obter maior lucro com a venda dos materiais recolhidos, e que estes tenham destinação correta.

“A Central de Reciclagem no Jardim Redentor começou por conta dos catadores de papel. Hoje, eles separam os recicláveis que recebem, comercializam e o lucro é rateado. Mas o número de catadores aumentou, o desemprego é um problema mundial. Com o projeto, vamos perceber se eles têm interesse em ser cooperados”, aponta.

O projeto da Associação de Catadores de Material Reciclável ainda está em desenvolvimento e as discussões devem continuar nas próximas semanas. Janete adianta que inicialmente devem ser atendidas 100 famílias, com preferência para os catadores que armazenam os materiais e sucata em sua casa ou terrenos baldios.

“Também queremos conscientizá-los de que o que não foi vendido não pode ser jogado nos lixões ou queimado. E ainda temos crianças que têm a mesma atividade, o que é uma crueldade. Todos esses aspectos serão contemplados com o projeto”, conclui a diretora do Departamento de Ação Social da Sebes.