09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Erradicação da hanseníase é desafio

Diego Molina
| Tempo de leitura: 7 min

A erradicação da hanseníase no Brasil até o próximo ano, conforme prevê o compromisso assinado pelo governo federal com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é um desafio para os órgãos de saúde de todo o País. Em um ano é preciso reduzir a prevalência da doença, que hoje é de quatro casos para cada 10 mil habitantes, para um caso a cada grupo de 10 mil pessoas.

Para tentar atingir a meta, no mês passado o Ministério da Saúde lancou o Programa Nacional de Erradicação da Hanseníase. A meta da erradicação até 2005 foi estabelecida entre os países membros da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1999.

Em Bauru e região existem atualmente cerca de 100 pacientes com hanseníase em tratamento, segundo o dermatologista Diltor Vladimir Opromolla, que trabalha há 45 anos no Instituto Lauro de Souza Lima e foi homenageado pelo governo federal por seu trabalho no combate à doença. O instituto é um dos principais centros de pesquisa e tratamento da hanseníase no Estado e, com o programa de erradicação, vai aumentar os atendimentos a pacientes com seqüelas da doença e que precisam de reabilitação física.

Opromolla foi homenageado pelo governo federal no lançamento do programa de erradicação da doença, juntamente com outros médicos brasileiros e o cantor Ney Matogrosso. Nesta entrevista, o dermatologista fala sobre a hanseníase, os tratamentos da doença e outros problemas de saúde pública.

Jornal da Cidade - Como é o trabalho do Instituto Lauro de Souza Lima no combate e no tratamento da hanseníase?

Diltor Vladimir Opromolla - O instituto antigamente era um hospital somente para hansenianos. Os doentes eram internados compulsoriamente porque não havia tratamento. Havia cinco sanatórios no Estado e Bauru era um deles. Depois de internados, eles não saíam mais. À medida em que as coisas progrediram e que a doença ficou mais conhecida, apareceram tratamentos e esquemas terapêuticos novos. Os doentes não precisam mais ser internados compulsoriamente. Os hospitais foram mudando suas características e o nosso teve mudança bastante drástica. Começamos a receber pacientes com outras com doenças dermatológicas. Como sempre houve tradição na questão da pesquisa, o hospital acabou se transformando, em 1989, em instituto de pesquisa na área da dermatologia.

Atualmente, o instituto é referência para casos complicados de doenças de pele, principalmente casos sem diagnóstico preciso e sem terapêutica. As pesquisa são focadas nessa área de dermatologia, em especial nas doenças de interesse sanitário, como leishmaniose, pênfigo, micoses profundas e mais especificamente a hanseníase.

JC – E como vai funcionar o programa de erradicação, lançado pelo governo federal? Outros países ainda não conseguiram acabar com a hanseníase?

Opromolla - A doença é endêmica em muitos países, no sudeste asiático, na África e na América do Sul. O problema é que no início da década de 1990, a Organização Mundial de Saúde assumiu o compromisso de atingir uma meta para o controle e eliminação da hanseníase como um problema de saúde pública. Seria reduzir a endemia, o número de doentes para 1 a cada 10 mil habitantes. Essa meta seria para 2000. Todos os países deveriam ter essa situação, e muitos conseguiram, mas outros ainda não, como é o caso do Brasil. Ainda são mais de dez países que não atingiram sua meta. O Brasil tinha prevalência de 13 doentes para 10 mil habitantes em 1988. E hoje, temos quatro para 10 mil. Mas ainda estamos muito além da meta. O prazo foi estendido para 2005, então temos até o ano que vem para atingir a meta.

JC – Mas a redução no número de doentes já foi significativa, não?

Opromolla - Caímos de 13 para 4 pacientes a cada 10 mil pessoas. Foi uma redução importante, sim, um trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Ministério da Saúde. Os ministros que passaram (pela pasta) têm considerado a hanseníanse como prioridade, e realmente o trabalho tem sido bom, muito bem desenvolvido. Apesar das mudanças que tivemos na política, o trabalho continua e existe a possibilidade de chegar lá e atingir a meta da OMS.

JC – Qual é a melhor maneira para erradicar a doença?

Opromolla - Temos um tratamento. Doença é provocada por um bacilo, uma bactéria. Existem pacientes que têm a doença em forma contagiosa e outros, não. Os pacientes que têm a forma contagiosa muitas vezes apresentam lesões nas mucosas oral e nasal, então existe a possibilidade de eliminar o bacilo pelas vias aéreas e transmitir a doença. Não se transmite mais do que já vem ocorrendo porque a maior parte das pessoas em qualquer comunidade do mundo é resistente à doença. Cerca de 95% das pessoas têm resistência e, se ficarem doentes, será uma forma mais benigna. Só uma porção pequena tem suscetibilidade maior a essa doença contagiosa.

JC – Mas como tratar as pessoas que não são resistentes e acabam desenvolvendo a doença?

Opromolla - O ideal seria ter uma vacina completa, mas ainda não temos. A vacina BCG protege contra hanseníanse, mas não totalmente. Outra coisa importante são os remédios, que já temos. Temos um esquema terapêutico hoje que associa três drogas e que é altamente eficaz. Com isso, a prevalência da doença, o número estimado de doentes que havia no começo da década 80, que era de 15 milhões no mundo todo, hoje é de menos de 1 milhão. Apesar da redução, o número de doentes novos que aparece também é grande. Hoje, temos por volta de 700 mil doentes novos todo ano no mundo. No Brasil são de 37 a 38 mil doentes todo ano, o que ainda é um número alto. Houve um enxugamento no número de doentes bastante importante. O problema é o número de doentes novos. Temos vacina que protege parcialmente e a maior parte da população é resistente à doença. E nós temos um tratamento eficaz. O que precisa? Fazer um diagnóstico precoce porque a doença tem uma predileção muito grande por membros periféricos (mãos e pés) e pode levar à incapacidade física do paciente. Quanto mais cedo se descobre a doença e a trata, menor a possibilidade do doente ficar aleijado. Temos que fazer diagnóstico, temos que treinar pessoal. Esse é o grande investimento que o Ministério da Saúde tem feito. Aqui no Lauro, temos 11 cursos por ano. Cursos de hansenologia, preleção de incapacidade e reabilitação. São cursos para uma clientela do País todo.

JC – Como a hanseníase ataca o paciente?

Opromolla - A doença tem predileção por membros periféricos, a pessoa perde a sensibilidade nas mãos e nos pés, principalmente. Ela pode ficar com defeitos motores, como garras, ou mesmo na face. O grande problema é que, com a insensibilidade, ela pode se machucar sem perceber. Como ela não sente dor, vai continuar mexendo o membro, continua a trabalhar. E acontece que o ferimento não fecha e pode infeccionar com outras bactérias e até necrosar. Então pode ser que tenha de amputar um pé, por exemplo, mas por conta dos machucados. Pode até estar curada da doença, mas ter ficado com algum membro anestésico que pode machucar e acontecer isso. O que a doença faz é atacar os nervos e deixá-los com incapacidade, pode deixar insensível ou com distúrbios motores.

JC – O senhor foi homenageado pelo governo federal pela sua contribuição nas pesquisas contra a hanseníase. O senhor ficou feliz com a homenagem?

Opromolla - O que aconteceu foi que o governo deu continuidade ao trabalho que já vinha sendo desenvolvido com o lançamento deste programa de erradicação. E eles procuraram homenagear algumas pessoas que estão ligadas à pesquisa, controle ou tratamento da doença, inclusive eu, porque trabalho há muitos anos aqui, e quiseram escolher uma pessoa mais idosa provavelmente (risos). Eu não pude comparecer por questões de saúde - minha filha foi no meu lugar. Mas me senti feliz com a homenagem.

JC – O instituto também faz o tratamento de outras doenças de saúde pública e Bauru vem enfrentando um surto de leishmaniose nos últimos meses. Na sua opinião, a doença está sendo tratada da maneira correta?

Opromolla - O que eles (Secretaria Municipal de Saúde) estão fazendo está certo. Existe uma mobilização para controlar a doença, mas no caso da leishmaniose, o veículo, o reservatório da doença, é o cão. Acho que têm sido tomadas as providências corretas. Na saúde pública é importante você começar a atuar para não deixar que a coisa chegue numa situação mais complicada. O que está sendo feito são as medidas corretas. Tenho uma crítica e é como acontece com a hanseníase. Eu acho que ainda falta muito para a população se conscientizar a respeito da hanseníanse, assim com o acontece com a leishmaniose. Com esse tipo de doença, seria necessário que houvesse uma maior divulgação. Existe um esforço nesse sentido, mas ele esbarra numa série de situações operacionais que impedem a coisa de ser da maneira como deveria. Campanhas, imprensa, todo mundo deveria participar.