Já foi a época em que domingo era apenas dia de reunir a família para o almoço em torno de uma boa macarronada e com direito a uma sesta à tarde. Atualmente, é cada vez maior o número de pessoas que transformou esse dia da semana em mais um período de trabalho. “As necessidades do mercado fizeram dos sábados, domingos e feriados um dia qualquer de trabalho para muitas categorias profissionais”, explica a consultora de recursos humanos Daniela Gibim Duarte.
Ela diz que, em Bauru, não há uma estatística sobre o número de pessoas que desenvolvem atividades profissionais aos domingos, mas que é fácil observar que isso vem ocorrendo cada vez com mais freqüência. “Os setores de serviço e comércio estão adotando o domingo como um expediente normal de trabalho”, acrescenta.
Essa mudança de comportamento do mercado está se dando em função das necessidades das pessoas. Atualmente, elas têm o dia tomado por tantos compromissos que não sobra tempo para cuidar de si mesmas. Assim, as compras em supermercados, lojas, o abastecimento do automóvel, tudo é feito aos domingos.
Além dos supérfluos, há os serviços essenciais, que nunca podem parar de funcionar, como hospitais, policiamento, vigilância, que exigem mão-de-obra disposta a dedicar qualquer dia da semana ao trabalho.
De acordo com o secretário municipal do Desenvolvimento Econômico, Domingos Malandrino, Bauru não possui um levantamento sobre o número de trabalhadores que dão expediente normal aos domingos. “Mas, se a gente fizer um breve levantamento dos estabelecimentos que funcionam nesse dia, é fácil perceber que há milhares de pessoas se dedicando ao trabalho nesse dia”, ressalta.
Como exemplo, ele lista farmácias, postos de combustíveis, hospitais, órgãos públicos - como o Departamento de Água e Esgoto (DAE) e a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), que mantêm funcionários de plantão -, além do policiamento e dos restaurantes.
Somente no Bauru Shopping, que funciona todos os domingos, são cerca de 200 trabalhadores atuando no final de semana. A auxiliar administrativa do empreendimento, Silvia Garcia, destaca que a abertura das lojas é facultativa. No entanto, como é um dia de grande movimento para as vendas, aproxidamente 80% dos estabelecimentos abrem as suas portas ao público nesse dia. “Sem contar que temos a praça de alimentação e os funcionários da manutenção sempre em serviço”, destaca.
Já na Polícia Militar (PM) de Bauru, são cerca de 190 pessoas prestando atendimento aos domingos à população, segundo informações do major José Humberto Nardo, do 4.º Batalhão de Policiamento Militar do Interior (BPMI-4).
Cooperação familiar
Para exercer normalmente suas funções no dia dedicado ao ócio, os trabalhadores precisam contar com a compreensão e o apoio familiar. Isso porque não é nada fácil sair de casa para o plantão de final de semana deixando para trás o tradicional almoço ou o passeio com os filhos ou o marido/esposa.
A enfermeira obstétrica e doula (acompanhante de partos) Sandra Alia Abib Valentim é um bom exemplo disso.
Como trabalha prestando atendimento às mulheres no momento de dar à luz, ela não tem dia nem hora para exercer a sua função. “Mesmo que eu não tenha um parto para fazer, é preciso muitas vezes visitar a mãe que acabou de sair da maternidade, dando apoio no pós-parto. E isso pode acontecer num domingo”, salienta.
O marido, o agrônomo Roberto Valentim, e os filhos, um de 16 e outro de 18 anos, dizem que já estão acostumados com essa rotina sem hora marcada. “Quando nós casamos, ela já tinha esse horário de trabalho, ou seja, eu já casei sabendo que a profissão dela exigia isso”, destaca.
No entanto, ele diz que a situação ficou mais crítica a partir do momento que ela passou a atuar também com assessoria à parturientes. “Quando vamos passear, ela nunca deixa de levar o celular. Se está aguardando algum chamado, ficamos naquela ansiedade”, conta.
Ele diz que nos domingos em que Sandra trabalha a casa fica mais triste. “A gente pensa: ‘tinha tanta profissão para escolher e ela escolheu justo essa, que exige tanto sacrifício’”, ressalta.
“O que nos conforta é saber que ela é feliz sendo enfermeira e que é um prazer para ela trabalhar, seja em que dia for”, complementa Valentim.
Na casa da encarregada de departamento de uma rede de supermercados de Bauru, Márcia Peres Pedro, a tecnologia é a aliada dos plantões dominicais. Ela, que é mãe de dois filhos, trabalha três domingos por mês. Quando isso acontece, deixa a comida pronta no sábado à noite e as crianças esquentam no microondas no domingo. “Eles são bastante independentes e se viram bem na minha ausência”, destaca.
Ela está há quase seis anos nessa rotina e conta que já acostumou com a correria. Quando tem algum evento social para ir, tenta negociar na empresa para compensar a folga em outro horário. “A gente sempre dá um jeito de conciliar a vida particular com a vida profissional”, ressalta.
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Solidariedade
A sargento da Polícia Militar Cristiane Zabo Puccinelli está há 17 anos na corporação e, durante todo esse período, sempre trabalhou dois domingos por mês. Casada e mãe de dois filhos, ela conta que a família já está acostumada a esse ritmo. “É claro que eles prefeririam que eu ficasse todo domingo em casa, mas não reclamam mais”, frisa.
Segundo ela, as datas comemorativas que coincidem com o seu plantão são sempre negociadas. “As pessoas são solidárias. Mudam data de festa para que eu possa comparecer, me ajudam no que for preciso”, diz.
Quando ela está de plantão, o marido e as crianças mudam o roteiro do almoço: ou vão na casa da mãe da sargento ou da sogra dela. “O marido dá uma força grande nessas horas”, reforça.
O supervisor de uma rede de fast food de Bauru Luiz Fernando Martins de Souza ainda não é casado, mas também precisa abrir mão dos compromissos em família para trabalhar aos domingos.
Ele conta que a noiva, Güinatta Sanchez Martino, de vez em quando reclama da sua ausência nesse dia da semana, mas ela procura ser compreensiva. “Eu sempre tenho um horário livre para ela e para a minha família”, destaca.
Souza trabalha há três anos nessa empresa e sempre atuou aos domingos que, para ele, têm gosto de dia de semana. “Antes de trabalhar aqui, eu era funcionário de um supermercado e lá também tinha esse esquema”, ressalta.