08 de julho de 2026
Saúde

Uso de medicamentos é controverso

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Cortar ou não a febre com medicamentos é um assunto controverso entre os especialistas. Enquanto uns defendem a medicação imediata, outros sugerem que o remédio só deve ser administrado se a temperatura subir demais. Mas em uma coisa todos concordam: observação e bom senso são essenciais.

Para o pediatra e alergologista Felinto dos Santos Neto, toda febre deve ser medicada. “Não é cortando a febre que você vai atrapalhar o diagnóstico. Se a criança tem uma infecção de garganta, você vai ver na garganta e assim por diante”, defende.

Já o pediatra e homeopata Afrânio José Martinelli recomenda que a medicação só deve ser administrada quando a febre é alta (acima de 38,5 graus). “Abaixo disso, a gente diz que o paciente tem uma febre boa. Nessa faixa de temperatura, o aquecimento inibe o crescimento dos germes e estimula o sistema imunológico. Se você eliminar essa febre com remédios, os micróbios voltam a se desenvolver”, salienta.

Na opinião do médico infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa, a melhor postura é avaliar o estado geral do doente. “Se a criança está com 39 graus de febre, mas está pulando, rindo, brincando, ela está bem. Se ela tem uma febre moderada, mas está apática, abatida, quietinha, diferente, você tem um indício de um quadro mais sério”, exemplifica.

Costa ressalta que a febre é apenas um sintoma da doença. O medicamento antitérmico funciona somente contra a febre, é um paliativo. Ele não trata a doença. “Se a infecção estiver lá, você dá o remédio, a febre cede um pouco, mas daqui a pouco ela volta. Eu, pessoalmente, quando tenho febre, enquanto posso tolerar, eu deixo o organismo reagir sozinho”, afirma.

Martinelli reforça que o medicamento só deve ser usado em caso de grande desconforto ou de temperaturas muito elevadas. Nesse caso, o remédio a ser usado deve ser aquele sugerido previamente pelo pediatra.

“Aí vale uma observação: num episódio de febre as pessoas não devem ingerir medicamentos que contenham ácido acetil salicílico (AAS, Aspirina, Melhoral, entre outros). Essa substância pode desencadear uma doença chamada síndrome de Reye, que é grave. E também pode agravar outras infecções, como a dengue”, alerta.

Socorro

Questionado sobre o melhor momento de se procurar o médico, o infectologista Marcelo Pesce da Costa defende que o especialista deve ser procurado sempre que houver uma dúvida. “Quando a febre é no adulto, ele sabe reconhecer quando o quadro é grave, é diferente do habitual. Na criança isso pode ser mais difícil. Então, na dúvida, leve ao pediatra”, recomenda.

Santos Neto concorda, mas dá algumas dicas para facilitar o reconhecimento de um quadro mais grave. “Se além da febre a criança tem um quadro geral ruim, está desanimada, gemendo, leve logo ao médico. Mas se a criança está animadinha e os pais conseguem manter a temperatura controlada, o ideal é aguardar 24 horas” afirma.

Segundo ele, esse é o tempo mínimo necessário para que o profissional consiga identificar o agente causador da infecção. Algumas bactérias evoluem mais rapidamente, mas, nesse caso, o quadro geral da criança já será preocupante.

Outra recomendação dos especialistas é quanto à duração da febre. Mesmo quando a temperatura é baixa, uma febre que persiste por mais de três dias precisa ser investigada. Muitas doenças - entre elas os tumores, leucemias e outras patologias crônicas - podem deixar o indivíduo em estado febril, mas sem outros sintomas visíveis.

____________________

Convulsão febril

Uma das situações mais preocupantes num episódio de febre em crianças é o risco de haver uma convulsão. O médico homeopata Marcos Dias de Moraes cita que vários livros e autores renomados em pediatria são unânimes em afirmar que são muito raros os casos de convulsão febril. De cada 100 crianças, três correm o risco de apresentar o problema.

Mesmo assim, esses casos são incomuns em crianças com menos de 6 meses e depois dos 4 anos de idade. Moraes salienta, em seu site (www.hexanet.com.br/~marcosdm/febre.html) que a convulsão febril constitui um tipo de epilepsia. Crianças que têm esse traço genético podem apresentar uma crise mesmo com estados febris em que a elevação da temperatura é pequena.

De acordo com o infectologista Marcelo Pesce Gomes da Costa, diante de uma convulsão, é preciso manter a calma. A primeira providência é deitar a pessoa de bruços com a cabeça virada para o lado. Isso impede a língua de “enrolar” e evita afogamentos com a saliva.

Também é importante afastar objetos para que a pessoa não se machuque com os movimentos involuntários de braços e pernas. A crise é curta e costuma passar antes que qualquer outra providência seja tomada. “Não adianta sair correndo para o médico, porque pode até facilitar um acidente mais grave. Espere a crise passar e depois vá ao médico, sem pânico”, comenta Costa.