11 de julho de 2026
Política

Saci-pererê 'tramita' na Câmara de Bauru

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

A turbulência na Câmara Municipal de Bauru ganhou mais um reforço. O clima tenso que aterroriza o Poder Legislativo nos últimos meses, apimentado por denúncias de irregularidades envolvendo os próprios vereadores, agregou o Saci-pererê como mais um de seus componentes. Na sessão de segunda-feira, começou a tramitar na Casa projeto de lei de iniciativa do vereador José Carlos Batata (PT) que inclui no Calendário Oficial de Eventos do Município o Dia do Saci.

Se aprovado, um dos mais famosos personagens do folclore brasileiro terá o dia 31 de outubro para “fazer a sua festa”. Mas é também nesta data que se comemora o Dia do Halloween, conhecido também como Dia das Bruxas. A coincidência, porém, é proposital. A iniciativa de Batata foi provocada pela Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), sediada em São Luís do Paraitinga, município paulista histórico encravado no planalto localizado entre as serras do Mar e da Mantiqueira, no Vale do Rio Paraíba.

O movimento cresce a tal ponto que a proposta de adotar o 31 de outubro como o Dia do Saci será encaminhada também ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, autor da música “Sítio do pica-pau-amarelo”, obra que deu vida aos personagens de Monteiro Lobato, na série diária levada ao ar pela TV Globo. Na região, a Associação Nacional dos Criadores de Saci, sediada em Botucatu, também apóia o proposta.

Exposição de motivos

Na justificativa encaminhada junto com o projeto de lei, Batata observa que cresce, “ano a ano”, a comemoração do Dia do Halloween. “Em que pese o significado histórico da data, trata-se de um costume ‘importado’, típico de países com colonização anglo-saxã e que nada a tem a ver com a cultura nacional”, argumenta.

O petista acredita que, se aprovado, o projeto que institui o 31 de outubro como o Dia do Saci vai valorizar a cultura nacional e suas figuras mitológicas. Na avaliação dele, o saci simboliza a resistência contra os super-heróis e os personagens dos filmes e desenhos importados. “Esses, infestam o imaginário das nosssas crianças e jovens. Já o Saci desafia e enfrenta os estrangeirismos que corroem o idioma nativo, em detrimento da nossa cultura e autonomia”, opina.

Na defesa incondicional do seu projeto, Batata defende que a cultura popular é “elemento essencial” à identidade de um povo. “As tentativas insidiosas de apagar do imaginário do povo brasileiro sua cultura, seus mitos, suas lendas, representam a tentativa de destruir a identidade do nosso País”, insiste.

Mas o fato do projeto propor o 31 de outubro como o Dia do Saci - conflitando com o Dia do Halloween - já provoca polêmicas. Marco Antonio Campagnucci, diretor-proprietário de uma escola de idiomas - instituições na qual se comemora o Dia do Halloween - , lembra que as comemorações - folclóricas ou não - acontecem “sem fronteiras”.

“Querer estabelecer um novo evento só para se comemorar e dar peso à nossa cultura, é complicado”, analisa. “Acho louvável a decisão de proteger nossos costumes, mas é difícil estabelecer barreiras para que influências de outras culturas sejam bloqueadas”, opina.

O professor Antonio Walter Ribeiro de Barros Jr., titular da disciplina Folclore e Cultura Brasileira, do Centro de Ciências Humanas da Universidade do Sagrado Coração (USC), também estranha a proposta da comemoração do Dia do Saci na mesma data do Halloween.

“Existe um porquê do Halloween. É ligada a uma tradição de séculos; é ligada a um povo específico. Simplesmente associar um dos mitos do nosso folclore a uma outra festa, na minha opinião, é negativo. O mito é narrado e tem função específica, seja educativa, pedagógica, religiosa. Não se pode simplesmente substituir uma data pela outra”, analisa.