10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Habitação aperta orçamento familiar

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Nem arroz e feijão, nem remédio, nem transporte coletivo. A despesa que mais pesa no bolso da família brasileira é a habitação, que inclui aluguel, telefone, luz, gás, água, manutenção e móveis. Os gastos com esse item ocupam o primeiro lugar no ranking da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

O órgão analisou as despesas segundo as classes de rendimento entre julho de 2002 e julho de 2003. Os novos dados permitem comparações com outros apurados nos últimos 30 anos. Neste período, o IBGE constatou que independentemente da classe social, as famílias precisam pagar mais para morar, direito previsto no capítulo 2 do artigo 6º da Constituição Federal.

Ricos e pobres destinam, na média, 35,5% do orçamento familiar para garantir um teto. A dificuldade de garantir abrigo é retratada pela história de Vilma Ortiz Ruiz. Ela, o marido e quatro filhos vieram do Mato Grosso para Bauru em busca da casa própria.

“Lá a gente trabalhava para pagar o aluguel. Aí surgiu a oportunidade de conseguirmos uma casa aqui. Viemos logo”, conta Vilma, que atualmente mora no bairro Ferradura Mirim, numa residência de quatro cômodos.

Mesmo com a garantia do pedaço de chão, ela reclama do valor despendido com a conta de luz, que subiu nos últimos tempos de uma média R$ 32,00 para R$ 45,00. A renda da família não ultrapassa R$ 350,00.

A queixa com os gastos inclusos no item habitação também ecoa na classe alta. Uma empresária, que preferiu não se identificar por questões de segurança, e que tem renda mensal superior a R$ 10 mil, reclama das contas de telefone. “O custo é um absurdo. Está ficando cada vez mais pesado. Os preços dispararam de um ano e meio para cá”, diz, ao se preparar para deixar temporariamente sua casa na Zona Sul rumo ao Exterior.

Padrão

Por causa da elevação desses custos, algumas famílias estão abrindo mão do padrão habitual de conforto e segurança, informa o economista Reinaldo Cafeo, para quem é alto o percentual do orçamento doméstico destinado ao grupo de habitação.

“A população ainda paga 22% de produtos indiretos (ICMS, PIS, Cofins, IPI) embutidos no consumo ou na produção. Só que não recebe do Estado os serviços que precisa e na qualidade que deseja. Então, paga duas vezes. Sobra muito pouco para lazer e educação”, enfatiza.

Para garantir que esses itens sejam atendidos, algumas famílias de classe média fazem malabarismos, que incluem o não-pagamento de contas. “É uma tendência natural deixar o condomínio para segundo plano, quando não dá para compor todos os gastos. Tem gente, funcionário público por exemplo, que está sem aumento há 20 anos. Atrasa o pagamento e para acertar faz acordo”, explica o sócio-proprietário de uma administradora de condomínios, Milton Antonio de Barros.

De acordo com ele, para contornar o crescente aumento nos custos da água e do material de limpeza, por exemplo, alguns condomínios estão excluindo serviços, como os porteiros no horário diurno.

Pior ainda para quem é obrigado a vender a casa e mudar-se para um local mais barato, acrescenta o diretor-executivo do Sindicato da Habitação (Secovi), Laerte José Tadeu Temple. Ele adverte que há anos o próprio IBGE vem confirmando a queda do rendimento do brasileiro.

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Problemas no domicílio

Em cada dez entrevistados pelo IBGE durante a pesquisa, quatro reclamam da falta de espaço em casa. Vilma Ortiz Ruiz é um exemplo. Na casa de quatro cômodos, ela acomoda o marido e os quatro filhos. Porém, não sabe onde vai encaixar o berço do bebê que está por vir.

“Preciso de pelo menos mais dois cômodos, o que deve me custar cerca de R$ 1.500,00. Agora não vai dar mais para esperar (o início da reforma)”, afirma. Ela deve contar com a ajuda de vizinhos para levantar dois quartos.

Graças à colaboração dos moradores do bairro, Vilma não aponta a violência e o vandalismo no bairro como o maior incômodo ao entorno dos domicílios, como fizeram 28% das famílias brasileiras. No entanto, de acordo com ela, a calmaria da rua onde mora não se mantém poucos quarteirões abaixo da sua casa. O bairro Ferradura Mirim, onde a família dela está instalada, é considerado violento.

Muito longe de lá, a empresária que preferiu não se identificar diz que vive num paraíso. Gosta dos vizinhos de condomínio e da arquitetura e tamanho da própria casa. Porém considera altos os custos da mão-de-obra da construção civil, pagos quando precisa reformar o ambiente. Mesmo assim, ela se esforça para deixar o imóvel ‘bem apresentável’, para evitar a desvalorização imobiliária.

Diferentemente das preocupações apresentadas pela empresária, a pesquisa do IBGE constatou que os problemas domiciliares mais citados em todas as regiões do Brasil (além da falta de espaço) também envolvem a degradação, como telhado com goteira, janelas, portas e assoalhos deteriorados e umidade do chão e das paredes.