09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

oportunidade ou oportunismo


| Tempo de leitura: 3 min

Por décadas ouvimos o jargão que dizia que a “América era o país da oportunidade”, numa referência ao desenvolvimento dos EUA. Mas, observando melhor, aqui é o país da Oportunidade. Vejamos.

Aqui você pode praticar o mais pérfido e torpe dos crimes sendo menor de 18 anos, que vai ser chamado apenas de infrator e não poderá ser preso (apenas “apreendido”). Os menores que colecionaram longa esteira de crimes durante sua inocente adolescência não levarão qualquer registro dessas informações após os 18 anos (puxa, perdoar é humano). Aqui se entrega um título de eleitor ao jovem de 16 anos, dizendo que ele é responsável e tem o poder de decidir o destino de milhões, mas ninguém ousa dizer que ele pode decidir o próprio destino, pois é inimputável aos olhos da lei (que ferre os outros, mas não ele mesmo). Nossos estudantes não precisam estudar para passar de ano, pois assim eles não serão adultos frustrados (esse negócio de estudar para prova não coaduna com a mentalidade atual, né mano?). Aqui existe a figura da prescrição de crimes e dívidas, ao contrário da maioria dos países, o que apenas favorece o bom criminoso e bom devedor (basta se esconder por algum tempo...). Aqui o consumidor de drogas não é considerado criminoso e não pode mais ser preso (muito embora ele seja a razão de ser e a força motriz do tráfico de armas e drogas). Aqui o condenado, cinco anos após cumprir sua pena, terá sua ficha criminal completamente limpa (afinal, ninguém precisa saber dos seus erros passados...). Aqui, se você souber como desviar dinheiro público, terá grandes chances de se tornar um político e ter o prazer de fazer parte de qualquer governo (às vezes isso parece ser um requisito essencial de todo bom político). E como homem público, poderá utilizar a “presunção de inocência” ao longo de décadas e continuar na carreira política, até que morra de velhice (nos preocupamos muito com a imagem ilibada de todos que integram a administração pública). Aqui temos um sistema judiciário que favorece o réu até final instância, em detrimento do direito de autores (nossa sociedade se preocupa muito com a perseguição injusta, ainda que isto seja a minoria dos casos). Aqui todos têm o direito de voto, seja ou não alfabetizado, tenha ou não consciência política (muito embora “direito obrigatório” devesse ser chamado de “dever”). Aqui preocupamo-nos com o direito e bem-estar do presidiário e dos bandidos mortos em confrontos (mas pouco se fala das vítimas e dos policiais mortos em confrontos); no Brasil, gostamos dar nomes bonitos aos crimes, tal como hediondos, famélicos, de pequeno potencial ofensivo, como se a solução da criminalidade fosse uma questão de semântica (apesar do sentimento de indignação da sociedade apenas aumentar com a impunidade).

Enfim, parece que somos mesmo o país das oportunidades. Só lamento que essa oportunidade sempre seja berço para o oportunismo que nos coloca nos piores lugares de qualquer ranking mundial da saúde, do bem-estar, da educação, da corrupção, do desenvolvimento, do economia.... (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)