08 de julho de 2026
Polícia

Clonagem de cheque é a fraude da vez

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

A polícia apreendeu ontem à tarde um cheque clonado de R$ 8.700,00 usado para comprar seis mil passes de ônibus no posto da Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb). Também prendeu um homem acusado de ter utilizado a falsificação para praticar o estelionato, crime considerado a fraude da vez. Em Bauru, estima-se que pelo menos um comerciante enfrente o problema por semana.

A ocorrência nem sempre está entre as estatísticas policiais porque na maioria dos casos o valor do cheque é pequeno. Mas ontem, os R$ 8.700,00 chamaram a atenção de um funcionário da Transurb que, depois de fazer a venda dos passes, consultou a empresa que teria emitido o cheque. Ela negou a compra e a polícia foi acionada.

Tiago Gomes de Souza, 20 anos, residente em Campinas, foi localizado por policiais na Praça Rui Barbosa ainda com os seis mil passes. Conduzido ao 3.º Distrito Policial, ele foi reconhecido pela vítima.

“Ele disse que recebeu o cheque de um amigo dele em Campinas. A Transurb não consultou (o cheque) porque a empresa emissora é reconhecida na cidade. Depois resolveu se certificar da emissão. Ele (Souza) foi autuado em flagrante”, informa o delegado do 3.º DP, Elias Evangelista Bueno.

De acordo com ele, se o rapaz for condenado por estelionato e por uso de documento falso, pode pegar até nove anos de reclusão. Ontem à tarde, Souza seria enviado à Cadeia Pública de Avaí. De lá, deve seguir para o Centro de Detenção Provisória (CDP), onde aguardará julgamento. Os passes foram devolvidos para Transurb e o cheque apreendido será encaminhado para perícia técnica.

“Pela experiência que a gente tem dá para dizer que (a clonagem) foi muito bem feita. Deve ser alguém que trabalha com computação (o autor da falsificação). Ele não trabalha sozinho. É uma rede, que depende de gente (para passar). Deve ser um especialista”, comenta o delegado.

Hipóteses

Segundo um profissional do segmento de artes gráficas e fusão de imagens, que pediu para ter o nome preservado, o processo de clonagem de cheques deve ser muito trabalhoso por causa dos detalhes. “O “cara” tem de ser bom porque não é fácil reproduzir as estruturas geométricas (do papel do cheque)”, diz.

Por essa razão é que o diretor do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), Sérgio Evandro Motta, acredita que o papel usado seja do próprio banco. “Eles roubam talões e retiram a tinta da impressora (instalada em caixas eletrônicos) com produtos químicos. Depois, escrevem o que quiserem. A base é sempre o papel original”, afirma.

Segundo ele, uma outra forma de falsificação é a montagem de dois cheques de clientes diferentes. Neste caso, a numeração do documento é alterada e o cheque normalmente sustado pelo banco não é identificado mesmo sob consulta.

“Acontece bastante (a clonagem). Toda semana aparece um caso. É muito prejuízo”, lamenta sem estimar valores. Para Motta, a utilização de um equipamento que faz a leitura magnética dos cheques é o único meio do comerciante evitar cair na clonagem. No entanto, a aquisição da máquina é dispendiosa. “Fora isso não tem o que fazer”, alerta.

Mais otimista é o superintendente da Caixa Econômica Federal (CEF), Geraldo Luiz Machado de Oliveira, para quem a incidência de fraudes no banco é pequena. Ele defende alguns cuidados simples como arma contra falsificações.

“Além de verificar as linhas de segurança, o ideal é preencher o cheque escrevendo as palavras umas próximas às outras. Também é recomendável ligar para a empresa para confirmar a emissão do cheque”, sugere.

A última dica será adotada pela Transurb a partir de hoje, informa a assessoria de imprensa. Um caso semelhante ao registrado ontem em Bauru ocorreu em Jacareí há uma semana, quando um homem que se fez passar por funcionário de uma empresa de Campinas comprou 2.396 passes com um cheque falsificado no valor de R$ 4.049,00.

A empresa de transporte coletivo que sofreu o golpe anulou os passes e alertou a população, mas algumas pessoas também arcaram com o prejuízo, informou o jornal ValeParaibano.

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Falsificação

A clonagem pode ser tanto manual quanto mecânica, informa a Associação Brasileira de Empresas de Informação, Verificação e Garantia de Cheques (Abracheque). No primeiro caso, os fraudadores utilizam uma folha de cheque verdadeira, apagam o nome e números da identidade e do Cadastro de Pessoa Física (CPF) para trocá-los por outras informações.

“Isso permite que o cheque de uma pessoa que tem o nome sujo seja clonado com o nome de outra e passe a ser aceito no comércio”, diz o presidente da Abracheque, Carlos Pastor.

A outra forma de clonagem é a impressão a laser de folhas de cheque em nome de usuários verdadeiros ou não. Segundo texto veiculado pela Abracheque no site do Serviço de Apoio à Pequena Empresa (Sebrae) do Paraná, o avanço da tecnologia e o aperfeiçoamento das máquinas de impressão facilitam a ação dos fraudadores, que transformaram a clonagem na fraude da vez.