O Centro de Valorização da Criança (Cevac), localizado no Núcleo Geisel, ameaça fechar o abrigo para adolescentes vítimas de maus-tratos e situação de risco no final do mês devido a dificuldades financeiras. A diretoria da entidade receia que a verba repassada pelo Conselho Municipal de Assistência Social, que cairá de R$ 6 mil mensais para R$ 1,5 mil mensais em julho, não será suficiente para cobrir os gastos do abrigo. Já a creche do Cevac, que atende 60 crianças de 6 meses a 6 anos, não corre risco de fechar.
De acordo com a assistente social e coordenadora do abrigo do Cevac, Simone da Silva, a entidade vinha recebendo R$ 6 mil mensais em recursos municipais, desde sua implantação, há dois anos. Com a verba, são pagos os salários dos oito funcionários permanentes, entre cozinheira, educadoras, assistentes sociais e psicóloga.
Outras despesas da entidade são pagas com recursos do Lions Estoril e de promoções realizadas pelos funcionários e voluntários. O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente afirma que o valor da verba será reduzida porque o Cevac vinha recebendo mais que outras entidades. A Associação das Entidades Assistenciais e de Promoção Social entende que o valor recebido pelo Cevac é baixo, mas ressalta que cerca de 70 entidades de Bauru vivem a mesma situação.
O abrigo funciona 24 horas e recebe adolescentes de 12 a 17 anos vítimas de maus-tratos, abuso sexual, prostituição e dependência química encaminhadas pelo Conselho Tutelar e pelo Poder Judiciário. No abrigo, elas recebem alimentação, vestuário, medicamentos, produtos de higiene pessoal e material escolar.
As adolescentes ainda desenvolvem atividades de artesanato, ginástica, reforço escolar e acompanhamento psicossocial, assim como cursos profissionalizantes em outras entidades da cidade. Atualmente, 11 meninas estão abrigadas na unidade. “Recebemos as adolescentes em situação precária, muitas não têm família ou não podem voltar para casa. O que decidimos é que se não conseguirmos parcerias com empresas ou entidades que possam nos ajudar, vamos fechar o abrigo no final deste mês. Não sabemos qual será o futuro das meninas”, ressalta a coordenadora.
Em Bauru, além do Cevac, somente a Casa de Nazaré recebe meninas adolescentes em situação de risco. De acordo com Pedro Sérgio Batista, presidente da Casa de Nazaré, não haveria possibilidade das meninas do Cevac serem abrigadas na instituição. “Nossa capacidade é de 16 vagas e temos 16 meninas atualmente. Não temos mais vagas. Se o Cevac fechar, este problema terá de ser resolvido de outra forma, porque nosso limite está tomado”, comenta.
Esperança
As adolescentes abrigadas no Cevac, informadas sobre a possibilidade de a entidade fechar, afirmam que esperam ajuda da comunidade para manter a instituição. “Eu já fugi daqui, mas voltei. Me arrependi até o último fio de cabelo e agora quero tentar ajudar a casa, quero fazer o máximo possível para não deixar isso aqui fechar. Essa é a minha casa e é o único lar que tenho”, diz uma adolescente de 14 anos abrigada na entidade.
Ela conta que perdeu seus pais quando ainda era bebê e agora entende a importância de participar das atividades oferecidas pela entidade, para buscar uma oportunidade ao sair do Cevac. Outra adolescente de 14 anos relata que várias meninas que hoje vivem no Cevac foram tiradas das ruas.
“Na rua, você tem colegas só para te oferecer droga, cigarro e bebida, mas ninguém para te ajudar. Aqui, a gente tem um outro lado da vida. As meninas são bem tratadas e a gente tem o apoio dos funcionários. Não falta nada”, completa. Para uma adolescente de 15 anos, é importante mostrar que o abrigo oferece uma nova oportunidade de vida para as adolescentes.
“Se a gente sair daqui, não tem para onde ir. Na rua, não vamos encontrar nada, não vamos ter o que temos aqui. Estamos confiantes de que o abrigo vai continuar aberto, porque a esperança é a última que morre”, diz.
• Serviço
O Cevac fica na rua Alziro Zarur, 13-50, no Núcleo Geisel. O telefone da entidade é (14) 3281-2455.
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Problema geral
Paulo Canalli, presidente da Associação das Entidades Assistenciais e de Promoção Social de Bauru, reconhece que a verba de R$ 1,5 mil por mês para manter o abrigo do Cevac é baixa, mas ressalta que cerca de 70 entidades de Bauru vivem a mesma situação. A Creche Berçário São Judas e São Dimas, por exemplo, recebe R$ 3,5 mil por mês para atender 120 crianças, conta.
Ele ressalta que o Cevac vinha recebendo um valor maior, de R$ 6 mil mensais, para ajudar na implantação do abrigo. “Esse valor era destinado à implantação do abrigo, não é uma verba de manutenção. Se a verba é pequena, todas as entidades recebem pouco. Não havia como manter o valor”, diz.
A alternativa das entidades para complementar orçamento é realizar promoções, diz Canalli. Ele lembra que a situação poderia ser ainda pior se a lei que destina 2% do orçamento municipal para as entidades não tivesse sido aprovada. “A verba destinada às entidades neste ano dobrou em relação a 2003”, completa. (Ieda Rodrigues)