08 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Vulnerabilidade


| Tempo de leitura: 3 min

Li ontem uma crônica muito bem escrita sobre a vulnerabilidade humana e fiquei pensando comigo mesma sobre o assunto por horas inteiras. Os humanos, de uma forma geral, são seres extraterrestres quando se trata de relacionamentos.

Cada ser é um universo único, indivisível e impenetrável. Um mundo à parte! Ninguém consegue atingir a alma humana. Podemos ser íntimos de alguém, amá-lo intensamente, conviver com ele anos a fio, de repente, um dia, nos surpreendemos com suas atitudes, com alguma palavra dita ou com algum gesto inusitado. E nos surpreendemos muito mais com a idéia que ele faz de nós.

Almas humanas são impenetráveis, eis a verdade! Por mais que nos abramos ao outro, por mais que ele se mostre a nós, nunca faremos de seu eu a leitura verdadeira, pois o lemos de acordo com a leitura que fazemos de nós próprios... E ele não é igual a nós!

Coração humano é como um cofre, com um segredo complicado para se abrir e a chave que nos deram só abre a primeira porta. Exupèry já nos disse com muita propriedade que a linguagem é uma fonte de mal entendidos.

Quantas e quantas vezes você achou que estava sendo generosa, gentil, boa amiga de alguém, e ficou sabendo que a pessoa detestou tudo o que você fez, sentindo-se feliz, como uma boa samaritana?

Triste? Sim, é triste! Complicado? Sim, é complicado! Então vem a pergunta inevitável: o melhor seria então ser egoísta, individualista, fechado em si mesmo como uma ostra numa concha? Paradoxalmente, isto não nos traria dissabores, mas não nos faria feliz.

Aí é que entra a dualidade do ser. Nem tudo o que nos poupa de tristezas e desapontamentos, nos alegra e nos faz plenos. Nascemos para compartilhar, amar, sofrer, rir sempre que possível e chorar quando preciso for.

Creio que foi Sartre a dizer com sabedoria que nenhum homem é uma ilha. Precisamos nos envolver, nos abrir, nos expor, para que a vida tenha sabor. Não quero passar minha vida como se vivesse num centro cirúrgico onde tudo é limpíssimo e silencioso, mas quem ali chega, é porque está com problemas.

Não, não e não! Prefiro os sobressaltos de um viver intenso, apostando nos sonhos, mesmo sabendo que eles podem virar pesadelos. Afinal, já disse Ruben Alves, são os sonhos que engravidam o desejo. Esse mesmo desejo que não nos deixa enlouquecer diante da inexorabilidade da vida, que nos leva de roldão se não a segurarmos com a garra de um guerreiro.

Vulnerável sim, mas feliz por estar inteira, vivenciando essa vulnerabilidade que me faz sentir viva, apanhando vez ou outra, é bem verdade, desapontando-me outras tantas... Mas sempre acreditando que o reino é aqui, e está dentro de nós.

Como um campo de trigo misturado com joio, mas balançando-se ao sol, e tornando-se dourado, mesmo que por efêmeros instantes. Não importa que outros não saibam, nem nos alcancem! Sabemos que guardamos dentro em nós um grande e inestimável tesouro. E esse saber é que faz toda a diferença de nossa vulnerável vida!!!

A autora, Ercília Ferraz de Arruda Pollice, é escritora, poeta e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.