08 de julho de 2026
Geral

Bauru é 3ª em morte por álcool em SP

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

A região de Bauru é a terceira do Estado que mais registrou mortes de homens entre 35 e 59 anos por doenças do fígado provocadas pelo álcool, entre os anos de 2000 e 2002. A constatação faz parte de uma pesquisa inédita realizada pelo Sistema Estadual de Análise de Dados (Fundação Seade), divulgada na semana passada.

De acordo com o levantamento, em cada 100 mil mortes de pessoas do sexo masculino, ocorridas entre a faixa etária considerada a mais produtiva (dos 35 aos 59 anos), 29,2 são decorrentes de doenças hepáticas causadas pelo consumo excessivo de álcool.

A região de Bauru se destaca, ficando atrás apenas da de Ribeirão Preto (com 44,3 mortes em cada 100 mil) e a de Marília (com 29,7), coincidentemente áreas fortes de álcool.

O índice é preocupante, segundo a diretora da Divisão de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, Josiane Fernandes Lozigia Carrapato. Ela explica que o alcoolismo é uma doença que está camuflada na sociedade e dificilmente é admitida pela vítima. “A pessoa só procura tratamento quando está num estágio muito avançado de dependência”, ressalta.

Geralmente, isso só acontece depois que o alcoolista está há dez ou 15 anos bebendo, segundo a diretora.

No Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), entidade ligada à Secretaria Municipal de Saúde, são registrados cerca de 350 atendimentos mensais. Desse total, aproximadamente 70% são alcoolistas e 30% dependentes de outras drogas. “A maioria dos pacientes é do sexo masculino”, afirma Josiane.

Na opinião dela, a terceira colocação da região de Bauru no ranking paulista se deve à situação socioeconômica e à grande quantidade de estudantes que residem nessa localidade. “Temos muito desemprego por aqui, que é um fator que leva à depressão e ao conseqüente abuso do álcool”, diz.

“Por outro lado, a população de universitários é alta e, entre esse segmento, também é registrado um grande consumo de bebidas alcoólicas, o que pode resultar em doenças futuras”, completa a diretora.

Crescimento

O levantamento da Fundação Seade foi baseado nos atestados de óbitos fornecidos pelos cartórios do Estado. Segundo esses dados, entre 1996 e 2002, houve um aumento de 14,8% nas mortes ocorridas devido a problemas do fígado causadas pelo álcool.

Conhecido também como hepatopatia alcoólica, esse mal é decorrente do consumo excessivo de álcool. De acordo com a análise da Fundação Seade, as mulheres são mais vulneráveis à lesão hepática. As que consomem bebidas durante anos equivalente a 20 mililitros de álcool puro por dia (200ml de vinho, 390ml de cerveja ou 60ml de uísque) podem desenvolver o problema.

Já os homens precisam de uma quantidade bem maior para sofrerem lesões hepáticas: seriam necessários 60ml de álcool puro para isso.

Essa substância pode causar três tipos de lesões hepáticas: acúmulo de gordura, inflamação e formação de cicatrizes (cirrose). “Ao fornecer calorias sem nutrientes essenciais, o álcool diminui o apetite e causa má absorção de substâncias nutritivas devido aos seus efeitos tóxicos sobre o intestino e o pâncreas”, afirma o estudo da fundação.

O gastroenteorologista e proctologista Mário Hamada ressalta que o consumo excessivo de álcool pode levar ainda ao desenvolvimento de câncer de esôfago e outras doenças graves. “Além disso, também eleva o número de acidentes e a violência”, salienta.

Na pesquisa da Fundação Seade, as mortes por doenças do fígado aparecem em segundo lugar entre as maiores causas de morte no Estado no que diz respeito a homens na faixa de 35 a 59 anos. Em primeiro lugar estão as doenças isquêmicas do coração.

Ainda de acordo com o levantamento, as taxas masculinas de morte por doenças alcoólicas do fígado são nove vezes superiores às femininas. Enquanto os óbitos entre os homens subiram de 23,6 para 27,1 para cada grupo de 100 mil indivíduos no período analisado, os de mulheres permaneceram praticamente estáveis, no patamar de três mortes para cada grupo de 100 mil.

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Efeitos colaterais

Depois de beber por 26 anos, Beto, que preferiu não revelar a sua identidade, conseguiu se curar do vício do álcool e das drogas. Ele conta que tomou o primeiro gole aos 8 anos de idade e chegou ao “fundo do poço” até conseguir se livrar da dependência. “Perdi tudo na vida: mulher, apartamento, emprego... só me conscientizei quando consegui enxergar o sofrimento dos meus pais”, destaca.

Segundo ele, o difícil para o alcoolista é admitir a doença. “A gente nunca acha que é um vício. Pensa que bebe só para se divertir, mas a verdade é que não consegue mais parar”, salienta.

O consumo excessivo de bebidas - entre elas pinga, vodca e uísque - acabou causando efeitos colaterais em Beto. Ele não chegou a desenvolver cirrose, mas conta que vomitava sangue e tinha muita dor de estômago. Depois que parou de beber, os problemas de saúde surgiram com mais intensidade. “Quando a gente bebe, fica anestesiado e não percebe que o corpo está sofrendo.”

Hoje, aos 40 anos, ele comemora seis anos sem beber. A ajuda veio dos Alcoólicos Anônimos (AA), entidade que desenvolve discussões em grupo para a recuperação da dependência.

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O que é cirrose?

É uma doença crônica e irreversível do fígado, em que as células normais sofrem lesão e são transformadas em cicatrizes. A causa mais freqüente é o alcoolismo, seguido pelas hepatites B e C. Há também algumas doenças congênitas, mais raras, que podem desencadear essa patologia. A prevenção é possível evitando-se o consumo excessivo de álcool e por meio da vacina contra a hepatite B.