08 de julho de 2026
Regional

Índios investem em artesanato de barro

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Para dar os primeiros passos e recuperar a tradição do artesanato com barro, os índios da reserva se uniram e formaram a Associação da Reserva Indígena de Araribá, em Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru), conta o presidente Marcílio Marcolino. “Nós procuramos a prefeitura para tentar resgatar a tradição de fazer peças com argila. Formamos a associação para poder agir em benefício da nossa comunidade e propusemos um curso de artesanato.”

Marcolino explica que a tradição se perdeu porque os índios, por um tempo, passaram a ser empregados dos brancos e acabaram esquecendo sua própria tradição. “Os índios tinham que sobreviver. Chegaram a trabalhar em roças alheias como bóias-frias.”

A técnica de trabalhar com o barro acabou ficando com apenas duas índias, segundo o presidente da associação. “Ambas estão bastante idosas e com a visão debilitada, o que impossibilita que elas ensinem seus descendentes a arte de transformar barro em artesanato decorativo.”

A atividade, informa o índio, tornou-se necessária porque o município incentivou o turismo. “Os turistas que chegam para conhecer a reserva querem adquirir algum artesanato e nós não temos para vender. Em função disso, eu, como presidente da associação, decidi procurar ajuda.”

O pedido dos índios foi atendido pelos parceiros que patrocinaram o curso no Clube Avaí. Na primeira etapa, candidataram-se 49 índios, sendo que a maioria mulheres, de todas as idades. “A turma foi dividida em duas. Essa é a primeira.”

Mas o curso não vai se limitar somente à confecção de vasos e jarros como era a tradição indígena. “Vamos aprender também a confeccionar bijuterias usando matéria-prima da mata existente na aldeia.”

A professora de artesanato do Senar, Zenaide Berti Lopes, passou quatro dias com os primeiros 23 alunos escolhidos para resgatar a tradição indígena. Para ela, os índios trazem consigo conhecimentos únicos. “Eles aprenderam rápido, tanto que no segundo dia de aula já conseguiram confeccionar peças bastante decorativas.”

A monitora acredita que, com as aulas, os índios vão desenvolver a criatividade. “Eles aprenderam as técnicas de conservação e aperfeiçoaram sua própria cultura. O artesanato depende da criatividade de cada um e eles têm muitas idéias. Possuem estilo próprio.”

A monitora lembra que antes de iniciar os ensinamentos consultou os alunos. “Eu conversei bastante com eles para sentir o que esperavam do curso. O que queriam aprender e com base nisso desenvolvi um projeto respeitando a cultura indígena.”

Os índios, segundo a professora, agora sabem como conservar a argila, material base para todo o artesanato. “Eles aprenderam a polir as peças com pedra dando um brilho especial nelas.”

A pintura dos vasos e jarros vai depender da criatividade de cada um. “Trouxemos algumas revistas e mostruários que podem servir de modelos para eles.”

Sementes & Bijuterias

Zenaide Berti Lopes planeja enriquecer as peças confeccionadas pela comunidade indígena. “O mercado exige e nós vamos orientá-los a fazerem peças mais sofisticadas com acabamentos especiais, mas sempre usando matéria-prima da própria aldeia.”

Para ensinar as técnicas de confecção de bijuterias, a monitora vai ministrar um novo curso. “Eles vão aprender a fazer pulseiras, colares e bolsas utilizando folhas, sementes, cascas de árvores, por exemplo.”

Ela explica que, com sementes de seringueira, café e olho de cabra, é possível fazer peças artesanais e adornos pessoais. “Essas peças são facilmente comercializadas no mercado.”

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Garota

A jovem Janete Luiz, índia terena, 15 anos, está na 8.ª série do ensino fundamental e não perdeu tempo quando soube do curso. “Quero aprender a fazer artesanato para vender aos turistas.”

A garota também vai confeccionar bijuterias para ela e para comercialização. “Vou fazer para mim e para vender. Acho que vou conseguir uma boa renda. Com essa idade não ganho nada”, reclamou.