A bioarquitetura busca no passado alternativas interessantes para a construção civil sem agredir o meio ambiente. A idéia foi apresentada pelo Instituto Ambiental Vidágua à criançada e a todos os visitantes da 5.ª Semana Integrada do Meio Ambiente de Bauru (Simab), que ocorreu no Recinto Mello Moraes. A proposta apresentada pela entidade não governamental encontrou apoio no tema da Simab deste ano, que abordou “Cidade Saudável”.
O Vidágua procurou mostrar que os espaços onde vivemos podem ser construídos de maneira mais sustentável e saudável, sem agredir o meio ambiente. Para isso, a ONG escolheu a bioarquitetura para ilustrar o assunto de uma forma bastante integrada com os visitantes, que puderam colocar, literalmente, a mão na massa de terra e construir adobes, que são tijolos feitos de barro cru.
“A construção convencional, de alvenaria (com tijolos feitos com barro queimado), contribui para o aumento de gás carbônico na atmosfera e para o desmatamento”, explica o biólogo especialista em educação ambiental Ivan Alexandre Ferrazoli de Marche, 28 anos, secretário executivo do Vidágua.
Para exemplificar a bioarquitetura, o Vidágua montou uma pequena fábrica de tijolos feita totalmente com materiais reaproveitados. “As fôrmas foram feitas com palete (grade de madeira usada para transportar grandes peças - geladeiras, por exemplo) reaproveitadas e pastas plásticas recolhidas em bolsão de entulho. Até agora não gastamos nem um real”, acrescenta. A matéria-prima para o tijolo é composta de terra, água e palha.
Pés na terra
Os estudantes da 4.ª série Álvaro Pessotto Mauad, 10 anos, João Paulo Watanabe Moreno, 10 anos, e André Simões Aranda, 10 anos, foram conferir a Semana do Meio Ambiente e aproveitaram para conhecer como são feitos os adobes. Orientados pela bióloga do Vidágua Tatiany Pontes Vasconcelos, 23 anos, e por Katarini Miguel, 22 anos, assessora de comunicação da entidade, eles dobraram as barras das calças e colocaram os pés na terra.
O trio quis aprender como é feito o tijolo ecológico em todas as etapas. “É muito fácil, qualquer criança pode aprender”, comenta Álvaro. Ele diz que seu avô já tinha falado de uma técnica semelhante: “Na casa do meu vô tem um quartinho que é todo feito de barro”.
João Paulo observou atentamente o processo que consiste em amassar com os pés a terra misturada com palha para depois preencher as fôrmas dos adobes. “É gostoso de mexer. Minha casa está em reforma e fica tudo cheio de cimento”, complementa. André também gostou. “Faz cócegas nos pés! E dá até para fazer na minha casa, tem um campinho lá.” “Depois os tijolos ficam secando por um período de 10 a 15 dias”, explica Katarini. Como eles secam naturalmente, sem a necessidade da queima, que prejudica a camada de ozônio com os gases emitidos na atmosfera, são considerados tijolos ecológicos.
Bosque de Gaia
Com um projeto ousado, mas muito interessante para o nosso planeta, o Instituto Ambiental Vidágua pretende transformar o espaço onde está localizado sua sede em uma área 100% ecológica, o Bosque de Gaia - Educação para a Sustentabilidade e Desenvolvimento do Ser. “Queremos que a comunidade participe do processo. O projeto está quase pronto. Teremos uma trilha com sete pontos simbolizando os chacras e em cada ponto a criança vai desenvolver uma atividade, costurando o processo de aprendizagem. Por exemplo, primeiro prepara a terra, depois aduba, enche o saquinho, semeia, irriga, vê germinar e doa para alguém”, explica Marche.
As primeiras instalações no Bosque de Gaia foram um forno de barro e uma espiral de ervas medicinais. “Queremos resgatar as formas arredondadas, inclusive nas construções.” O projeto é cheio detalhes e consumirá perto de dois anos para ser concluído. “Queremos implantar até o final do ano, quando o Vidágua completa dez anos”, acrescenta o ambientalista.
O começo
A forma como é feita construção de casas e edifícios nas cidades brasileiras são, em sua maioria, insustentáveis. Isso significa, na explicação do arquiteto César Augusto da Costa, 25 anos, responsável pela divulgação da bioarquitetura em Bauru, que “ameaça as gerações futuras”. O porquê é simples. “Para se ter uma idéia, na fabricação de 1000 tijolos maciços queimados - capazes de construir um muro de 5m x 3m, com 10cm de espessura - são necessárias 15 árvores para serem transformadas em lenha, que ao serem queimadas emitirão gás carbônico na atmosfera”, exemplifica Costa.
A bioarquitetura apresenta alternativas viáveis para reduzir o impacto causado no meio ambiente e também com os profissionais que trabalham na construção civil. “O cimento, a cal, são bastante prejudiciais à saúde do trabalhador. O pedreiro tem o apelido de orelha seca por causa do contato com o cimento”, explica Costa. Além disso, no setor industrial, a produção de cimento é a terceira que mais emite gás carbônico na atmosfera. O que causa a chuva ácida e o aquecimento global.
Costa teve o seu primeiro contato com a bioarquitetura em 2002, quando realizou um projeto de extensão na Unesp e pôde pesquisar profundamente o assunto e colocar em prática algumas ações em uma comunidade de trabalhadores sem-terra, em Iaras. “Éramos em cinco alunos e tivemos que pesquisar bastante para desenvolver o trabalho com a comunidade. Dentro da bioarquitetura, você cria uma relação íntima com a pessoa que vai usar o espaço. É preciso pensar em quem vai ocupar aquele lugar, por isso a partipação é importante”, acrescenta.
O arquiteto também vê na construção com terra crua uma atividade que todos podem participar, por não ser agressiva ao ser humano. “Todos podem trabalhar com a terra, inclusive as crianças. Além de ser terapêutico.” O uso da terra crua reduz muito os custos da construção, porém exige alguns cuidados para manter os benefícios da matéria-prima. Costa comenta que além de ser ecológica, barata, saudável, a casa também regula a umidade e temperatura. “No verão ela é fresca e no inverno é quentinha.” Para isso, a casa de barro deve estar “equipada” como um homem que vai sair em um dia de chuva. “O homem precisa calçar botas e ter um bom guarda-chuva. Com a casa é a mesma coisa, constrói-se o beiral maior para que não sofra com a chuva e a fundação mais alta. Outra alternativa é revestir com resinas ou verniz, o que dá o mesmo acabamento de uma casa convencional.”
Para ilustrar, o arquiteto lembra que a arte de construir com terra crua é milenar e atualmente mais da metade das casas de todo o mundo usam o recurso. “Você encontra nas cidades históricas brasileiras e em muitos países, como China, Marrocos, Arábia Saudita e México.”
Apesar da criançada não ter intenção de construir sua casa na próxima semana, é importante que todos tenham informações de formas alternativas para não agredir o meio ambiente. Muitas delas práticas, baratas e viáveis, como esta que foi apresentada aos leitores do JC Criança.
* A realização da V Simab está a cargo da Prefeitura Municipal de Bauru, através das secretarias municipais do Meio Ambiente, Educação, Cultura, Agricultura e Saúde, Emdurb, DAE, Cati/EDR, IBDA, Daee, DEPRN, Cefam, USC, USP, ITE, IESB/Preve, Aciflora, DRE, 12.º Grupamento de Bombeiros, Instituto Florestal, Ibama, Instituto Ambiental Vidágua e OAB/Bauru. O evento conta com o apoio da Arco, Sincomércio, Plasútil, Sukest, C.Canedo, e patrocínio do Pão de Açúcar.