08 de julho de 2026
Articulistas

Antropofagia moderna


| Tempo de leitura: 3 min

A CPI do tráfico de órgãos humanos e a mídia colecionam dados estarrecedores sobre o tema! Nos primórdios dos transplantes de órgãos, nos anos 60, o imaginário dos autores de ficção científica já previa este quadro, e não faltam filmes, livros e fóruns de discussão ética do assunto. Mas, como sempre, enquanto alguns lutam para esclarecer situações, outros vivem da clandestinidade, mantendo uma fachada respeitável, com o único objetivo de obter lucro! São indivíduos da mesma linhagem dos que, antes, viviam da escravidão humana, tirando dela trabalho e prazer. Só que hoje tiram, literalmente, pedaços, numa nova e ainda mais perversa modalidade de selvageria antropofágica.

Mesmo atos aparentemente humanitários, como a adoção de pessoas carentes com deficiência mental, estariam abastecendo esse mercado tão sinistro como rentável. E qual será o próximo alvo? A população carcerária? Os hospitais psiquiátricos públicos? Cidadãos comuns e sãos, com baixo índice de rejeição orgânica para um receptor nacional ou estrangeiro bem abonado?

O poder econômico aliado ao desespero de uma doença crônica ou morte iminente fornecem os clientes e fornecedores desse mercado. A falta de escrúpulos arregimenta criminosos sádicos, inclusive cirurgiões especialistas, apóstatas. O sigilo profissional, o descaso das autoridades com as populações carentes e a ignorância destas quanto aos seus direitos favorecem e complementam esse organograma diabólico, base de esquemas internacionais que envolvem desde a venda consentida até crimes como seqüestro, eutanásia e assassinatos.

Para eles, a vida pode não ter preço, mas um órgão é muito bem cotado, em dólar ou euro!

Será que merecem ser tratados como seres humanos? Quem será o juiz desse processo? O fato é que estão transformando o que deveria ser uma demonstração voluntária de amor ao próximo num negócio em que o doador pode não ter poder de decisão. Pode ser, tão somente, selecionado.

Parece que o nível de desenvolvimento tecnológico e econômico atingido pela civilização pode conduzi-la, paradoxalmente, ao retrocesso de uma nova forma de “seleção natural”, onde seres humanos descartáveis - meros repositórios de órgãos e tecidos - serão destinados a assegurar a longevidade e poder de uma elite de magnatas anciãos, alguns “notáveis” e seus eleitos. Considerando que nem todas as pesquisas científicas são divulgadas e sempre há pessoas dispostas a financiá-las - da mesma forma que fomentam furtos de obras de arte para coleções particulares e secretas -, isso já pode estar ocorrendo...

Existem alternativas a esse quadro dantesco? É certo que a discussão da clonagem terapêutica, a partir de células-tronco - defendida por uns e abominada por outros, com igual fervor - envolve aspectos éticos, jurídicos e religiosos graves, mas talvez ela seja uma alternativa menos dramática e mais realista à escalada do tráfico de órgãos, que já atinge níveis alarmantes, descontrolados e humanamente inaceitáveis!

O problema é se o custo desse processo, que será definido pelos interesses financeiros dos investidores das megaindústrias do setor - bem menos éticos que os cientistas e pesquisadores - não diminuirá mais ainda o valor da vida humana, incrementando esse mercado negro, sangrento e antropofágico em vez de baní-lo!

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro, professor universitário e articulista.