10 de julho de 2026
Polícia

Jovem de cor branca é maioria entre assassinados em Bauru

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

A realidade de Bauru reflete o contexto do País, que está em quinto num ranking de 67 países com maiores taxas de homicídios de jovens. Das 67 pessoas assassinadas de 2003 até ontem no município, a maioria (28) tem até 24 anos. Os dados da Delegacia Seccional de Bauru reiteram o resultado do estudo divulgado anteontem pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e publicado pelo JC.

“Percebe-se que há um fator mundial e regional. O mundo contemporâneo é caracterizado pelo excesso de tudo, da alegria, da violência. Isso tem repercussão na faixa etária mais movida por extremos (a juventude)”, analisa o professor de filosofia e ética da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do Núcleo pela Tolerância da universidade, Clodoaldo Meneguello Cardoso.

De acordo com ele, as desigualdades sociais e a miséria, também considerados elementos característicos da sociedade capitalista, puxaram para cima as taxas de assassinato nesse segmento da população.

“O jovem de hoje não está sendo preparado para mudar o mundo, mas para ocupar seu espaço na sociedade. O jovem pobre (sem educação e trabalho) acaba (excluído) numa sociedade paralela, onde a regra é a violência. É um estado de guerra”, explica o filósofo.

Por essa razão, na opinião do pesquisador que reuniu os dados da Unesco no livro “O Mapa da Violência 4”, Júlio Jacobo Waiselfisz, qualquer solução que se queira dar para a violência e os homicídios tem que passar pela juventude. Conforme ele ressaltou em matéria veiculada ontem pelo JC, todos os gastos aplicados em educação no Brasil chegam a 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto os aplicados na educação não ultrapassam 5,3% do PIB.

“Quando todas as instituições (responsáveis pelo ensino, cultura, saúde e emprego, etc) falharem, sobra para a polícia. O desemprego é o grande causador da violência”, acrescenta o delegado seccional de Bauru, Antônio Ângelo Ciocca.

Os números passados por ele mostram que do total de pessoas assassinadas na cidade de 2003 até ontem, 84% são homens. Além disso, 38% das ocorrências foram registradas no 1º Distrito Policial (DP), que atende bairros carentes como o Jaraguá, o Parque Santa Edwirges, o Fortunato Rocha Lima e o Vânia Maria.

O 2.º DP fica na segunda colocação em casos de homicídios no município, com 23,5% do total. “Quando chega o período de safra da cana em Macatuba, por exemplo, a criminalidade diminui. O desemprego, além da falta do sustento, pode causar até distúrbios (no homem)”, comenta o delegado.

Ele inclui entre os fatores que favorecem os assassinatos, o consumo de entorpecente. O envolvimento com drogas, o contrabando de armas e o aumento da população jovem também estão entre os elementos que contribuem para o aumento dos homicídios, destacou em matéria publicada ontem pela Folha de São Paulo, a pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos e Violência e Saúde, Edinilsa Ramos de Souza.

“O índice (de assassinato) está crescendo muito. A luta deles (dos jovens, especialmente dos negros) é chegar aos 25 anos, quando deveria ser conquistar emprego e educação”, lamenta o coordenador da Comissão Nacional Contra a Discriminação Racial da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Duílio Duka de Souza.

Ele estranha os números divulgados pela Seccional, que apontam os homens brancos como as principais vítimas de assassinados em Bauru. “É só observar a periferia, as crianças de rua, as penitenciárias e a Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem). A predominância é de negros”, conclui.

Duka não descarta a possibilidade de alguns afro-descendentes mortos em Bauru constarem entre as vítimas brancas. Ciocca considera a confusão difícil, mas possível.

____________________

Estudo

O resultado do estudo da Unesco “O Mapa da Violência 4 - Os Jovens do Brasil”, publicado ontem pelo JC, mostra que a cada 100 mil jovens brasileiros, 52,1 com até 24 anos foram assassinados em 2000. Também indica que a situação piorou em 2002: a taxa passou para 54,5 assassinatos por 100 mil jovens. O aumento foi de 88,6%.

O ritmo de crescimento dos homicídios é maior entre esse segmento do que na população total. No mesmo período, o aumento geral foi de 62,3%. Em números absolutos, foram mortos 49.640 brasileiros em 2002. Os dados colocam o País em 5º num ranking de 67 países com as maiores taxas de homicídio de jovens e em 4º entre os de maior número de assassinatos - levando em conta todas as faixas etárias.

O estudo também confirma que a morte de negros supera em 74% a de brancos no Brasil.