08 de julho de 2026
Cultura

Suavidade baiana

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

O compositor baiano Dorival Caymmi completou 90 anos no último dia 30 de abril, acumulando mais de 200 músicas em um repertório considerado como um dos mais originais da música brasileira de todos os tempos.

Para comemorar a data, não faltam nas lojas songbooks, DVDs, discos e coletâneas destacando a obra de Caymmi. Entre eles, o CD “Para Caymmi”, dos filhos Nana, Dori e Danilo, e o álbum “Caymmi 90 Anos - Mar e Terra”, gravado por vários artistas da MPB. Ambos os discos foram lançados em março deste ano.

Um dos fundadores do grupo carioca Boca Livre, o cantor e compositor Claudio Nucci, não ficou de fora do circuito das homenagens ao compositor baiano. Ele lançou em abril deste ano seu quinto CD. Intitulado “Ao Mestre, Com Carinho”, o álbum traz novas interpretações para “Vatapá”, “Sábado em Copacabana”, “Só Louco”, “O Bem do Mar”, “Cala Boca, Menino”; “Maracangalha”, “João Valentão”, entre outros sambas e “canções praieiras” eternizadas por Caymmi.

Esses e outros sucessos constituem a base de um show homônimo ao disco, que Nucci está lançando pelas principais cidades brasileiras. Hoje será a vez de Bauru, em uma apresentação realizada pelo cantor a partir das 21h30, na área de convivência do Serviço Social do Comércio (Sesc). Ainda essa semana ele estará em São Carlos, Ribeirão Preto e Araraquara.

A idéia de produzir “Ao Mestre, Com Carinho” foi motivada pela grande admiração que Nucci tem por Caymmi. O cantor, inclusive, sempre fez questão de incluir algumas composições do seu “mestre” baiano em seus shows. “Tive o privilégio de conviver um pouco com ele, que é uma pessoa sensacional, tem paz interior, sabedoria e uma relação muito especial com o tempo e com a música”, comenta Nucci, em entrevista por telefone ao Jornal da Cidade.

Escolhidas a dedo por Nucci, as músicas incluídas no novo disco falam de amor, da natureza, da vida e de detalhes do cotidiano - em especial o da Bahia. Tudo traduzido de maneira muito simples e delicada por Caymmi. “Quis passar suavidade e por isso escolhi um repertório que tem as letras bem leves. O Caymmi também é muito profundo e denso, mas selecionei composições que vão de encontro ao meu momento”, diz Nucci.

Dono de uma voz aguda e calma - oposta ao timbre marcante e grave do cantor baiano - Nucci afirma que buscou dar seu próprio tom às músicas. “Eu canto mais leve e o Caymmi, por excelência, é um barítono maravilhoso. Acho esse contraponto muito interessante porque a voz leve dá um outro colorido, uma nova leitura para a obra”, aponta.

Utilizando arranjos e alguns ritmos diferenciados, Nucci passeou por quase todas as fases de Caymmi. Desde os sambas-canção urbanos, como “Maracangalha” e “O Dengo”, até a valsa “...Das Rosas e Horas”, passando ainda pelas canções praieiras “Quem Vem Pra Beira do Mar”. Um dos destaques do disco e também do set list do show de hoje ficará por conta de “Sábado em Copacabana”, tocada em um ritmo mais acelerado, e “Só Louco”, acentuada pela batida moderna.

“A obra de Caymmi é tão generosa e baseada na simplicidade que dá para adaptar outras leituras sem descaracterizar a música”, observa Nucci, que sobe ao palco acompanhado da dupla Jotagê Alves (sopros) e Guello (percussão).

Além das composições já citadas, o público poderá ouvir sucessos pinçados da carreira solo de Nucci e também do grupo Boca Livre. “Vou fazer um up to date do meu trabalho, mostrando canções como ‘Toada’, ‘Quero-Quero’ e ‘Acontecência’”, adianta o cantor.

Carreira

Com mais de 25 anos de experiência na área musical, Nucci começou a cantar no Interior de São Paulo, onde morou até os 15 anos de idade. Chegou ao Rio de Janeiro no início dos anos 70, onde se apresentou em algumas casas noturnas. Em 1977, formou a banda instrumental Semente e, no ano seguinte, criou, juntamente com outros músicos, o Boca Livre, que na época foi o primeiro grupo brasileiro a alcançar a marca de 100 mil cópias vendidas com um disco independente.

Nucci saiu do Boca Livre em 1980 para se dedicar à carreira solo. Lançou três discos e fez parte da banda instrumental Zil. Em 1995, gravou o álbum “Ê Boi”, e em 1997, “Casa da Lua Cheia”. Há três anos, o músico - que tem composições gravadas por Emílio Santiago, Zizi Possi, César Camargo Mariano e Nana Caymmi - está volta ao Boca Livre. Porém, não interrompeu sua carreira solo e continua desenvolvendo projetos individuais, como o disco em homenagem à Caymmi.

• Serviço

Show de Cláudio Nucci hoje, às 21h30, na área de convivência do Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.

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Mestre baiano

Nascido em 1914, em Salvador, Dorival Caymmi pode ser considerado um dos maiores divulgadores da Bahia por retratar, com muita poesia, a beleza das praias e as sutilezas da vida do povo baiano. Ele começou a carreira como compositor, aos 19 anos, com a toada “No Sertão”. Uma de suas canções mais famosas, “O Que É Que a Baiana Tem?”, foi incluída no filme “Banana da Terra”, estrelado por Carmen Miranda em 1939.

Seu estilo único de compor e cantar influenciou várias gerações de músicos brasileiros, entre eles, seus três filhos: Danilo, Nana e Dori. Há mais de 65 anos na estrada, Caymmi possui cerca de 20 discos lançados, além de mais 200 composições, que foram regravadas inúmeras vezes por cantores brasileiros e também internacionais.