Mudou o amor, ou mudamos nós? Perguntaria o velho Machado parodiando a si próprio. O individualismo começou a crescer desde o desaparecimento da civilização grega, que privilegiava o coletivo, e hoje domina o mundo. Dele surgiu na modernidade um novo tipo de relacionamento - o tal de “ficar”. Os terapeutas explicam que namoro já era. Agora, o que os jovens querem - e também os adultos - é o relacionamento sem compromisso, sem promessas de construção de uma relação estável a curto prazo.
Há alguns anos, ao terceiro amasso no portão aparecia o pai da moça para perguntar com voz grave: “Quais as suas intenções, moço?” Credo. Nesta era digital, o importante é o agora, experimentar já. Os “ficantes” não querem deixar para depois o que podem fazer hoje...
O Dia dos Namorados, no Brasil, é só um “case” de sucesso. Foi criado em 1949 pela agência Standard, de publicidade. Ela detinha a conta das lojas Clipper, a mesma rede que chegou a ter uma filial em Bauru. Como o mês de junho era um mês fraco de vendas, Jorge Doria, encarregado da conta da empresa, criou o dia dedicado aos namorados no dia 12, casando-o com Santo Antonio, conhecido casamenteiro. A campanha deu certo. Ganhou o prêmio do ano com o slogan - “Não é só de beijos que se prova o amor”. Vendeu bem a frase persuasória. E continua vendendo mesmo com o desaparecimento do namoro. Os casados querem manter, ou reviver, a velha chama enquanto os ficantes pretendem demonstrar que as coisas caminham para o amadurecimento e, quem sabe, talvez um dia, se consolide como no tempo dos nossos velhos pais.
A comemoração nada tem de brasileira. Desde o século 19 existe o “Valentine’s Day” nos Estados Unidos e na Europa, só que comemorado no dia 14 de fevereiro. Trata-se de uma homenagem a São Valentim, padre e mártir da Igreja católica que viveu durante império romano e morreu no ano 269. Conta a grande enciclopédia Capivarol que Claudius II, mais preocupado em guerrear com os vizinhos do que cuidar da saúde do povo - uma espécie de Bush daquela época -, proibiu todos os casamentos. Só porque os solteiros, sem compromisso de família - os ficantes de então - eram muito melhores soldados. Não tinham medo de morrer. O padre Valentim, com dó das jovens casadoiras e candidatas a viúvas prematuras, celebrava matrimônios em segredo. Foi denunciado, preso e executado.
Outro dia assisti um filme em que a mocinha sofre de amnésia. Ela acorda todas as manhãs sem a mínima idéia do que aconteceu no dia anterior. O namorado tem que reconquistá-la a cada novo encontro. Sabe lá o que é apaixonar-se por uma mulher que o esquece a cada noite? Cada reencontro, na verdade, é um primeiro encontro. Inteligente a simbologia do argumentista de Hollywood. O rapaz tem um histórico de conquistador implacável e, de repente, recebe o castigo digno dos deuses do Olimpo. Apaixona-se perdidamente. Todas as manhãs tem que lutar pela continuidade do seu romance. Repete o mito de Sísifo, aquele condenado a carregar um pesada rocha até o cimo da montanha para vê-la despencar ladeira abaixo e ter que empurrar a pedra novamente para cima. Freud dizia que o difícil não era a subida, mas a descida. Enquanto trabalhava com a pedra, Sísifo não tinha tempo de pensar no próprio destino. O duro era o momento de ociosidade, na descida da montanha para lidar novamente com o estorvo. Assim é o amor, ficante, namorante ou casante: “Fogo que arde sem se ver”, como disse Camões no mais lindo soneto da língua portuguesa. “É ferida que dói e não se sente;/É um contentamento descontente;/É dor que desatina sem doer.” (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)