09 de julho de 2026
Cultura

Para músico bauruense, é preciso desmitisticar o ritmo

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

O jazz é o ritmo preferido de vários músicos bauruenses, que se dedicam a divulgá-lo através de shows e festivais. É o caso do baterista Luiz Manaia, que ajudou a promover, no início deste ano, o evento “Final de Semana com Jazz”, com apresentações das bandas Stander Jazz Quarteto e Sindicato do Jazz (ambas tem Manaia como integrante) em um bar da cidade.

O festival atraiu centenas de pessoas ao local, que acompanharam o seleto repertório formado por composições próprias dos grupos e pérolas como “For Wess” e “Foot Prints”, e aplaudiram emocionadas ao final dos shows. Mas apesar do sucesso, o evento não é um retrato do que acontece com o jazz em Bauru, afirma Manaia.

Há mais de 15 anos tocando em bares e casas noturnas, o músico revela que é muito difícil encontrar espaços para apresentar shows de jazz. Segundo ele, por ser um ritmo estrangeiro, muitas pessoas ainda vêem o jazz com certa resistência. Em entrevista ao Jornal da Cidade, Manaia falou sobre sua paixão por tocar jazz e sobre a evolução do ritmo atualmente.

Jornal da Cidade (JC) - O festival organizado pela Stander Jazz Quarteto e Sindicato do Jazz no início do ano foi um dos poucos eventos do gênero realizados em Bauru. As bandas enfrentam dificuldades para tocar?

Luiz Manaia - Existem muitos músicos bons, mas ao mesmo tempo os espaços são restritos. Os bares geralmente trazem bandas de rock ou duplas. O jazz é um ritmo muito mitificado, como a música clássica, não chega até as pessoas. O Sindicato do Jazz vai completar 11 anos e sempre teve a bandeira de levar o jazz para diversas cidades do Interior e também para outros estados. E percebi que a energia do jazz agrada o público. O que falta é desmistificar o jazz. O público, quando tem acesso, gosta, curte, mas acho que falta esse caminho.

JC - Por que você acha que os convites são reduzidos?

Manaia - A própria economia não ajuda muito, porque os bares contratam dois ou três músicos no máximo e precisamos tocar num quarteto ou quinteto porque o jazz requer baixo, bateria, instrumento de sopro, piano. Além disso, existe o medo de achar que o jazz não agrada muito, o que não é verdade.

JC - Mas apesar das dificuldades, você ainda continua tocando o jazz...

Manaia - O grande barato dos músicos da Sindicato e da Stander é fazer jazz. Como não há muito acesso para tocá-lo, temos que ter outro trabalho, mesmo que musical, paralelo, então eu toco outras coisas, faço casamentos ou acompanho cantores. Viver como músico de jazz no Brasil é muito difícil, mas também acho que não se pode deixar de tocá-lo. Esse é o nosso prazer.

JC - Quais são suas referências no jazz?

Manaia - Os grandes nomes para mim são da década de 60, John Coltrane, Marc Tarner, Carla Bley, Elvin Jones. Dos músicos brasileiros eu gosto do Edson Machado, que foi um grande baterista na década de 60, do Sérgio Mendes e Hermeto Pascoal. Tem também o Johny Alf, que foi o primeiro a tocar jazz com música brasileira, ele foi o grande criador dessa batida de jazz e Bossa Nova. Depois dele vieram os trios, como o Tamba Trio, que explodiram na década de 60. Com o golpe militar e a americanização abafando a cultura, o cenário do jazz brasileiro ficou um pouco difícil na década de 70. No começo dos anos 80, a música instrumental começou a voltar e o jazz brasil foi voltando devagar até chegar nos dias de hoje.

JC - A união de jazz e Bossa Nova na década de 60 inspirou a improvisação do jazz em diferentes ritmos, como o blues e a MPB. Como está o jazz hoje?

Manaia - Acho que está havendo muitas mudanças e coisas positivas, como a fusão do jazz com a música eletrônica. Existem músicos consagrados de jazz tocando com o pessoal da música eletrônica, o saxofonista Márcio Negri, que era da Sindicato do Jazz, ele está em São Paulo, já tocou com o Marky e o Patife e acabou de gravar um CD baseado nessa linguagem. Tem também a Fernanda Porto, que faz Bossa com outras linguagens eletrônicas, Então isso resgata o jazz brasil, como resgatou na época da Bossa Nova. Ainda temos esperança.