O cineasta David Lean (1908-1991) não foi um inovador da linguagem do cinema como Orson Welles ou Alfred Hitchcock mas, talvez mais do que qualquer diretor, ele tenha sabido como se aproveitar dos recursos criados pelos outros em seus filmes. Foram mais de 20, desde o drama de guerra “Nosso Barco, Nossa Alma”, que co-dirigiu com Noel Coward em 1942, até “Passagem para a Índia”, o belíssimo drama baseado na obra de E.M. Foster sobre as diferenças culturais entre ingleses (colonizadores) e os indianos, em 1984. Seus últimos cinco trabalhos foram superproduções que Lean transformou em clássicos irretocáveis, que são referência de narrativa, beleza e técnica do cinema até hoje.
Dentro do seu projeto “Semana do Cinema Temático”, o Museu Ferroviário Regional exibe três destes filmes: “A Ponte do Rio Kwai”, de 1957; “Lawrence da Arábia”, de 1962 e “Doutor Jivago”, de 1965. A lista é completada por “Os Boas Vidas”, que outro mestre, o italiano Federico Fellini, dirigiu em 1953. As exibições são gratuitas e começam hoje com “Lawrence”, às 19h, no próprio museu. Amanhã, no mesmo horário, é a vez do filme italiano. Quarta-feira será apresentado “A Ponte do Rio Kwai” e, na quinta, a programação termina com “Doutor Jivago”. Quem tiver a oportunidade de apreciar os filmes de Lean vai perceber que se tratam de obras tecnicamente perfeitas, com elencos igualmente competentes e de fotografia belíssima, tanto que, juntos, os três longas venceram nada menos do que 19 Oscars, sendo dois de melhor filme e dois de direção. Outro detalhe em comum é que, obviamente, todos têm trens em alguma parte da trama.
“Lawrence da Arábia”, conta a história do militar, arqueólogo e escritor inglês T.E. Lawrence (Peter O’Toole), que, na época da 1ª Guerra Mundial é enviado ao Oriente Médio para ajudar a organização das tribos árabes contra os turcos, então aliados dos alemães. Narrado como um longo flashback, o filme tem uma cena na qual Lawrence e os árabes explodem uma ferrovia enquanto um trem se aproxima. Contar mais pode estragar a experiência que é ver o filme, o favorito do cineasta Steven Spielberg.
O drama de 1962 ganhou sete Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Trilha Sonora. Recebeu ainda outras três indicações nas categorias de Melhor Ator (O’Toole), Melhor Ator Coadjuvante (Omar Sharif) e Melhor Roteiro Adaptado. Ganhou quatro Globos de Ouro: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Omar Sharif) e Melhor Fotografia. O elenco conta com: Alec Guinness, Anthony Quinn, Jack Hawkins, José Ferrer, Anthony Quayle, Claude Rains e Arthur Kennedy.
Em 1957, Lean dirigiu “A Ponte do Rio Kwai”, que ficou famoso pela música assoviada pelos soldados ingleses durante a construção de uma ponte para uma ferrovia em Burma, ocupada pelos japoneses durante a Segunda Guerra. Prisioneiros, eles querem mostrar aos orientais que têm uma engenharia superior, ao mesmo tempo, não podem ajudar os japoneses com a ponte. A obra é uma adaptação feita por Carl Foreman, Michael Wilson e Calder Willingham do romance de Pierre Boulle e recebeu os Oscars de Melhor Filme, diretor, ator, roteiro adaptado, fotografia, trilha sonora e montagem. Além disso, “A Ponte do Rio Kwai” foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Sessue Hayakawa). No elenco estão: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins e Sessue Hayakawa, entre outros.
Em “Doutor Jivago”, que Lean filmou em 1965, há muitas (e belas) cenas de trens na neve. O longa é baseado no livro homônimo de Boris Pasternak e foi um dos maiores sucessos de bilheteria do diretor. A história envolve um médico e poeta russo, Yuri Jivago (Omar Sharif) que inicialmente apóia a revolução, em 1917, mas aos poucos, desilude-se com o socialismo ao mesmo tempo em que se divide entre dois amores: a esposa Tanya (Geraldine Chaplin) e a cortesã Lara (Julie Christie). O “Tema de Lara”, composto por Maurice Jarre, virou um clássico do gênero romântico e rendeu o Oscar ao compositor. O filme ainda venceu os prêmios de Melhor Roteiro Adaptado, Fotografia, Direção de Arte e Figurino, além de receber indicações para as categorias de filme, diretor, ator coadjuvante (Tom Courtenay), edição e som. Atuam no filme, além de Sharif, Christie, Chaplin e Courtenay, Rod Steiger e Alec Guinness, entre outros.
Fellini
“Os Boas Vidas”, de Federico Fellini, conta a história de um grupo de rapazes que passeiam pela praia e freqüenta a vida noturna fazendo absolutamente nada, em uma cidade provinciana da costa italiana. Para abandonar o tédio, a ferrovia é a única saída dos jovens liderados por Fausto (Franco Fabrizi), um rapaz tão superficial quanto os amigos. No elenco ainda estão: Franco Interlenghi, Alberto Sordi, Leopoldo Trieste, Riccardo Fellini, Eleonora Ruffo, Lida Baarova, Jean Brochard e Claude Farell.
Serviço
Semana de Cinema Temático. De hoje a 17 de junho, às 19h, no Museu Ferroviário Regional. Realização: Secretaria Municipal de Cultura. Apoio Cultural: Vídeo Imagem Locadora. Rua Primeiro de Agosto, quadra 1. Informações: (14) 3235-1072 ou 3235-1176.