26 de maio de 2026
Articulistas

A batalha de São Paulo


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A menor distância entre o projeto de poder do PT e sua plena concretização é a curva que passa pela cidade de São Paulo, onde se dará, em outubro, o maior pleito eleitoral-municipal do País, quando mais de 7,5 milhões de eleitores serão chamados para comparecer às urnas. Trata-se de uma curva, e não de uma reta, porque já não há tanta certeza de que Marta Suplicy levará a melhor, conforme se imaginava naquele momento em que o presidente Lula, no auge de sua popularidade, garantia todo o empenho para reeleger a prefeita da maior vitrine eleitoral do PT. Se a dupla Lula-Marta ganhar a campanha, um projeto de poder, concebido com entusiasmo e que começou com a febril ocupação dos vastos espaços públicos federais por milícias petistas, pode reencontrar o prumo. Se perder, não há quem garanta que a visão do PT enxergará longe. Longe, no caso, quer dizer a reeleição do presidente Lula, em 2006, o adensamento da base governista, com integração efetiva de parcelas recalcitrantes de partidos “amigos” como PMDB e PL, eleição de grande número de governadores e extensão das faixas situacionistas até onde a vista não alcançar mais.

Não há nenhuma dúvida: a campanha abrigará um caráter plebiscitário, com a incorporação do julgamento da administração federal. A meta inicial do PT, de eleger cerca de 1.000 prefeitos, já foi comprimida para a metade. Com o plano macropolítico de fundo, o eleitor se debruçará em São Paulo sobre o cotidiano da micropolítica. Nesse caso, distinguirá a “fazeção” da prefeita Marta, julgará seu perfil, avaliará adversários, fará comparações e decidirá, tendo como suporte razões de ordem objetiva e subjetiva. As razões de ordem objetiva constituem ações concretas. Duas grandes posições estarão sendo avaliadas na administração municipal: os projetos sociais nas zonas pobres e a “quebração” dos corredores centrais da Capital. Marta terá um escudo de proteção nos CEUs, no transporte escolar e nos kits educativos, que a prefeitura distribui, aos milhões, às crianças pobres. E terá a rejeição de fortes setores formadores de opinião, para os quais a entrega de corredores antes das eleições pouco atenuará contratempos gerados pelo obreirismo municipal.

Nesse cenário, aparecem os principais adversários. Paulo Maluf, derrotado em 2000 pela prefeita, no segundo turno, por uma maioria de quase 1 milhão de votos; e José Serra, de quem Lula ganhou em 2002 em São Paulo, no segundo turno, com uma maioria de 127 mil votos. A esperada polarização Marta-Maluf deixa de existir, a partir da entrada em campo de Serra, principal beneficiário das correntes que fazem restrições ao governo federal. Todas as indicações apontam para um segundo turno com Marta e Serra, se levarmos em conta que as denúncias sobre as contas do ex-prefeito de São Paulo enfraquecem a candidatura, diminuindo seu filão de votos, mesmo considerando-se o escudo de vitimização com que tentará cobrir seu nome. O malufismo tradicional, porém, não deixará de colher bons votos.

O toque final será dado pelas circunstâncias em que se darão as eleições, ou seja, o Produto Municipal Bruto da (In)Felicidade balizará a decisão eleitoral. Caso os CEUs de Marta consigam suplantar o “inferno” do caos urbano, fazendo com que a satisfação dos contingentes periféricos - com sua maior densidade eleitoral - seja bem superior à indignação de núcleos centrais, o PT poderá chegar ao pódio, reacender o ânimo e voltar a pensar em altas projeções políticas. A seu favor, a prefeita tem o poder da máquina administrativa, um partido com muito dinheiro, a generosidade do governo federal, a determinação e o esforço dos líderes e dirigentes petistas para alcançar a vitória a qualquer custo.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista e consultor político.