10 de julho de 2026
Esportes

Basquete: Em visita a Pederneiras, Paula faz palestra e critica dirigentes

David Cintra
| Tempo de leitura: 4 min

A ex-jogadora de basquete Maria Paula Gonçalves da Silva, a “Magic” Paula, esteve ontem em Pederneiras, onde ministrou palestra no ginásio de esportes Antônio Florêncio Pereira. A ex-armadora falou para crianças do Projeto Basquete ao Alcance de Todos, patrocinado pela prefeitura local.

Paula faz parte da história do basquete feminino brasileiro. Ao lado de Hortência, formou uma dupla que levou a Seleção Brasileira às suas maiores conquistas: a medalha de ouro no Pan-Americano de 1991, contra as cubanas nas barbas de Fidel Castro, em Havana; o Mundial de 94, na Austrália, desbancando as favoritas norte-americanas na semifinal e as chinesas da decisão e a medalha de prata na Olimpíada de Atlanta, em 96.

Recebida com status de Hóspede Oficial do Município de Pederneiras, antes da palestra, a ex-jogadora concedeu entrevista coletiva, na qual pôde expor uma parte de suas opiniões, além de recordar grandes momentos de sua carreira.

Poucos dias após o País comemorar dez anos da conquista do título mundial de basquete feminino, Paula disse não ver o Brasil bicampeão tão cedo. “Para ser sincera não. Nós conseguimos quebrar a hegemonia de EUA e União Soviética em mundiais. Foi um momento em que deu tudo certo. O basquete atual não vai conseguir chegar nesse momento de novo. Falta basquete bom. Mesmo porque os Estados Unidos estão muito além.”

Entre os motivos para tal pessimismo, está o modo como o esporte é administrado no País. “O mal do esporte brasileiro é a falta de planejamento, nós somos muito imediatistas e pensamos nas competições só no ano dela. Não pensamos em trabalhar com a molecadinha que hoje tem oito anos e daqui a dez anos poderá participar de competições com um alto grau de competitividade”, analisou.

Paradoxalmente, o Brasil é hoje um grande exportador de jogadoras. Segundo Paula, isso se deve muito mais a méritos pessoais das atletas. “O basquete feminino só conseguiu tudo isso pelo empenho individual de cada atleta, dos próprios clubes e técnicos, porque se dependesse de planejamento, de estrutura, nunca tivemos. Fico feliz por elas, porque se elas não estivessem lá, estariam aqui morrendo de fome. É melhor ganhar em euro e dólar do que ficar aqui com pires na mão tentando patrocínio”, criticou.

“A falta de patrocínio existe porque não há calendário, os jogos não passam na tevê. Quem vai investir num negócio que não tem visibilidade? Então elas têm que ir para fora mesmo. Graças a Deus que tem mercado para elas irem, porque se estivessem por aqui, muitas estariam pedindo esmola”, completou.

Segundo a ex-atleta, os dirigentes brasileiros não souberam aproveitar o sucesso de sua geração. “Nós somos muito mal assessorados, péssimos marqueteiros. Nós fomos campeãs do mundo e ninguém usufruiu disso para massificar o basquete feminino no Brasil. Acho que o Guga viveu isso. Quem tem um Guga na mão, devia fazer o país inteiro jogar tênis, descobrir mais uns dez Gugas pelo menos. O Brasil é muito grande, deve ter muito talento perdido por aí porque não teve oportunidade.”

Paula falou sobre a responsabilidade social de grandes ídolos do esporte, como ela. “Ser espelho é uma responsabilidade muito grande. Porque o ídolo não tem defeitos para as pessoas que olham. Hoje a gente vive num país, onde tirar a roupa, mostrar o bumbum, ter apelo sexual é mais valorizado do que ser um grande atleta. Cada um tem seu valor, mas os valores hoje estão alterados. Eu tenho um grande ídolo que é o Ayrton Senna, mas eu sempre o admirei pelas atitudes dele, não pelo que ele fazia nas pistas”, comentou.

“Hoje não temos mais este tipo de referência, mas a do cara que joga bola, compra um carro sai com a mulherada, faz noitada e não treina. O cara dá um soco no companheiro de equipe e depois vai para a seleção. Por isso que eu sempre estive do lado do Felipão quando ele não levou o Romário. Não é porque ele é o Romário que tem direito de ser diferente das demais pessoas do grupo”, declarou.

Paula falou ainda sobre as conquistas do Mundial de 1991 e do Pan de 1994, do qual lembrou passagens com Fidel Castro, fez comentários sobre suas relações com a imprensa e revelou sua admiração pelo basquete de Bauru. “A Simone (Bigheti, atual técnica da Luso) era armadora titular na seleção antes de eu começar a jogar. Eu babava quando era pequena e via o time de Bauru jogando. Era uma máquina de jogar basquete, é uma pena que não tem imagens. Eu me espelhei muito na equipe de Bauru”, revelou.

Admiração que é recíproca. Além de Simone, que teve participação para que a visita da atleta em Pederneiras se realizasse, o técnico da equipe juvenil masculina do Bauru Basquete, Hudson Previdello, foi a Pederneiras exclusivamente para assistir à palestra de Paula.

“A Paula é um exemplo de dedicação, de história no basquete brasileiro, é um ícone para as meninas que estão começando agora, uma atleta vitoriosa. Vim de Bauru só para vê-la, acho que ela tem muita experiência para passar para quem está começando e para a gente que trabalha com o basquete”, disse o técnico, que pode ser o novo treinador também do time adulto.