08 de julho de 2026
Geral

ONG propõe não alimentar pombos

Marcelo Ferrazoli (*)
| Tempo de leitura: 4 min

É cada vez mais freqüente verificar grupos de pombos “ciscando” pelas praças ou em revoadas cruzando o céu bauruense. Por isso, a impressão que se tem é que a quantidade dessas aves aumentou na cidade. Mesmo inexistindo números oficiais a respeito, tal impressão pode ser realidade devido ao simples hábito de alimentá-los, ato não recomendado pela Organização Não-Governamental (ONG) Naturae Vitae.

É o que alega a bióloga da ONG, Fátima Schroeder, que considera o fato de quem já se acostumou a “matar” a fome das aves um exemplo a não ser seguido. Ela é enfática: “Não se deve alimentá-los”, diz.

Ela explica sua afirmação ressaltando que tal hábito afeta o equilíbrio ecológico ambiental contribuindo para gerar procriações exageradas de pombos, que não podem ser contidas devido à falta de predadores naturais das aves nas cidades. “Eles encontram condições favoráveis para isso nas áreas urbanas”, afirma.

Entre elas, Fátima cita a abundância de comida, a pequena quantidade de gaviões, seus principais predadores, e a facilidade de encontrar habitats altos, como edifícios, os preferidos dos pombos. “Por isso, quem os alimenta deve, gradativamente, parar com o hábito. Dessa forma, eles procurarão outro local, favorecendo o restabelecimento do equilíbrio ecológico”, considera.

Ela sustenta que, quando o equilíbrio ambiental é quebrado, as chances do aparecimento de doenças aumentam. “E os pombos, reconhecidamente, podem ser os transmissores de várias delas”, enfatiza Fátima.

A bióloga esclarece que há diferentes vertentes científicas sobre os pombos. Há as que os classificam como “pragas” urbanas. “Para muitos, eles são considerados animais sinantrópicos, ou seja, são próximos aos homens e causam prejuízos e doenças”, explica.

Mas também há aquelas que lhes imprimem características simpáticas por estarem ligados a atividades religiosas, esportivas e por simbolizar a paz. “Essas pessoas têm no inconsciente um carinho pelos pombos e, para elas, estão longe de serem considerados pragas da cidade”, destaca Fátima.

Por isso, e salientando a consciência da ONG sobre essas vertentes, a bióloga ratifica a necessidade de não alimentar os pombos domésticos, que são da espécie Columba livia e foram “importados” pela família real portuguesa durante o século XVI. “A natureza é sábia e possui muitos meios para controlar o equilíbrio entre os animais”, justifica.

Outra providência sugerida pela bióloga da ONG é destruir os ovos dos pombos. “Seria uma idéia, pois não defendemos que eles sejam mortos ou dizimados nem que se institua temporadas de caça a eles”, diz Fátima.

Além disso, ela acrescenta que a ONG opta por um ideal pautado não apenas na defesa dos animais, mas também preocupa-se com o meio ambiente e a saúde pública. “Lutamos pela convivência pacífica entre os homens e os animais, mas também defendemos o equilíbrio de ambos com o meio ambiente”, finaliza Fátima.

Cosmopolitas

Não fosse a refeição de “qualidade” servida por diversas pessoas, os pombos não hesitariam em comer qualquer resto de comida abandonada pelas vias públicas.

“Eles normalmente se alimentam de grãos, mas já se adaptaram a comer qualquer coisa e podem até remoer lixo”, explica o biólogo e docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Reginaldo Donatelli.

De acordo com ele, essas aves têm capacidade para voar cerca de 20 quilômetros por dia, mas quando as temperaturas estão baixas, ficam mais retraídas. “O clima condiciona bastante e inibe qualquer espécie (de animais). Eles são mais ativos (quando os dias ficam mais quentes)”, explica o biólogo. Talvez por essa razão, o JC flagrou uma revoada passando pelo Jardim Colina Verde, na quinta-feira passada, quando o frio deu uma pequena trégua.

O trânsito dos pombos não incomoda a produtora gráfica Lirian dos Santos Luiz, que trabalha na quadra 19 da rua Gustavo Maciel, local de grande concentrações de pombos. Porém o apreço não é compartilhado por todas as pessoas que transitam diariamente pela rua.

Uma delas, que preferiu não se identificar, diz que caminha pelo local atento para evitar uma “surpresa” desagradável vinda do alto. “Tenho medo de ser “batizado” (com as fezes da ave), tento não andar sob eles. Acho que atrapalham e que podem provocar doenças”, comenta.

Doenças

Os pombos podem transmitir toxoplasmose (doença provocada por um protozoário), enfermidade que não apresenta muitos sintomas e, na maioria das vezes, é confundida com uma gripe. Em alguns casos, ela vem acompanhada de gânglios e, se o indivíduo estiver com a imunidade baixa, corre risco de morte.

“A doença pode ser transmitida pela saliva do animal ou se um homem com algum ferimento manusear a ave com sangramento. O ideal é não pegá-los porque eles são sujos”, explica o biólogo Reginaldo Donatelli, da Unesp/Bauru. O professor esclarece que ao ser atingida pelas fezes do pombo, a pessoa não precisa preocupar-se sobre uma possível transmissão.

Já a bióloga Fátima Schroeder, da ONG Naturae Vitae, complementa que os pombos também podem transmitir várias moléstias que afetam o sistema respiratório dos humanos devido à inalação de fezes secas das aves. Entre as doenças transmissíveis pelos animais, ela cita a clamidiose e a salmonelose, causadas por bactérias, e algumas provocadas por fungos, como criptococose e histoplasmose.

Apesar disso, a bióloga faz questão de enfatizar. “Todos os animais podem provocar doenças, mas os maiores transmissores ainda são os homens”, conclui Fátima.

(*)Colaborou Luciana La Fortezza