08 de julho de 2026
Auto Mercado

'Embriagar' o veículo não compensa

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

Em tempos onde economizar é uma das palavras de ordem para equilibrar o apertado orçamento doméstico, os motoristas brasileiros, principalmente os donos de automóveis a gasolina, apelam para as mais variadas alternativas para fugir dos altos preços do combustível.

Uma dessas táticas tem crescido na preferência dos condutores nacionais na hora de abastecer os veículos: adicionar grandes quantidades de álcool à gasolina. A prática, apelidada de “rabo de galo” (bebida tradicional feita à base de cinzano e pinga), aproveita o fato do álcool hidratado ser mais barato que a gasolina para diminuir a “mordida” no bolso no ato de pagar pelo combustível.

É comum encontrar carros rodando com o tanque meio a meio - 50% de gasolina e 50% de álcool -, conforme revelam proprietários e gerentes de postos de combustíveis bauruenses. Um deles, que preferiu não ter o nome identificado, resume o raciocínio de todos os entrevistados do ramo pela reportagem do AutoMercado&Cia.

“Já é um costume para muitos e, independentemente do valor dos combustíveis, a quantidade de adeptos tem aumentado. Até donos de motos estão fazendo. Estimo que, de cada dez abastecimentos, pelo menos dois realizem o rabo de galo”, ressalta. E acrescenta: “Também não são poucos os que reclamam já ter enfrentado problemas mecânicos oriundos de tal hábito.”

A afirmação do gerente do posto é a mais “pura” expressão da realidade. Isso porque, segundo especialistas, misturar álcool hidratado à gasolina ocasiona uma série de problemas ao veículo e é extremamente danoso aos motores.

O engenheiro mecânico bauruense Marcos Roberto Bormio confirma que a adição de quantias de álcool além das já existentes na gasolina - o combustível comercializado atualmente no Brasil já possui 25% do composto - gera tais efeitos maléficos.

Entre os problemas que podem ser causados, ele cita a perda de eficiência e rendimento do motor, além do aumento do consumo e o desgaste prematuro de peças, exigindo trocas antecipadas. “De imediato, a bomba e o filtro de combustível são os mais afetados, mas a médio e longo prazo as conseqüências do rabo-de-galo podem ser terríveis”, adverte.

Bormio enfatiza que todos os componentes que entram em contato com a gasolina “alcoolizada” serão prejudicados, como anéis, válvulas, pistões, cilindros e até o tanque. “Se insistir no hábito, em seis meses o dono do veículo poderá ter problemas sérios, correndo o risco de perder o motor. Desta forma, aquilo que era economia na hora de abastecer vai para o espaço”, frisa.

O engenheiro esclarece que os veículos com maior possibilidade de sentir a “embriaguez” do combustível são os equipados com carburador e os dotados de motor 1.0. “Os carburados não têm a injeção eletrônica para tentar corrigir a mistura e nos 1.0 a perda de potência fica mais evidente, pois são motores mais fracos que os demais”, afirma Bormio.

E, ainda sobre injeção eletrônica, o engenheiro desfaz um “mito” do sistema: sua capacidade de adaptação ao “rabo-de-galo”. “Ela admite, no máximo, uma variação de 5% para mais ou para menos na mistura de álcool além daquele já existente no combustível”, explica.

Bormio explica que, quando este percentual é ultrapassado, o sistema “pira”. “Ele começa a ficar louco e prepara o motor como se o mesmo estivesse apenas com gasolina, gerando uma mistura pobre, ou seja, com muito combustível e pouco ar e aquecimento demasiadamente alto na câmara de combustão, fato que causará graves problemas ao automóvel”, alerta.

É por essa razão, complementa o engenheiro, que muitos proprietários de veículos injetados “gabam-se” de adicionar álcool e sair rodando “normalmente”. “Entretanto, ninguém pensa o que custou ao sistema fazer para tentar corrigir a mistura nem as conseqüências que isso trará a curto, médio e longo prazo”, conclui.

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Ame-o ou deixe-o

Se há algo que o “rabo-de-galo” consegue causar entre os donos de automóveis são duas sensações distintas: admiração ou repulsa. No caso do representante comercial bauruense Daniel Gustavo Dardelini, a história de “amor” com a “embriaguez” do seu veículo é antiga.

Daniel conta que costuma adicionar álcool em sua Ranger a gasolina já há cerca de dois anos, período que ele garante nunca ter tido problemas. “Faço sempre o meio a meio e não tive dores de cabeça até agora”, jura.

Entretanto, ele afirma ter noção dos danos que o procedimento pode causar. “Por isso, realizo uma rigorosa manutenção preventiva. Troco antes do período recomendado, por exemplo, a bomba de combustível”, conta.

Desta forma, Daniel sustenta ter encontrado a receita para diminuir o “desfalque” no bolso na hora de abastecer. “Rodo cerca de 2 mil quilômetros por mês e economizo mais de R$ 150,00”, diz.

Já o bauruense Sulaiman Aziz, dono de um Escort a gasolina, destaca que em seu veículo o álcool nem chega perto. “Prefiro andar na reserva do que fazer o rabo-de-galo. Se ele foi fabricado originalmente para rodar a gasolina, tem que seguir a regra, pois milagre ninguém faz”, pondera.

Aziz conta até já ter informado-se sobre os perigos que o rabo-de-galo pode gerar. “Consultei um mecânico de confiança e ele me alertou dos riscos de se adotar esse hábito, principalmente o de corrosão interna dos componentes do motor”, finaliza.

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Opções

Para o engenheiro mecânico Marcos Roberto Bormio, as formas reais de economizar na bomba na hora de abastecer são apenas duas: adquirir um veículo bicombustível ou converter o automóvel a gasolina para rodar a álcool. “É muito melhor que optar pelo rabo-de-galo”, sustenta.

Bormio salienta que os veículos flex são a maior prova que fazer o rabo-de-galo à revelia é danoso. “Para receber esta tecnologia e torná-la confiável ao consumidor, as montadoras executaram diversas transformações mecânicas nos carros. Será que eles investiriam milhões à toa”, questiona.

A conversão do veículo para o álcool também é uma boa saída para quem quer poupar com combustível. “Assim, ele estaria otimizado para funcionar com o composto”, frisa Bormio. No entanto, ele faz questão de ressaltar que, antes de decidir-se pela transformação, é preciso verificar a qualidade e o tipo do serviço que será executado.

Segundo Bormio, a conversão mais correta envolve, praticamente, quase a troca completa do motor. “Além da instalação de peças de fábrica que protegem contra o maior poder corrosivo do álcool, é preciso substituir anéis, pistões, válvulas e até o cabeçote”, afirma. Por isso, é também mais cara. “Para um motor de um popular pode chegar entre R$ 1.500,00 a R$ 2 mil”, estima.

Mas, se a grana anda “curta”, o engenheiro afirma que há outra modalidade de conversão que, apesar de mais barata - entre R$ 600,00 a R$ 700,00 -, funcionaria como um “quebra-galho”. “Esta envolveria a mudança da vazão do bico injetor, a instalação da partida a frio e a substituição da bomba e do filtro de combustível”, esclarece Bormio.