08 de julho de 2026
Geral

Terceirização chega à tarefa escolar

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 5 min

Na era da correria e do estresse, as pessoas estão tendo cada vez mais que delegar serviços a profissionais especializados, a chamada terceirização. A prática chegou a tal ponto que já existe até um espaço para monitoramento de tarefas escolares.

Três amigas, que têm em comum a profissão de professora, uniram-se para criar uma empresa especializada em acompanhar os estudantes no desenvolvimento da “lição de casa”.

O espaço está em funcionamento desde fevereiro e já contabiliza 24 crianças matriculadas, um número considerado alto pelas proprietárias. “A procura tem sido grande”, destaca Malu Azevedo, uma das sócias.

Ela conta que a idéia de criar a Tarefando surgiu da experiência dela e das colegas Sandra Gomes e Leslie Vargas com crianças. “Trabalhávamos em uma escola de informática e percebíamos que os alunos tinham dificuldade para freqüentar as aulas devido ao excesso de tarefas escolares”, destaca Leslie.

A idéia não é dar aulas particulares, mas sim acompanhar os estudantes no desenvolvimento de trabalhos escolares e tarefas. “Temos uma biblioteca virtual e orientamos as crianças na preparação do material’, conta Malu.

Leslie explica que, com a facilidade da Internet, muitos estudantes confundem pesquisa com cola. “É muito fácil copiar os assuntos da rede, imprimir e levar para o professor. Nós mostramos que não é assim que se faz, deixamos claro que é necessário fazer uma boa apuração do assunto e só depois montar o texto”, salienta.

Como funciona

Ao fazer a matrícula por um período de 12 meses (semelhante ao de uma escola), a criança passa a freqüentar o espaço diariamente, por uma ou duas horas, dependendo da série que estiver (de 1.ª a 4.ª, o tempo de permanência é menor).

A tarefa é feita sempre pela criança e as professoras apenas disciplinam o procedimento e esclarecem dúvidas quando requisitadas.

Para os pais, a prestação de serviço tem ajudado no relacionamento com os filhos. A funcionária pública Silmara de Abreu Ribas Miranda, mãe dos gêmeos Lucas e Luan Ribas Miranda, de 8 anos, destaca que agora que os matriculou no espaço de monitoramento de tarefas se sente mais aliviada. “Antes, eu chegava do trabalho cansada, nervosa e ainda precisava verificar se eles tinham feito o dever de casa. Isso gerava mais estresse ainda”, conta.

Ela lembra que antigamente a situação era diferente, pois os pais - principalmente as mães - tinham mais tempo para olhar a tarefa dos filhos e até ajudá-los quando necessário.

O mesmo dilema passava a mãe de Bárbara Bianchi Dias, 7 anos, Helena Bianchi. Ela trabalha como dentista em Arealva e, ao chegar em casa, por volta das 21h, ainda precisava checar se a menina tinha lição de casa e incentivá-la a fazer. “Ela ficava nervosa, porque queria brincar, me contar como tinha sido o seu dia, e eu ficava irritada porque ela ainda não havia feito o dever. Isso tudo desgastava a relação”, explica.

Pensando nisso, ela também matriculou a filha no Tarefando e conta que se sente mais tranqüila ao retornar para casa. “Agora sobra tempo para gente se curtir”, diz.

Para o funcionário público Ciro Argenta Júnior, pai de Ciro Noronha Argenta, que também optou pelos serviços do espaço de monitoramento de tarefas, o resultado ficou evidente nas notas da criança. “O desempenho escolar dele melhorou”, destaca.

Ele salienta, no entanto, que o fato de “terceirizar” o acompanhamento escolar dos filhos não tira a responsabilidade dos pais. “Tem que olhar os cadernos, ver se está fazendo tudo direito e cobrar notas melhores se for preciso”, destaca.

Nem sempre, porém, a dificuldade em organizar a vida escolar do filho está ligada ao fato do pai ou a mãe trabalhar fora.

A autônoma Regina Del Col, por exemplo, não está trabalhando no momento, mas sofria com a dura missão de colocar ordem nos cadernos de seu filho, Fernando Del Col, 10 anos. “Ele tem muitas atividades extras e não conseguia manter as tarefas em dia”, salienta.

Ela diz que era comum o menino começar a fazer o dever e parar para ir ao basquete ou a um curso de informática. Ao voltar para casa, o menino pegava os livros e logo deixava de lado para assistir televisão... e assim, passava-se a tarde, chegava a noite, e ele sempre enrolado com as tarefas.

Foi aí que Regina resolveu pedir a ajuda de Malu, Leslie e Sandra. Agora, Fernando passa cerca de duas horas todos os dias no espaço de tarefas e, ao voltar para casa, está com tudo feito. “É um alívio”, diz.

Espaço lúdico

Para a pedagoga Maria Zilda Facin Zanconato, professora de prática de ensino da Universidade do Sagrado Coração (USC), delegar a supervisão das tarefas escolares a uma empresa especializada não compromete o aprendizado da criança. No entanto, ela lembra que é preciso levar em consideração algumas questões.

“Para a criança que não gosta muito de estudar, é muito ruim dedicar dois períodos do dia aos livros. Geralmente são essas que mais precisam de orientação. Por isso, o espaço das tarefas deve oferecer algo mais que a escola. Não pode seguir a mesma metodologia de ensino, senão fica cansativo”, destaca.

De acordo com a pedagoga, o fato de transferir para uma empresa especializada a supervisão das tarefas escolares não livra os pais de dedicarem um certo tempo aos deveres dos filhos.

Ela explica que é importante para o desenvolvimento da criança perceber que há interesse dos pais em sua vida escolar. “Isso ajuda na formação da criança, é algo que ela vai carregar para sempre dentro de si. Por isso, os pais devem ter esse momento de afeto e preocupação com os filhos, verificando o desenvolvimento escolar, elogiando quando possível, cobrando quando preciso”, relata Maria Zilda.