Os caminhões fabricados desde a última quinta-feira
no País estão obrigados a sair de fábrica com um novo modelo de pára-choque traseiro que, diferentemente dos
atuais, deverá ser mais baixo, pintado em cores diferentes e constituir-se no limite da carroceria
do veículo.
A medida é mais uma resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) a alterálos. A anterior, em vigor desde 1995, exigia que os párachoques permanecessem a
uma altura máxima de 55 centímetros do solo, permitia seu “afundamento” na carroceria em até 40 centímetros e determinava que suas extremidades suportassem até 2,5 toneladas de peso. A nova legislação alterou tais características.
Segundo o Contran, a iniciativa visa aperfeiçoar a segurança dos veículos. Apesar disso, a aplicabilidade da resolução será restrita. Isso porque ela não obriga os caminhões usados a adaptarem o equipamento. Desta forma, a maioria da frota nacional de “brutos”, estimada em quase dois milhões de unidades, não será atingida pelas novas regras.
No entanto, a estensão da medida a todos os caminhões
causa polêmica. Para o capitão Daniel Correia de Godoy, comandante da Polícia Rodoviária de Bauru, é
questão de tempo para isso ocorrer. “Creio que os legisladores pensaram nas conseqüências sociais e econômicas da mudança, pois muitos teriam de investir para regularizar seus veículos. Mas, como trata-se de questão de segurança, acho que se tornará obrigatório para todos de forma escalonada”, considera.
A discussão continua entre os caminhoneiros. Erdeci
Dourado, há 26 anos na profissão, é favorável à adoção universal. “Mesmo que traga custos, a segurança é prioridade”, enfatiza.
Já para Daniel de Almeida, na atividade há 15 anos, um
pára-choque moderno seria inócuo sem a conscientização
dos motoristas. “Para quem abusa da velocidade e bate na traseira de um caminhão, não há pára-choque seguro.A polícia tinha de coibir essas infrações”,
frisa.
Já o engenheiro Luiz Cremonezi, diretor do Centro
Tecnológico Mecânico (Cetem) de Bauru, sustenta que a
utilização do novo pára-choque é desnecessária até mesmo para os caminhões novos. Ele argumenta que a resolução anterior, baseada em legislações européias, atendia os requisitos técnicos de segurança para o equipamento.
Além disso, ele enumera várias inconsistências da nova
resolução. “Em qual estudo científico o órgão baseouse
para estipular os pesos que os pára-choques devem suportas nas extremidades?”, critica Cremonezi.
“A lei também prevê que o pára-choque deve ser avaliado
por instituição que emitirá relatório de aprovação ou reprovação do equipamento, mas até agora o órgão não habilitou ninguém para tal serviço”, questiona. “Isso evitará a utilização de materiais de segunda linha na fabricação dos pára-choques”, acrescenta.
O engenheiro aponta que a redução da altura em relação
ao solo, benéfica a princípio, trará problemas. “A diminuição colabora para evitar o efeito guilhotina, mas as péssimas condições das estradas nacionais, cheias de buracos, certamente fará o equipamento deformar-se com os impactos no solo”, prevê.
Apesar disso, Cremonezi ressalta que o novo pára-choque
é mais resistente. “Mas não sei se ele é mais eficiente”, pondera. Prova disso é que, nos ensaios executados pelo Cetem em equipamentos já adaptados às regras em vigor, cerca de 50% são reprovados. “São erros de projetos”, diz.