08 de julho de 2026
Geral

‘Letreiros do Calçadão oferecem risco’

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 8 min

A arquiteta Priscilla Ananian elaborou 70 projetos de revitalização para estabelecimentos comerciais da região central de Bauru nos últimos 16 meses e pôde acompanhar a retirada de diversas caixas metálicas instaladas nas fachadas das lojas. A situação precária das estruturas, que apresentavam ferrugem e lixo acumulado, faz com que ela alerte para os riscos que os caixotes que ainda permanecem no Calçadão representam.

Para Ananian, as caixas metálicas podem acabar causando uma tragédia semelhante à provocada na última terça-feira pela queda da bandeira publicitária da loja Pernambucanas, que atingiu três pessoas e matou a funcionária pública Helena Maria Bíscoli da Silva, de 52 anos.

A lei municipal que trata da revitalização da região central, no quadrilátero formado pela avenida Rodrigues Alves, ruas 1º de Agosto e Araújo Leite e Praça Machado de Mello, exige que os estabelecimentos comerciais inseridos nessa área promovam a revitalização de suas fachadas até dezembro, sob pena de serem multados em R$ 1 mil.

O texto da lei proíbe a presença das caixas metálicas e estabelece que os painéis publicitários sejam colados nas fachadas, avançando no máximo 30 centímetros em direção à calçada.

Além das lojas, Ananian defende a revitalização de outros aspectos do Calçadão, como os toldos metálicos localizados nas calçadas. Ela também acredita que a lei poderia ser estendida para outros setores da cidade. “Especialmente os corredores comerciais”, comenta a arquiteta, que é formada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e atualmente cursa o mestrado na mesma instituição.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Ananian ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - A queda da bandeira publicitária da loja Pernambucanas foi muito comentada durante a semana. A lei da revitalização acertou em proibir esse tipo de anexo?

Priscilla Ananian - No primeiro momento, eu havia questionado a proibição das bandeiras, porque muitas pessoas haviam me perguntado sobre a possibilidade de colocar um letreiro em pé, mas depois desse acidente concordo que é melhor não tê-las. Não sou especialista nisso, mas a carga é muito mais pontual em cima de uma bandeira do que em cima de um letreiro que é distribuído horizontalmente. Embora haja a fixação, é mais provável acontecer um acidente com uma bandeira do que com um letreiro que não está em pé, principalmente em função da ação do vento. Em termos de poluição visual, também é melhor evitá-la.

JC - Depois do acidente, a Prefeitura Municipal decidiu criar uma lei para exigir a presença de responsável técnico para a instalação de bandeiras publicitárias. Foi uma decisão acertada?

Priscilla - As empresas de comunicação visual deveriam ter sempre um engenheiro responsável, e não ter apenas um arquiteto que faça o projeto. É preciso alguém que tenha a responsabilidade em cima da execução. Aconteceu dessa vez com a loja Pernambucanas, que tinha um painel grande, e precisamos atentar que há dezenas de caixas metálicas sem projeto e que estão lá no Calçadão há dez anos, enferrujadas.

JC - A presença dessas caixas metálicas, então, é preocupante?

Priscilla - Sim, porque a estrutura é precária. Acompanhei a retirada de várias delas para que se fizesse a reforma e elas estavam totalmente apodrecidas. Os ferros estavam enferrujados e a situação era calamitosa. É até estranho que não tenha acontecido nada antes. Tenho fotos que mostram que a situação é ruim não só em termos de segurança, mas também de dejetos, porque as caixas geralmente são abertas em cima. Quando você as retira, o lixo desaba. Aqueles caixotes representam um risco em potencial. Muitas pessoas resistem à revitalização, mas precisam entender que ela não trata apenas da questão estética. Há o fator segurança e ainda bem que há essa lei para forçar as pessoas a retirar essas caixas.

JC - Então, colar o painel publicitário na fachada, como exige a lei de revitalização, é a melhor opção?

Priscilla - Sem dúvida, e não só pela questão da segurança. Quando não havia uma legislação em cima disso, cada comerciante queria aparecer mais do que o outro. Um fazia um letreiro avançando meio metro e aí o vizinho fazia com um metro. Era uma competição desleal. No momento em que você limita isso, é preciso adotar outros critérios, como a criatividade, para aparecer da mesma forma ou até mais. Você acaba incentivando a qualidade da publicidade no lugar da quantidade ou tamanho dela.

JC - Voltando à questão da retirada do caixote metálico, você diria que esse foi o principal obstáculo para que seus clientes aceitassem reformar a fachada das lojas?

Priscilla - Sim, primeiro porque eles investiram e isso custa dinheiro. Além disso, como havia o caixote, às vezes atrás encontramos remendo de parede com tijolo baiano sem reboco. No momento em que o caixote era retirado, eles sabiam que havia uma caixinha de surpresas negativas. Foi isso, porém, que salvou a imagem do Centro, porque, mesmo que você possa usufruir do caixote para criar, a fachada desnuda traz de volta a memória coletiva. As pessoas, principalmente as mais velhas, poderão passear pelo Calçadão e relembrar como era aquele local antigamente.

JC - Muitas pessoas reclamam, porém, que as caixas servem de abrigo em dias de chuva ou calor forte. Como você analisa essa questão?

Priscilla - Para fazer esse trabalho, investiguei vários calçadões fora do Brasil. A Bélgica, por exemplo, é um lugar complicado em termos de chuva e frio e o calçadão de lá não tem nenhuma cobertura, mas é freqüentado pelas pessoas mesmo assim. Concordo que Bauru sofre com a questão do sol e do conforto térmico, mas, para amenizar esse problema, acho que teríamos que adotar uma outra cobertura, disposição ou paisagismo. Não vou me arriscar, porém, a indicar a melhor opção, porque ainda estou realizando essa pesquisa.

JC - Apenas restaurar as fachadas resolve os problemas arquitetônicos do Calçadão?

Priscilla - Não. Eu até defendi isso em um congresso em Belo Horizonte, há algumas semanas. A melhoria passa por um conjunto de fatores.

JC - E como é possível melhorar, por exemplo, o aspecto dos arcos metálicos azuis que ficam na calçada. O Corpo de Bombeiros tem dito ao longo dos anos que aquela estrutura poderia atrapalhar a utilização da escada magirus em operações de resgate ou combate a incêndios.

Priscilla - Você precisa preservar a identificação e os arcos são um signo para a cidade, mas realmente há a questão da segurança, que é reivindicada pelo Corpo de Bombeiros. Não digo que precisaríamos descobrir o Calçadão, mas cobri-lo de outra forma. De repente, uma ocupação central que deixasse as laterais livres resolveria o problema, mas essas são indagações que ainda não posso responder. Estou desenvolvendo uma pesquisa para determinar o que significam essas coberturas e que melhorias poderíamos ter. É um assunto delicado, porque envolve comerciantes, usuários comuns e funcionários. Como pesquisadora, me coloco de forma neutra diante dessa questão, mas com a aplicação de um questionário e a tabulação dos resultados poderei informar, futuramente, o que o povo quer. Além disso, há a questão do mobiliário, formado pelos bancos e floreiras, que poderiam ser melhor integrados.

JC - Já é possível fazer uma análise do impacto visual que a revitalização tem promovido na região central?

Priscilla - Nos locais onde várias lojas, umas ao lado das outras, já fizeram a revitalização, é muito mais fácil visualizar essa melhoria. É assim, por exemplo, em trechos da rua Azarias Leite e na quadra 1 do Calçadão. Agora, quando há apenas uma loja revitalizada no meio da quadra e os caixotes do lado, é até ruim para o comerciante, porque ele fica escondido.

JC - O prazo para a reforma termina em dezembro, mas muitos comerciantes ainda resistem à revitalização. Você acredita que eles mudarão de idéia nos próximos meses?

Priscilla - A resistência já foi pior no ano passado. Depois, os comerciantes começaram a entender que a revitalização era melhor não só visualmente, mas também para atrair mais consumidores. Mesmo assim, ainda há resistência, principalmente porque é preciso mexer no bolso e a situação do País está complicada. A isenção do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) ajudou, principalmente no ano passado, quando era de 100%. Nesse ano, com isenção de 50%, ficou mais difícil convencer as pessoas a fazer a reforma.

JC - Que mudanças você defende no paisagismo das ruas transversais ao Calçadão?

Priscilla - A proposta adotada pela prefeitura na rua Rio Branco foi interessante, mas houve alguns erros, até pelo tempo que tiveram para fazer essa reforma. Com essa experiência, porém, acho que a segunda etapa, na rua Agenor Meira, será mais eficiente.

JC - As praças Rui Barbosa e Machado de Mello delimitam o Calçadão. O que poderia ser feito para melhorá-las visualmente?

Priscilla - Embora elas limitem o Calçadão, não estão inseridas nele. Elas teriam um potencial imenso para serem aproveitadas, mas hoje estão marginalizadas. Teoricamente, poderia se pensar em parcerias com os comerciantes para revitalizá-las, mas já senti que há uma resistência quanto a isso. Nas lojas, mesmo deixando de pagar o IPTU, já é complicado. Para convencê-los a investir nas praças, seria mais difícil ainda. O investimento precisaria partir do poder público ou da Associação das Empresas do Calçadão.

JC - Para finalizar, você acredita que a lei de revitalização poderia ser estendida a outros locais de Bauru?

Priscilla - Acho que seria interessante estendê-la aos corredores comerciais, como as avenidas Marcos de Paula Raphael e Getúlio Vargas. Elas poderiam seguir essas determinações, talvez não com tanto rigor como foi na região central.