31 de maio de 2026
Regional

Uru é pioneira na implantação de usina

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

O lixo brasileiro é considerado um dos mais ricos do mundo. Por falta de conscientização, as pessoas depositam nele objetos que deveriam ser descartados de outra maneira. Em Uru (111 quilômetros a noroeste de Bauru), essa realidade pode ser constatada na usina de compostagem de lixo, onde se encontra televisões e até fezes de cachorro junto com o lixo orgânico. Com a usina é possível transformar lixo em dinheiro.

Na região, a cidade, com 1.500 habitantes, foi pioneira e no Estado ficou na 12.º colocação na implantação da usina de compostagem, conta orgulhoso o prefeito Valdir Cândido de Sousa. Em seis anos de atividade, a usina ainda não dá lucro financeiro. “A grande vantagem é que não poluímos o meio ambiente e ainda geramos empregos.”

Para ele, a implantação da usina foi uma questão de honra. “Eu não me conformava em ver o lixo jogado nas nascentes de água da nossa cidade. Também não aceitava o lixo ser enterrado, poluindo a terra.”

A idéia de implantar a usina, segundo o prefeito, foi levada para o Comitê da Bacia Hidrográfica Tietê-Batalha. “Na época, pensei em uma usina manual e recebi uma verba de R$ 40 mil.”

Mesmo antes da usina se tornar realidade, mais duas cidades daquela região resolveram participar. “Fizemos um consórcio com Pongaí e Reginópolis e a usina, que seria manual, passou a ser mecanizada.”

A capacidade de coleta da usina que era de 5 mil quilos de lixo por dia passou a ser de 10 mil. “O preço também dobrou. A manual custaria cerca de R$ 45 mil e a mecanizada, R$ 90. Na época, o governador Mário Covas fez uma visita e acabou doando o valor que faltava.”

Em atividade há seis anos, a usina de compostagem de Uru recebe, aproximadamente, 4 mil quilos de lixo por dia só da cidade. Pongaí continua mandando o lixo, mas Reginópolis, segundo o fiscal geral da prefeitura, João Rocha, deixou de mandar o lixo. “Eles obtiveram autorização da Cetesb e estão depositando em valas.”

Em Uru, assim como na maioria das cidades da região, não há coleta seletiva de lixo. Todo o material que chega na usina vem misturado, o que exige a separação do lixo.

Dinheiro

Embora o preço dos recicláveis não seja tão atraente no mercado, a Prefeitura de Uru comercializa tudo o que sobra do lixo recolhido duas vezes ao dia na cidade, explica o prefeito. “Fazemos isso na parte da manhã. No período da tarde, recolhemos os entulhos e galhos de árvores. Em Uru ainda não tem coleta seletiva.”

A cada três meses, a prefeitura chega a faturar cerca de R$ 900,00 só com as garrafas PETs recolhidas no lixo. “As latinhas de refrigerantes e cerveja não chegam até a usina. Se elas chegassem, poderíamos até ter lucro. É o produto mais bem pago no mercado, cerca de R$ 3,50 o quilo, enquanto que as garrafas PETs valem R$ 0,58 o quilo.”

As garrafas plásticas de embalagem de detergentes, amaciantes e outros produtos valem só R$ 0,15 o quilo. “São chamados de plástico duro. O papelão é vendido a R$ 0,18. O vidro está difícil vender. O último estoque vendemos por R$ 0,02 o quilo.”

A renda das vendas dos recicláveis ainda não sustenta as despesas da usina. “Temos sete funcionários e a manutenção do maquinário é cara.”

Mas não é só o material reciclável que está sendo vendido pela prefeitura. “O lixo e orgânico vira adubo. Os agricultores compram. O problema é que não temos uma área coberta para manusear o lixo e dependemos de sol. Com o sol, demora cerca de 100 dias para que o adubo esteja pronto para ser comercializado.”

Sousa sonha agora em construir um barracão que, aliado a um produto existente no mercado, transformaria o lixo orgânico em adubo num período não superior a quatro dias. “Numa fase de muita chuva, não temos como transformar o lixo em adubo e todo o manuseio fica comprometido.”

De acordo com ele, a procura por adubo é grande. “Os proprietário rurais que cultivam laranja ou mantêm hortas e jardins querem comprar, porém não temos como vender, porque ele não está pronto.”

O prefeito explica que ainda não implantou a coleta seletiva. “É uma nova etapa que depende da conscientização da população. Precisamos fazer um trabalho educativo.”

Ele está satisfeito com a avaliação da Cetesb. “Em 2002 recebemos nota 9,6 e em 2003, recebemos a mesma nota. Nossos catadores estão nas ruas, na usina não há catadores.”

Compostagem

Em Uru, o lixo chega em caminhões e é depositado em um local onde é manuseado por um funcionário. O lixo passa por uma primeira peneira e cai na esteira, onde outros três funcionários, usando equipamentos de segurança, iniciam o processo.

Com um objeto cortante, os funcionários estouram os sacos de lixo e começam a separação. Papel e papelão de um lado, latas de óleo do outro, garrafas PETs e garrafas de plástico duro juntas. Cada tipo de material fica separado.

O lixo orgânico (restos de comida, folhas, frutas, etc) passam por uma peneira e, em seguida, entram em um cilindro que rejeita as sacolas plásticas deixando somente o lixo que vai se tornar adubo, após um processo de apodrecimento. Depois, o produto originado do lixo orgânico passa por uma peneira.

Um barracão de mais de 1.000 metros quadrados serve de “armazém” para o lixo reciclável. Uma enorme prensa é responsável por deixar os produtos prontos para serem recebidos pela empresa compradora. O lixo passa por nova separação. As garrafas PETs, por exemplo, têm que ser separadas, as transparentes das verdes.

A dificuldade maior é livrar-se de lixo como restos de TV, móveis, bichos mortos e até fezes de animais que as pessoas mandam junto com o lixo.

A higiene do local é outro item que merece destaque. Na usina, não há uma mosca varejeira e o odor não chega a incomodar porque é feito um controle biológico.