Recentemente, o Sesc e a Unesp-Bauru promoveram um excelente seminário onde discutiu-se mitologia grega, ética, valores, educação, política e outros assuntos de relevância social. Foi um encontro onde os participantes viajaram por tempos e espaços variados, sob a orientação dos profissionais que coordenaram o evento. O momento também foi oportuno para que velhos amigos se reencontrassem.
Como ressonância dos debates, é interessante pensarmos na tragédia grega “Édipo Rei”, de Sófocles, que extrapola sua época e nos perturba e interroga. A importância do mito reside no fato de ser uma forma de viver humano, o início em nossa imaginação que será trabalhado pela razão. É o que percebemos na reprodução dos contos infantis, desenhos animados, filmes, na oralidade ou na escrita.
Temas como a separação entre o público e o privado, a apropriação do saber, a importância da filosofia, o desejo, a cobiça e o individualismo, os políticos demagógicos e populistas, a educação, a igualdade na forma da lei escrita, mas que não se realiza na prática social, a democracia limitada estão presentes no Édipo Rei e nos questionam diante da realidade brasileira e mundial, mostrando o quanto o homem é contraditório e grandioso, mas ao mesmo tempo pequeno em sua humanidade.
Resgatando-se nossos mitos cotidianos (ídolos, desejos, objetivos, metas, celebrações) é possível discutir os sensos comum e crítico, inclusive na prática pedagógica, o que permite a rejeição dos mitos prejudiciais ao homem através da razão. Esta rejeição gera crítica e mudança, e o saber gera a transformação de comunidades, de sociedades maiores e da própria história do homem. A palavra, geradora do saber estimula a participação política.
Parece que há uma tendência em deixar a visão antropocêntrica sobre a existência (o ser) e se envolver e se deixar seduzir pela tecnocracia. Existe hoje uma sensação de vazio, de descrença e de aceitação num mundo tecnocêntrico onde não se vive o tempo-histórico. Simultaneamente, é o momento de discussões, de revisões, de repensar mitos, o próprio homem, e construir novas realidades onde outra ética esteja presente nas diversas atividades sócio-político-econômicas.
Como no mito de Édipo, que a força nova da vontade nos faça superar o que nos é dado. Que a liberdade seja usada para compreendermos o mundo e orientar novas ações com valores que privilegiem a justiça. (A autora, Rosane Maria Pimentel, é professora especialista em História Social)