Para algumas pessoas, tudo é relativo. As opiniões dos outros, mesmo que de especialistas, só são consideradas quando ratificam as próprias. A “qualidade” do autor dependerá da convergência dos pontos de vista ou justificativa de atitudes pessoais, geralmente acompanhadas de um triunfante: “É como eu sempre disse!” ou um enfadado: “Nada que eu já não soubesse...”. O que - ou quem - não estiver adequado à sua escala de “valores” não terá relevância.
Os lugares que freqüentam, as pessoas com quem convivem, os livros que lêem, a música que ouvem e os filmes que assistem são “must” ou “cult”. Princípios de ética e moral são reescritos segundo a conveniência do momento. Quando sua “autoridade” é insuficiente, buscam apoio em autores famosos - pinçando-lhes frases aleatórias para reforçar suas teses - ou emprestam suas opiniões a “sábios” orientais inventados. Não importa que elas estejam fora de contexto ou que seus autores não tenham praticado o que teorizaram e apregoaram. O que vale é a “respaldo” cultural. Paradoxalmente, o que para elas é demonstração de cultura e espírito, para os outros é “lugar comum”, clichê ou pedantismo. Crêem-se perfeitas, daí mesmo seus vícios e defeitos são tidos como virtudes. Não incomodam. Só são incomodados.
Qualquer tentativa de desfazer esse “universo perfeito” é considerada como “paranóica”, leviana ou preconceituosa: “Muito barulho por nada!”. A exceção é quando suas “virtudes” ocasionam risco de morte ou fracasso de vida. Depois do choque inicial o, até então, “virtuoso” mudará radicalmente de opinião sobre o assunto. Combaterá tudo o que antes defendia de forma talvez mais paranóica.
Na relatividade de suas “teorias”, tudo é baseado na vaidade pessoal. Se forem preguiçosos e estiverem fora de forma, considerarão dietas e esportes meros modismos e restrições ao prazer de viver. Dirão que dão mais importância a valores culturais. Se forem atléticos e não gostarem de ler, dirão que “saúde é o que interessa”! Agora, se tiverem que emagrecer, por imperativo médico, ninguém poderá comer ou fazer o que faziam dentro de seu raio de visão ou estarão sujeitos a chiliques e sermões.
A “razão” sempre estará do seu lado e, qualquer que seja o caso, os acertos continuarão sendo seus e os erros dos outros ou por culpa dos outros ou do mundo. Sua opinião relativa continuará absoluta, ao menos até que mude de idéia novamente.
A mudança de opinião é natural no ser humano, afinal, as informações e experiências vão sendo acumuladas ao longo da vida. Mas elas vêm de todos os lados e se soubermos filtrar sua essência uma fonte humilde pode ser tão significativa como uma ilustre. Não por acaso, o rei Salomão preferiu a sabedoria ao poder material. Enquanto perseverou, consciente, teve os dois.
Não é natural colocar-se no centro do universo. Somos, sim, o centro de nossas vidas. Mesmo assim só enquanto optamos pela solidão. Não é coerente crermos ser capazes de mudar, enquanto acreditamos, arrogantes, conhecer os outros absolutamente, em qualquer tempo. “Se não for, fica sendo!”. É essa falta de sensibilidade que destrói relacionamentos, pois exalta a si próprio e desrespeita o próximo.
Ter infinita tolerância com os próprios erros e defeitos pode ser bom para o ego, mas impô-los como referência aos demais é algo que beira à insanidade ou, no mínimo, ao ridículo. Relações e vidas construídas sobre essas bases podem até ser consentidas, convenientes e “charmosas”, mas serão supérfluas, relativas e efêmeras. Esse autismo social pode compensar carências afetivas ou frustrações pessoais, mas é preciso ter consciência de que o mundo não tem obrigação de participar dessa “terapia”.
O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro, professor universitário e articulista.