10 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Todas as identidades de um herói

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

Antes de falar de “Homem-Aranha 2” em si, é interessante comentar sobre o fenômeno causado por sua estréia nos cinemas, assim como o primeiro filme. Esta é uma das únicas produções - para não dizer “a única” - que ainda provoca tal comoção nos fãs a ponto de deixá-los emocionados, nervosos e anciosos com a primeira sessão que vão assistir. Digo primeira porque fã que é fã não se contenta com uma só.

Na pré-estréia do filme, na madrugada de ontem, dezenas de garotos, adolescentes ou homens barbados conversavam agitados sobre os quadrinhos, o primeiro filme, os detalhes a serem observados e as apostas para as próximas duas horas, sentados no escuro. Nem Harry Potter, Frodo, Neo ou mesmo os X-Men deixam seus fãs assim.

Talvez seja exatamente porque Peter Parker (Tobey Maguire) é um cara normal como todos nós - ou até mais azarado. Ele tem problemas financeiros, dificuldade em manter seus empregos, mancha as roupas brancas com um certo uniforme azul e vermelho na máquina de lavar e trava completamente na hora de trocar algumas palavras com a garota que ama. E claro, soma-se a isso o fato de que ele é o Homem-Aranha e tem a missão de salvar Nova York de bandidos e malfeitores.

E justamente esse é o principal encanto do herói. Ele é um garoto comum que recebe um dom que também é sua maldição. Nesta seqüência do sucesso de 2002, encontramos Peter estressado com as escolhas que tomou ao ouvir que grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Tão estressado a ponto de seus poderes falharem. Ao tentar preservar as pessoas que ama, ele é obrigado a afastar-se delas, assim como abandonar sua vida pessoal, a fim de usar seus poderes para o bem da humanidade.

O dilema hamletiano do ser ou não ser um herói revela a profunda humanidade do personagem. Ao longo do filme, Peter depara-se com várias situações onde terá de fazer escolhas e, como todos no cinema lotado, será obrigado a abdicar de uma opção em nome da outra.

Além do herói, outros personagens importantes do filme também enfrentam seus dilemas. Mary Jane (Kirsten Dunst) ainda ama seu antigo vizinho mas está prestes a se casar com um novo namorado. Tia May (Rosemary Harris) tem problemas com a hipoteca e continua sofrendo e se culpando pela morte do marido. E o vilão Doutor Octopus (Alfred Molina) é um cientista brilhante que defendia os ideais de usar sua inteligência para o bem, mas encontra-se preso em sua própria criação. Por sinal, o ator dá um show como Doc Ock e supera em muito o histérico Duende Verde (Willem Dafoe) do primeiro filme.

“Homem-Aranha 2” tem a marca do diretor Sam Raimi com cenas hilárias e absurdas, o drama dos personagens mais aprofundados e seqüências de ação grandiosas e vertiginosas, que impressionam pela qualidade dos efeitos e das tomados e tecnologias criadas especialmente para o filme. O primeiro encontro de Octopus com o aracnídeo, com direito à participação de Tia May, e principalmente a cena do trem são simplesmente de se segurar na poltrona.

O filme ganha pontos também ao mostrar mais Peter do que o herói uniformizado, pois Maguire é um ator brilhante e encarna o problemático rapaz com perfeição. Mesmo para os fãs das HQs, o filme guarda grandes surpresas, incluindo algumas que já começam a desenhar o próximo filme, com previsão de lançamento em 2007.

É preciso dizer também que a produção faz parte do reduzido e seleto grupo de seqüências que superam o original, elevando sua trama e os personagens a patamares superiores. Os fãs podem até entrar em êxtase, mas os apreciadores do bom cinema - não só de aventura - tem em “Homem-Aranha 2” um prato delicioso que não vai deixar ninguém sair do cinema sem um sorriso satisfeito estampado no rosto.