A exposição “O Samba em Verso e Prosa” do Sesc é dividida em duas partes: a primeira se concentra em um panorama didático composto por aproximadamente 32 painéis que explicam, através de textos e imagens, a evolução do gênero musical. Já a segunda é composta por exuberantes telas e móbiles de autoria de Elifas Andreato, e dispostas de forma alternada ao longo da mostra.
“É um caminho, uma espécie de labirinto sobre a história do samba desde 1500 até os dias de hoje”, aponta Jailton Carvalho, animador cultural do Sesc e um dos responsáveis pela montagem da exposição. A palavra labirinto define bem a forma como os trabalhos podem ser vistos - já que é imprescindível passar por todas as fases até chegar no último painel - mas é bom deixar claro que tudo é organizado e separado por períodos específicos.
Ao entrar, o público é convidado a desvendar os caminhos da trajetória do samba: o primeiro painel apresenta as origens do batuque através de uma “árvore genealógica” do estilo musical, que nessa época, ainda não era chamado de samba. Segundo o diagrama, que foi baseado em trabalhos dos pesquisadores Edson Carneiro e José Ramos Tinhorão, os “bisavós” do samba eram os calhandos e calundus, ritmos e danças de caráter religioso dos séculos 17 e 18.
Os “avós” do samba, do século seguinte, são apontados como urbano (batuques mestiços, entre eles lundu, fado e modinha) e rural (ritmos africanos - jongo, samba de roda, maculelê, partido alto, tambor de criola e coco). Já no papel de “pais” do samba, no começo do século 20, estão o maxixe, que recebeu influências do tango e música européia; e o choro, estilo tipicamente carioca executado por conjuntos de sopro e cordas.
No início e até meados do século, o samba era um ritmo marginalizado, tocado somente em festas realizadas pelos escravos, explica o radialista e sambista Ulisses Frazão, que coordenou uma palestra sobre o gênero durante a abertura da mostra, realizada na última terça-feira. “No começo, o samba era uma manifestação popular feitas às escondidas e não era bem aceita na sociedade”, conta. “Depois de 1917, quando Donga fez o primeiro samba, o gênero ficou mais conhecido”, completa.
A popularização do samba é contada de forma seqüencial pela mostra. Um dos painéis retrata a profissionalização do bambas, por volta de 1920. Sinhô foi um dos primeiros a investir no gênero, registrando suas composições e exigindo direitos autorais.
Com o surgimento dos desfiles de Carnaval - que nos anos 20 e 30 eram divididos entre os corsos de elite e os blocos populares - o samba ganhou maior espaço com a criação do circo e do teatro de revista, destacando o trabalho de Sílvio Caldas, Francisco Alves e Carmem Miranda. O período também registrou o surgimento da Era do Rádio, que contribuiu para emplacar sucessos de Ary Barroso e Noel Rosa, entre outros compositores.
Esses e outros nomes que marcaram a história do samba são destacados na “Galeria do Samba”, uma seqüência de pequenas biografias que acompanha todos os painéis da exposição.
Esses fatos porém, não tiraram a fama “marginal” do samba. “Era uma luta muito difícil. Quando surgiram as escolas de samba nos anos 30, os temas desenvolvidos pelos sambistas passavam por uma censura, não se podia fazer um enredo crítico ou político, os religiosos também precisavam de cuidados”, explica Ulisses. Ele desfilou durante 20 anos na escola de samba bauruense Cartola e integra, atualmente, a Tradição da Zona Leste. Além disso, apresenta o programa “Batuque na Cozinha”, edição especial sobre samba transmitida pela Rádio Unesp (105,7 FM).
“Também não existiam enredos abstratos, pois a censura achava que eles estavam tentando transmitir mensagens através das letras e fantasias”, acrescenta Ulisses, se referindo ao Estado Novo de Getúlio Vargas, que instituiu o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) como forma de censura. Essa regra voltou a incomodar os sambistas na época da ditadura dos anos 60 e 70.
A seqüência dos painéis acompanha a trajetória evolutiva do samba, que começou a fazer sucesso no Exterior, entre 1940 e 1960. Nesse período, o ritmo também recebeu a influência de outros gêneros musicais, como a Bossa Nova e a MPB. “A grande guinada foi nos anos 60, quando ele passou a fazer parte dos festivais”, destaca Ulisses. Inaugurada em 1965 pela TV Record, a fase dos festivais revelou Caetano Veloso, Dori Caymmi, Jorge Ben (que depois acrescentou Jor ao nome), entre outros artistas famosos.
Outras formas
Desde a década de 20, o samba ganhou diversas variações: partido alto, samba-choro, samba-de-breque, samba-enredo e pagode. O samba-enredo foi criado pelas escolas de samba na década de 30 para os desfiles carnavalescos. O samba-de-breque imortalizou a figura do sambista malandro.
Já o samba-canção, originado nos 40, aborda temáticas sentimentais e foi gravado por diversos compositores, como Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves e Ary Barroso. “O partido alto é uma cadência bem ritmada e tem origem nas rodas onde os músicos costumavam improvisar”, ressalta Ulisses. Ele conta que o choro, originado nos anos 40, foi uma das vertentes mais aceitas no cenário musical. “Talvez pela própria musicalidade e sua técnica mais bem cuidada”, comenta.
Mercado fonográfico
A partir dos anos 80 até os dias atuais, o mercado fonográfico e a mídia perceberam que o samba era um negócio rentável, aponta Ulisses. “Essa é também a fase dos pagodes, que são músicas mais comerciais onde o pessoal se preocupa mais em vender do que fazer sambas de qualidade”, critica. Por outro lado, o pagode - cuja definição é antiga e significa uma reunião de bambas, afirma Ulisses - contribuiu para a difusão do gênero.
“O pagode trouxe os jovens para o samba. Hoje percebo mudanças no comportamento musical em relação aos últimos dez anos. Há maior preocupação com a qualidade tanto na percussão quanto na harmonia, isso se reflete em letras e melodias mais elaboradas”, diz o radialista.
O cantor Zeca Pagodinho e o grupo Fundo de Quintal, que são citados na exposição, são representantes dos bambas da atualidade. “As músicas de Zeca falam de amor, mas ele também sempre se preocupa em gravar temas do cotidiano. Já o Fundo de Quintal enaltece muito o samba através dos sambas exaltação. Um de seus sucessos, ‘Seja Sambista Também’, convida o público a se unir ao ritmo”, diz.
• Serviço
Mostra “O Samba em Verso e Prosa”. Até dia 18, na área de convivência do Sesc. Entrada gratuita. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.
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Festival de cores
Além dos painéis explicativos, outro ponto alto da mostra são as obras de autoria de Elifas Andreato. São cerca de nove telas e 29 móbiles (em tamanhos médio e grande) inspirados no samba. Carregados de cores fortes, os trabalhos não evidenciam a fisionomia dos personagens representados, e chamam a atenção pelo seu caráter singular.
Produzidos através da técnica de plotagem (onde as pinturas são scaneadas e ampliadas no computador), tanto os móbiles quanto os quadros retratam elementos fundamentais do samba, como os próprios artistas ou desfiles de Carnaval. Tudo sob o ponto de vista de Elifas, que ficou famoso por ilustrar capas de discos de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Chico Buarque, entre outros artistas.
Um dos destaques fica por conta de um móbile de uma mangueirense, pintada nas cores da escola, rosa e verde. Além disso, o público também pode relembrar trechos de clássicos do samba, que estão impressos atrás de algumas obras.