Cuidar dos dentes tem sido uma preocupação cada vez maior no mundo dos esportes. Estatísticas mostram que 13% a 39% dos traumatismos odontológicos ocorrem durante treinos e competições. Mas a relação entre saúde bucal e desempenho esportivo vai muito além da preocupação com acidentes. Estudos científicos revelam que uma boca mal cuidada pode reduzir o rendimento do atleta em até 25%.
De acordo com o cirurgião-dentista Hilton José Gurgel Rodrigues, especialista em saúde coletiva e mestrando em odontologia desportiva pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), a preocupação com a saúde bucal dos atletas começou nos Estados Unidos, onde as competições sempre foram muito valorizadas, inclusive entre os colegiais.
Autoridades perceberam que era muito freqüente a ocorrência de traumatismos entre os esportistas e a imensa maioria dos acidentes afetava justamente as estruturas orofaciais. Então, nas décadas de 50 e 60, os estudos evoluíram.
Uma das primeiras providências foi determinar a utilização de equipamentos de segurança nos campeonatos. Hoje, nos Estados Unidos, o uso de protetor bucal e outros acessórios é obrigatório nos treinos e disputas oficiais para diversas modalidades esportivas.
Com o tempo, os pesquisadores perceberam que a importância da odontologia desportiva ia muito além da prevenção a acidentes. “Estudos demonstraram que diversos problemas odontológicos podem prejudicar o desempenho do atleta, chegando a reduzir seu rendimento em até 25%”, comenta Rodrigues.
Ele explica que o corpo humano é um grande sistema e qualquer alteração de saúde bucal repercute diretamente nesse mecanismo. “A boca é a porta de entrada do corpo humano. Se você tem bactérias na boca, elas podem cair na corrente sangüínea. Como o sangue circula por todo o corpo, essas bactérias podem se espalhar pelos nossos órgãos vitais (coração, pulmão, rins, fígado) e causar infecções”, afirma.
Num processo inflamatório, todo o funcionamento do organismo fica prejudicado e ele não terá a mesma disposição de um organismo saudável para suportar o estresse da prática esportiva e as exigências do treinamento, como comenta o orientador de Rodrigues, professor de saúde coletiva da FOB/USP José Roberto de Magalhães Bastos.
“A gente, quando tem uma infecção simples, uma febrícula, já fica indisposto, perde rendimento. Imagine um atleta, que utiliza 100% de seu corpo”, compara.
O rendimento esportivo também pode ser prejudicado quando o atleta apresenta problema de oclusão (dentes tortos). Segundo Rodrigues, o posicionamento inadequado dos dentes dificulta a mastigação, que é fundamental para o bom aproveitamento dos nutrientes na alimentação. Nutrição mal aproveitada resulta em menos energia para o organismo.
Outra disfunção que pode ser prejudicial ao desempenho do atleta é a respiração bucal. Além de alterar a oxigenação do organismo, respirar pela boca desencadeia alterações pulmonares, altera os batimentos cardíacos e o funcionamento digestivo, resultando em prejuízos ao trabalho de condicionamento.
Todas essa descobertas vêm demonstrando que o acompanhamento odontológico é tão importante para o bom desempenho do atleta quanto o acompanhamento médico e físico.
“Nos países desenvolvidos, medicina esportiva e odontologia desportiva atuam em conjunto. No Brasil, esse trabalho é recente e ainda muito restrito. Prova disso é o jogador Magrão, do Palmeiras, que perdeu três dentes (posteriormente reimplantados) numa partida de futebol no início deste ano”, cita Rodrigues.
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Trabalho especializado
De acordo com o mestrando da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP) Hilton José Gurgel Rodrigues, a proposta da odontologia desportiva é especializar cirurgiões-dentistas para acompanhar e tratar a saúde bucal de atletas, considerando as necessidades e os riscos inerentes à prática de esportes.
“O dentista de uma equipe esportiva vai conhecer as regras daquela modalidade, avaliando quais riscos ela oferece. Vai analisar as características odontológicas do esportista individualmente e determinar o melhor tratamento. Vai orientar treinadores e outros profissionais sobre a prevenção de acidentes e pode socorrer com muito mais propriedade eventuais traumatismos”, argumenta.
Outro diferencial importante da odontologia desportiva destacado por Rodrigues é o cuidado com o doping. “O especialista nesta área adquire conhecimentos específicos para prescrever medicamentos que estejam em conformidade com as regras esportivas”, destaca.
Vencedor do prêmio principal da Jornada Odontológica de Ribeirão Preto no ano passado, Rodrigues inicia em Bauru uma pesquisa com 100 atletas assistidos pela Secretaria Municipal de Esportes e Lazer de Bauru (Semel).
“Numa primeira etapa, fizemos um trabalho de orientação sobre a higiene e saúde bucal. Numa segunda etapa, a intenção é fazer uma avaliação individual e corrigir problemas. A idéia, posteriormente, é buscar apoio para a confecção de protetores bucais”, comenta.
Segundo o cirurgião-dentista, a odontologia desportiva é recente no Brasil e ainda mantém-se restrita aos meios universitários. “Meu objetivo é disseminar a importância desse trabalho e manter convênio com as universidades para montar centros de atendimento e pesquisa em odontologia desportiva”, afirma.
O orientador dele na FOB/USP, professor José Roberto de Magalhães Bastos, destaca que, do ponto de vista da saúde coletiva, praticar exercícios físicos regularmente é uma questão de saúde e qualidade de vida.
“Além disso, o esporte exerce uma atração especial ao ser humano desde a antigüidade. Isso mostra que a odontologia desportiva é uma linha de estudos muito importante e promissora. Ela vai somar muito à saúde pública do Brasil”, acrescenta.