A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) também aponta a falta de verba para justificar a desistência de Bauru em participar do Projeto de Expansão e Consolidação do Saúde da Família (Proesf), do governo federal.
Por meio de financiamento, o projeto visa estimular a estruturação do Programa Saúde da Família (PSF) e inclui ações de modernização institucional, aquisição de veículos, equipamentos médicos e de suporte, reforma e locação de novas unidades de atendimento do programa.
A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde não soube informar qual é a contrapartida prevista pelo Proesf, que cabe à União, Estado e município. Apenas limitou-se a comunicar que os recursos federais são os principais. No entanto, dos 231 municípios do País com mais de 100 mil habitantes, somente 17 deixaram de aderir, sendo Bauru um deles.
“Não temos aporte financeiro”, reitera o secretário municipal da Saúde, Hanna Saab, que admite a fragilidade do prédio onde está instalada a unidade do PSF, na Pousada da Esperança. “O custo de manutenção é muito elevado”, acrescenta ao explicar tanto a dificuldade em aderir ao Proesf quanto a de implementar outras equipes.
Tem a mesma opinião o médico do PSF Marco Aurélio Viegas, para quem a complexidade em instalar o PSF também depende do tamanho do município: quanto menor, mais fácil.
“Em cidades como Bauru, a população já tem uma cultura sobre o atendimento (médico) e acaba resistindo à novidade (do PSF). É muito mais difícil entrar numa cidade que já tem um sistema de atendimento estruturado”, concorda a enfermeira do programa Paula Moraes Noronha Argenta.
Hábito
A moradora da Pousada da Esperança 1 Raquel Rodrigues da Silva é um exemplo. Embora seja visitada pelo menos uma vez ao mês pelo agente comunitário do PSF, não pensou em procurá-lo quando passou mal. “Nem lembrei. Eu ia direto para o pronto-socorro, mas meu filho encontrou (com a agente) e ela me socorreu”, conta.
Raquel, assim como outros oito moradores do bairro ouvidos pelo JC, aprova o projeto e demonstra carinho pelos profissionais da equipe. “A gente vira amigo. Principalmente as pessoas mais sozinhas e mais velhas aproveitam a nossa visita para desabafar”, conta a agente comunitária Susana Carmen Guerci de Mattos.
Em média, ela visita cerca de dez residências por dia. Mesmo assim, é desconhecida de parte do bairro, onde o PSF não tem alcance. Luciana Roberta Dalfito, por exemplo, diz que nunca ouviu falar do programa. Quando precisa vacinar os filhos, recorre ao Núcleo de Saúde da Vila São Paulo. Em qualquer outra circunstância, procura os prontos-socorros do município por considerar precário o atendimento do núcleo.
Procedem da mesma maneira outros cinco moradores da Pousada da Esperança 2 consultadas pela reportagem, que também desconhecem o trabalho desenvolvido pelo programa. Por essa razão, a coordenadora do Conselho Municipal de Saúde, Vânia Porto, defende que todo o sistema de saúde de Bauru seja reavaliado.
“A administração municipal não vê o PSF como prioridade. A Conferência Municipal de Saúde apontou alguns locais (para instalação de outras equipes). A morosidade (para a ampliação do programa) reflete o momento da prefeitura como um todo”, conclui Porto.
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Retrato local
O Programa Saúde da Família em Bauru, assim como em todo o País, tem como objetivo melhorar o atendimento público na área de saúde por meio de um trabalho de prevenção e reabilitação.
Uma equipe composta por um médico, uma enfermeira, um auxiliar de enfermagem e seis agentes comunitários de saúde acompanha mensalmente 1.000 famílias no bairro Pousada da Esperança ou 4,5 mil pessoas, conforme preconiza o Ministério da Saúde.
Para atendê-las, os agentes, divididos em sub-regiões, visitam em média dez casas por dia para prestar orientações de saúde e também identificar os pacientes acamados ou com dificuldade de locomoção. As cerca de 40 pessoas atualmente nesta situação são consultadas mensalmente na própria residência por uma enfermeira e trimestralmente pelo médico, desde que estejam com o quadro de saúde controlado. Os casos mais graves são encaminhados pela equipe à unidade de saúde mais adequada.
Já os outros moradores cadastrados, quando necessário, são consultados na própria unidade, que dispõe de 12 cômodos pequenos e mal distribuídos, num imóvel alugado. Por mês, cerca de 450 consultas são realizadas no local, que fica na quadra 1 da rua Miguel Débia. O programa não dispõe de nutricionista, assistente social ou psicóloga, nem de profissionais para trabalhar preventivamente com saúde bucal. Há seis meses, conseguiu uma recepcionista e um auxiliar de limpeza, que comparecem três vezes por semana.