08 de julho de 2026
Cultura

Visão do esplendor

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Formado por Paulo Vinícius e Susan Lopes o Isto Teatro Experimental escolheu um projeto complexo para marcar a sua estréia no teatro. O grupo encena até quinta-feira, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, o espetáculo “Olha Pra Mim e Me Ama”, inspirado na vida e na obra da escritora brasileira Clarice Lispector, que morreu precocemente em 1977.

As apresentações serão realizadas sempre às 21h, para uma platéia de, no máximo, 60 pessoas. A duração é de 45 minutos e antes de cada encenação há a exibição de um vídeo explicativo de 5 minutos. Trata-se de um espetáculo de câmara, fora do palco tradicional, no qual o público fica muito próximo dos dois atores. A escolha pelo formato faz parte da concepção do projeto, que busca referências no universo de Clarice. No caso, o clima intimista da obra da escritora é o responsável pela apresentação para poucas pessoas.

A complexidade do projeto está justamente no fato de mexer com a obra de uma das mais enigmáticas artistas da cultura brasileira. A encenação só foi possível devido aos anos de leitura e pesquisa da obra de Clarice por Vinícius. “Sempre gostei muito dos livros dela”, diz o ator, que trabalha com teatro desde 1989, mas há cinco anos não montava um espetáculo. “Quando contei minha idéia de montar o espetáculo para a Susan ela gostou e começamos a criar”, completa, citando a parceira de cena, que iniciou sua carreira teatral em 1993.

O estrutura da encenação é inspirada diretamente na obra “Água Viva”, de 1973. Assim, a narradora/personagem começa escrevendo uma carta a um amor frustrado do passado. A partir daí, como acontece no livro de Clarice, a narrativa se dispersa em diversos temas. “Fui buscar em outras obras da Clarice textos que tinham a ver com essa proposta... Falamos de vida, morte, amor, nem sempre de uma maneira explícita, já que a Clarice usava muitas metáforas”, diz Vinícius, que também dirige a peça. “Muitas pessoas que viram a pré-estréia ficaram emocionadas e isso normal porque todos nós em algum momento tivemos ou temos que lidar com um amor frustrado, ou temos que enfrentar a morte”.

Na atmosfera expressionista do espetáculo, Vinícius e Susan Lopes dividem a mesma personagem: ela representa o ego e ele uma projeção da personagem, que revela certos hábitos de Clarice até em detalhes, como o de datilografar com a máquina de escrever no colo. A escritora adquiriu o costume em 1948, quando o filho, Pedro, nasceu. Era uma maneira que tinha de cuidar do menino sem ter de deixar de fazer o que mais amava: escrever.

Após as apresentações no Centro Cultural, o Isto tem planos de apresentar “Olha Pra Mim e Me Ama” na escolas. “É um trabalho que tem um conteúdo literário muito forte, fala sobre o pós-moderno e une literatura e teatro”, define Vinícius.

• Serviço

“Olha Pra Mim e Me Ama”, com o grupo Isto Teatro Experimental. Até quinta-feira, às 21h, no Centro Cultural, com lugar para 60 pessoas. Apoio: Jornal da Cidade e 96 FM. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 3235-1312.

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Sem rótulos

Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia. Quando tinha dois meses de vida sua família se mudou para Macéio, em Alagoas. Em 1924 nova mudança, desta vez para Recife. Foi na capital pernambucana que começou a escrever, ainda na infância.

Com a esperança de ter seus textos publicados pela página infantil do Diário de Pernambuco a então menina Clarice enviava suas pequenas obras, mas elas eram sempre recusadas. A razão: não tinham um enredo, apenas descreviam sensações.

Depois de mudar para o Rio de Janeiro, em 1934, passa a estudar Direito e, em 1941, começa a trabalhar como redatora do jornal A Noite. Em 1944 vem o seu primeiro livro “Perto do Coração Selvagem” e com ele o grande estranhamento da crítica: a obra não se encaixava no Modernismo da época nem no Regionalismo anterior.

A obra de Clarice não era para ser rotulada e assim prosseguiu até o fim, marcada por metáforas, o fluxo da consciência e rompimentos com o enredo. Integrante da segunda fase do Modernismo para uns, Pós-moderna para outros, Clarice, autora de, entre outros, “A Maçã no Escuro”, “A Paixão Segundo G.H.”, “Visão do Esplendor”, “A Hora da Estrela” e “O Mistério do Coelho Pensante”, morreu de câncer em 9 de dezembro de 1977.