09 de julho de 2026
Cultura

Marcelo Nova: 'Não tenho nada de novo pra dizer'

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

Na entrevista a seguir, o roqueiro, que se apresenta amanhã em Bauru, afirma que continua fazendo o mesmo som de sempre, sem se preocupar com modismos.

Jornal da Cidade - Você produz com freqüência mas seus discos nem sempre aparecem, por que?

Marcelo Nova - Eu sou um cara torto, não me interesso pelo Gugu e pelo Faustão, em estar toda hora na televisão, em ir para a Ilha de Caras, sair na capa da Contigo! Estou c...ando para esse esquema todo. Não é por arrogância, não, mas eu tenho um público que não é o maior do Brasil mas me acompanha onde quer que eu vá. Então eu saí fora disso há muito tempo. Não me interesso por ser pop star, o que me interessa é a música. O que aconteceu foi que da metade dos anos 80 pra frente havia a moda do rock, que é a mesma moda do axé ou do pagode que vieram depois.

JC - E quando a moda passou...

Nova - “Panela do Diabo”, por exemplo, que eu fiz com o Raul (em 1989) foi um disco que não teve nenhuma cobertura de rádio. Tocaram um pouquinho de “Pastor João e a Igreja Invisível” e só. Nós éramos dois vira-latas. Depois que ele morreu ele virou santinho. Um cadáver não incomoda, não xinga, não ofende ninguém e é fácil de ser manipulado. Por isso que todos nós amamos um cadáver. Esse disco passou pelo maior teste de todos, que é o teste do tempo. Ouvindo “Panela do Diabo” hoje, quinze anos depois dele ter sido lançado, você vê que do ponto de vista artístico ele permanece íntegro.

JC - O rock não está na moda de novo?

Nova - Está, não com a mesma ênfase de antes, agora está mais fragmentado. Modismos sempre vão ocorrer. A sociedade é fundamentada na compra e na venda.

JC - Quem você acha que faz um som legal hoje?

Nova - Outro dia eu ouvi aquela menina, a Pitty e achei bacana, porque ela é arrogante. Não é a música em si eu gosto dela porque ela é passional, se entrega na canção. As cantoras de rock brasileiro são todas (faz um som de menininhas fazendo graça) e ela é passional.

JC - Ninguém mais?

Nova - Não tenho mais saco para querer descobrir quem é a nova onda. Não estou preocupado em encontrar alguém que me agrade. Isso é bom quando a gente é menino, tem 20 anos e quer saber qual é a nova onda, a nova banda, a nova revolução. Essas coisas de garoto. Depois você vê que o que é bom é eterno, ou pode ser eterno e o moderno, pode não dizer absolutamente nada se não tiver consistência.

JC - E o seu som, o que mudou com os anos?

Nova - Nada. Continuo fazendo o que sempre fiz. Minhas canções não falam sobre moda, sobre Internet, sobre o Morumbi Fashion... Minhas canções falam sobre a ancestral dor humana. Falo sobre sexo, poder, paixão, desilusão, busca, mistério, sonho... Enfim, elementos ancestrais a mim. Coisas antigas. Não tenho nada a ver com essa coisa moderninha. Não tenho nada de novo pra dizer. Nada. Eu só sei fazer rock ‘n’ roll, por isso você nunca me viu fazendo funk, jazz, reggae ou hip hop. Não sei fazer essas coisas, procuro me ater a coisas que eu sei fazer ao invés de ficar atirando para tudo quanto é lado para ver se alguma coisa cola. Eu não gosto de laboratório, só faço laboratório quando mando minhas fezes para exame.