31 de maio de 2026
Cultura

Jovem prodígio

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Conhecida como celeiro musical, Bauru faz por merecer o título. Uma das provas é o trabalho realizado pelo pianista bauruense Marcel Balieiro, cuja formação foi centrada em professores e escolas de música locais. Aos 24 anos, sendo 17 dedicados aos acordes, ele acumula experiência de sobra para a idade.

Maestro e primeiro pianista do musical “Comunità”, que está em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo, Marcel não precisou passar por uma bateria de testes (como fazem muitos músicos brasileiros) para integrar a equipe de um grande espetáculo.

Boas referências em produções anteriores garantiram ao músico a indicação: ano passado, ele foi pianista dos musicais “Grease - Nos Tempos da Brilhantina” e “On Broadway”. Em 2002, participou de “Kiss Me Kate”, e em 2001, de “Saturday Night Fever”.

Além de “Comunità”, Marcel é professor do Centro Livre de Aprendizado Musical (Clam), coordenado pelo Zimbo Trio - que realizará um show na próxima quarta-feira, no Serviço Social do Comércio (Sesc) em Bauru. O músico também é regente acompanhador de alguns cantores e participa de um quinteto de jazz.

Seu interesse pela música começou na infância, quando ele estudava no Colégio São José. Morando há quatro anos na Capital, Marcel conversou por telefone com o Jornal da Cidade. Entre outros assuntos, ele falou sobre sua carreira e o crescimento dos musicais no Brasil. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como surgiu o convite para integrar a equipe do “Comunità”?

Marcel Balieiro - Foi por indicação mesmo, fazem dois anos que estou envolvido com o pessoal que faz musical em São Paulo. Fui regente acompanhador de vários cantores em espetáculos, e pianista do musical “Grease” ano passado. Participei de outros dois shows em São Paulo, onde escrevi os arranjos e fiz a direção musical. Ambos eram sobre musicais americanos, um deles se chamava “On Broadway” e foi uma vitrine para mim. Então eles (diretores do “Comunità”) já tinham referências sobre meu trabalho e me ofereceram o emprego. Comecei como assistente de direção musical e depois assumi como primeiro pianista e regente do espetáculo.

JC - Bauru está diretamente relacionada à sua experiência musical, afinal você iniciou seus estudos na cidade. Fale um pouco sobre sua trajetória.

Marcel - Comecei a tocar piano no Conservatório do Colégio São José, em 1987. Me matriculei em 1991 no Conservatório Pio XII da USC, na classe do professor João Fernando Paluan, e me graduei em 1997. Toquei durante dois anos no Coral Veritas da USC, foi onde começou minha experiência em acompanhar cantores e grupos vocais, atividade que eu continuo fazendo. Também em Bauru estudei música popular com o professor Nelson Bergamini. Em 1998 ganhei uma bolsa para estudar piano na Escola Nacional de Artes, em Cuba. Prestei vestibular para música e instrumento piano na Universidade Estadual Paulista (Unesp), fui aprovado e estou em São Paulo desde 2000. Me formei no final do ano passado.

JC - O fato de fazer faculdade em São Paulo contribuiu para seu crescimento profissional?

Marcel - Sim, estando aqui, paralelo à faculdade, em 2000, comecei a estudar piano popular no Clam. Passei um ano como estudante, mas no começo de 2001, fui convidado para dar aulas no Clam e estou lá até hoje. Também em 2001 fui convidado para ser diretor musical de um musical amador na Cultura Inglesa em São Paulo, onde comecei a trabalhar no ramo de musicais. Isso meu deu muita experiência em relação ao aprendizado dos musicais, que utilizam uma linguagem bem diferente. Além disso, conheci pessoas que me levaram para essa área .

JC - Você disse que os musicais abordam uma linguagem diferente. Isso implica em um maior grau de dificuldade?

Marcel - O musical é uma criação americana, veio da ópera, mas criou uma identidade própria desde os anos 20, nos Estados Unidos. É uma peça de teatro com música, só que essas músicas não são simplesmente jogadas numa peça, os arranjos tem que ser muito bem inseridos dentro de um contexto. Eu não posso escrever uma valsa vienense para uma personagem que está morrendo, por exemplo. Essa junção de texto e música deve ser muito bem feita, por isso que o musical é diferente do teatro tradicional e de um show de música.

JC - Como você se preparou para elaborar os arranjos dos musicais?

Marcel - Tive que ralar para escrever todos os arranjos de uma peça. Busquei livros que falavam sobre musicais para aprender como escrever música para musicais, como são os arranjos, como orquestrar, Tudo isso fez parte da minha formação desde 2001.

JC - Como você analisa a evolução dos musicais no País?

Marcel - A área de musicais é nova mas está crescendo, graças a Deus. Desde os anos 70 e 80, os musicais já existiam no Brasil, mas de forma muito esporádica. Em 2000, com a inauguração do Teatro Abril em São Paulo, e a chegada da empresa CIE - que trouxe o primeiro grande musical da Brodway para o Brasil, o “Les Misérables” - o Brasil tem tido várias produções anuais com temporadas grandes. O “Les Misérables” ficou mais de um ano em cartaz. Depois veio “A Bela e a Fera”, produção da mesma empresa, que agora está fazendo “Chicago”. Esses musicais foram os grandes formadores de atores.

JC - O crescimento dos musicais permitiu a especialização de pessoas que trabalham nas equipes de produção. Houve melhora em relação a qualidade dos espetáculos?

Marcel - Em todos os setores houve uma grande melhora. A mão-de-obra sempre existiu, mas o que está havendo agora é uma profissionalização de todo esse funcionamento de musical: as equipes que fazem cenografia, diretores de palco, contraregras, camareiras, peruqueiros, músicos, que até então realizavam esses serviços, mas também tinham outros trabalhos paralelos.

JC - Como é a receptividade do público em relação aos musicais?

Marcel - Público sempre existiu, mas faltavam grandes peças para chamar esse público, não haviam grandes produções como existem na Broadway. Ainda estamos muito atrás dos Estados Unidos e até mesmo de outros países, como a Argentina, que tem dez musicais em cartaz atualmente. Não é uma tradição brasileira escrever musicais, mas já demos um grande passo.

JC - Como você avalia sua trajetória profissional?

Marcel - Eu estou vivendo um momento muito bom, graças a Deus. Estou trabalhando bastante, dando aulas e tocando nesse musical, que é uma grande vitrine para mim. Mas nunca paro de aprender e acho que o melhor momento está por vir.