As mudanças de temperatura do inverno costumam agravar os problemas respiratórios. Mas pessoas que têm o nariz constantemente “entupido” podem apresentar uma alteração anatômica chamada desvio de septo. Em casos mais severos, a correção cirúrgica pode ser uma boa opção.
O septo nasal é uma estrutura composta por osso e cartilagem. Localizado no meio do nariz, ele funciona como uma parede que dá sustentação e divide a cavidade nasal em duas partes iguais - as narinas.
No entanto, algumas situações podem causar uma deformidade nessa estrutura e, ao invés de uma parede retilínea, o septo apresenta um formato sinuoso. Os desvios podem ser em forma de “C” ou de “S” e quanto mais pronunciados, mais comprometida é a passagem do ar.
A médica otorrinolaringologista Sílvia Regina Megale salienta que a obstrução nasal crônica acaba gerando grande desconforto na vida diária do paciente, especialmente durante o sono e na prática de atividades físicas.
“Dependendo do grau da obstrução, o paciente passa a respirar constantemente pela boca. E é muito importante que tenhamos uma boa respiração nasal, pois o nariz tem um papel fundamental na fisiologia respiratória: ele é responsável por umidificar, aquecer e limpar o ar que chegará até os pulmões, facilitando, assim, a passagem do oxigênio para a corrente sangüínea”, comenta.
Além da obstrução nasal - que pode manifestar-se em uma ou ambas as narinas, o desvio de septo pode desencadear vários outros sintomas, como explica o otorrinolaringologista Luciano Gustavo Ferreira Couto, do Hospital Estadual de Bauru.
“A pessoa pode ter ressecamento do nariz, acúmulo de crostas, sangramento nasal espontâneo, diminuição ou perda do olfato, infecções de repetição (rinites e sinusites principalmente) e até dor de cabeça, quando o septo esbarra em outras estruturas do nariz. E se o paciente respira pela boca, pode queixar-se ainda de boca seca, gengivites, mau hálito, faringites, rouquidão e tosse crônica”, salienta.
De acordo com o médico Helder Fernandes de Aguiar, além do desvio de septo, várias outras alterações podem desencadear a obstrução nasal crônica. Por isso, é necessário um diagnóstico minucioso antes de se indicar a cirurgia.
“Se fizermos uma avaliação em massa, vamos constatar que praticamente ninguém tem o septo totalmente reto. Mas o cirurgião só opera quando o desvio causa problemas funcionais ou estéticos”, destaca.
Segundo os especialistas, o diagnóstico do desvio de septo baseia-se nas queixas do paciente e no exame clínico. Alguns profissionais também utilizam um aparelho com fibras ópticas que são introduzidas nas narinas, projetando a imagem do interior do nariz num monitor de TV. Em casos mais complexos também podem ser feitas radiografias e tomografia dos seios da face.
“É importante reforçar que muitas pessoas têm desvio de septo e convivem bem com ele. A septoplastia só é indicada quando o desvio prejudica a função do nariz ou quando gera um incômodo estético - nesse caso o procedimento realizado é a rinoplastia”, completa Aguiar.
Cirurgia
De acordo com os médicos, a cirurgia corretiva do desvio de septo (septoplastia) é um procedimento relativamente simples, com duração aproximada de 45 minutos. Apesar disso, a intervenção é bastante incômoda e, por isso, quase sempre é realizada sob anestesia geral, com o paciente inconsciente.
O médico Luciano Couto afirma que tudo é feito por dentro do nariz, sem cortes externos. “O médico descola a mucosa (pele que reveste o septo) dos dois lados, remove a porção desviada e reposiciona a mucosa com pontos cirúrgicos que caem sozinhos em aproximadamente sete dias”, descreve.
Segundo ele, o paciente sai da cirurgia com plaquinhas de plástico no interior do nariz. “Elas dão sustentação à mucosa e auxiliam no processo de cicatrização”, informa. As plaquinhas são removidas pelo médico depois de uma semana.
Alguns pacientes também podem sair da cirurgia com tampões no nariz. “É o maior incômodo do período pós-operatório, mas é necessário para dar sustentação ao septo operado e para coibir hemorragias. Em média, o tampão é usado por 24 a 48 horas”, explica Aguiar.
Depois da cirurgia, o paciente deve ficar afastado do trabalho por três a sete dias, conforme orientação médica. Isso varia conforme o tipo de profissão exercido e conforme a extensão da cirurgia. Segundo os médicos, é comum associar a septoplastia a intervenções em outras estruturas da cavidade nasal numa mesma cirurgia.
Outra recomendação para o pós-operatório é ter muito cuidado para não bater o nariz e evitar a exposição solar. Esforços físicos também ficam proibidos para os primeiros dias. Uma atividade física moderada pode ser retomada após uma semana e exercícios intensos devem aguardar pelo menos 20 dias.
Depois da cirurgia, são realizados reavaliações e curativos periódicos e, se não houver intercorrências, o paciente recebe alta definitiva cerca de três meses depois.
Questionados sobre contra-indicações, os especialistas alertam que a septoplastia só não é indicada antes dos 15 anos de idade, pois a estrutura orofacial ainda está em desenvolvimento.
“Só operamos crianças e adolescentes antes dessa faixa etária quando o desvio é muito acentuado e prejudica demais a função respiratória. Nesses casos, opta-se por um procedimento mais superficial e uma nova correção pode ser necessária no futuro”, acrescenta Couto.
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Complicações são raras
Indagados sobre as possíveis complicações de uma septoplastia, os médicos otorrinolaringologistas ouvidos pela reportagem comentam que é muito raro o paciente apresentar problemas no período pós-operatório.
“A não remoção completa do desvio é a complicação mais comum. O desvio residual volta a obstruir o nariz após a cicatrização e a acomodação dos tecidos”, destaca o médico Luciano Gustavo Ferreira Couto.
Outra situação indesejada, segundo os especialistas, são os sangramentos. “Quando a mucosa não recebe a devida sustentação (por placas ou tampões), pode acumular sangue por dentro delas e gerar um hematoma, que favorece o aparecimento de infecções”, alerta Couto.
Também pode ocorrer retração cicatricial da mucosa, ou seja, no processo de cicatrização, a pele que reveste o septo pode ficar repuxada, causando certo incômodo. Em alguns casos, recomenda-se reparo cirúrgico. Mas os médicos garantem que os riscos são pequenos e os casos de complicação são muito raros.
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Causas são congênitas e traumáticas
De acordo com a médica Sílvia Regina Megale, a maioria dos desvios de septo tem origem genética e manifesta-se no decorrer do desenvolvimento, especialmente durante a adolescência. “Sua instalação se faz de modo lento, ao longo do tempo, de maneira que o paciente, muitas vezes, não percebe que está apresentando dificuldades para respirar pelo nariz”, comenta.
Mas os desvios também podem ser causados por traumas ocorridos em qualquer fase da vida. “O bebê pode sofrer um trauma, por exemplo, na hora do parto. Se o enfermeiro ou médico puser o dedo com um pouco mais de força sobre o nariz, eles podem promover uma luxação”, alerta.
Ele explica que o crescimento do septo ocorre dentro de um tipo de “canaleta”. Havendo a luxação, o septo “escapa” desta estrutura e entorta.
Quedas, brigas, acidentes automobilísticos, acidentes esportivos e domésticos também são citados pelos especialistas como causadores do desvio de septo. Eles afirmam que pancadas no nariz devem sempre ser examinadas por um médico.