07 de junho de 2026
Ser

O Olimpo é o destino

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Há alguns dias, Renata de Oliveira Burgos, 22 anos, viveu um experiência que é privilégio de poucos. Foi chamada para integrar a Seleção Brasileira de Natação, que disputará as Olimpíadas de Atenas, a partir do dia 13 de agosto.

Quando criança Renata tinha medo de água e seu primeiro contato com a piscina foi durante o tratamento de bronquite que a irmã mais velha fazia numa escolinha do município de Jaú, cidade onde nasceu e foi recebida com festa no último final de semana pela família e pelos atletas da região. A nadadora carregou a tocha e acendeu a pira na abertura oficial dos Jogos Regionais.

Defendendo Jaú, Renata foi campeã paulista seis vezes consecutivas nos campeonatos de verão e inverno. Foi recordista do Festival Bob’s, que lhe rendeu patrocínio por um ano. Em São Paulo, nadando pelo Pinheiros, foi vice-campeã brasileira, em 99. Por Ribeirão Preto, onde treina há três anos e meio, pela Unaerp, conquistou duas medalhas de bronze na etapa do Brasil da Copa do Mundo de 2002. Ficou com três centésimos do índice do Panamericano, mas foi para o Mundial da Coréia do Sul.

Especialista em nadar provas de 50 e 100 metros livre, borboleta e peito, dia 1º de agosto a atleta embarca para Portugal, onde vai ficar dez dias para fazer a “aclimatação”, que seria a adaptação não só ao clima e à altitude, mas também ao próprio grupo, como ela diz.

No dia 13, já na Grécia, participa da cerimônia de abertura. A competição de sua modalidade, o revezamento 4 x 100 livre, será dia 14, logo na abertura das provas.

Falando de vida pessoal, tratamento de beleza é uma coisa que não precisa pois nadando todo os dias consegue um corpo durinho e uma morenice de fazer inveja. Mas confessa que já desistiu de dar um jeito no cabelo judiado pelo cloro.

Sobre os amores, a nadadora assume que acaba namorando colegas de equipe para poder conciliar o romance e os treinos. Apesar de uma leve timidez, gosta do heavy metal melódico de bandas como Angra e Helloween, aprendeu a ser disciplinada e deixar as baladas de lado. Mas quando pode, não dispensa um show, ou a conversa com os amigos num barzinho.

Renata está no último ano da faculdade de publicidade e propaganda e com a compreensão dos colegas consegue nadar de braçada nos livros e na piscina.

“O treino é o mesmo para todo mundo, mas a diferença está na minha dedicação”, orgulha-se.

Mas deixa escapar que tem mania de estalar os dedo quando está nervosa e que quando está com vergonha coça nariz. “Deus ajude, minha avó!”, também é um mantra de sorte e proteção.

Quando voltar ao Brasil, sua atenção estará voltada para o Troféu José Finkel, em setembro, que é a seletiva para o mundial de piscina curta nos Estados Unidos. E espera contar com as bênçãos dos deuses gregos.

Antes disso, espera conquistar a torcida de quem gostar de sua história, contada com simplicidade e sinceridade na entrevista a seguir:

Jornal da Cidade – Como começa essa história de piscina que chegou até na Olimpíada?

Renata Burgos – Comecei a treinar para competição aos 7 anos. Eu comecei a nadar porque minha irmã mais velha, a Simone tinha bronquite e a minha mãe me levava junto na escolinha de natação, para não ficar sozinha em casa.

JC – E em meio ao tratamento da irmã, você resolveu nadar também?

Renata – É, mas quando era pequenininha eu tinha medo. Quando completei 7 anos, ainda na escolinha da prefeitura, que funcionava num parquinho perto do hospital, o técnico da equipe da cidade viu a gente nadar e nos levou para a Piscina Municipal e passamos a integrar a equipe. Eu comecei a treinar com um pessoal mais velho. Eu tinha 7 anos e o pessoal tinha 15. Mas eu tinha que ir nesse horário para minha mãe não ter que levar e buscar duas vezes. Fiquei em Jaú até 1998. Tinha proposta do Esporte Clube Pinheiros, mas não aceitei por ter apenas 14 anos. Era muito nova para sair de casa... Mas em 99, aceitei e fiquei treinando até a metade de 2000 em São Paulo. Na outra metade do ano, eu parei de nadar. Queria estudar, queria passar numa universidade estadual. Mas ao mesmo tempo, enquanto estudava, ficava pensando no que a minha equipe estava fazendo, se estavam treinando, fazendo musculação, como estava o ritmo dos meus colegas. Eu, nadava de vez em quando.

JC – Quanto tempo durou essa agonia?

Renata – Seis meses.

JC – Foi o máximo de tempo que você conseguiu ficar longe das piscinas dos 7 anos até hoje?

Renata – Foi... Porque depois, numa festa aqui em Jaú, eu encontrei o meu técnico de agora, o Marcelo Teixeira, que é de Jaú também, e ele começou a falar que era um desperdício eu ficar parada, que poderia conseguir bolsa de estudos na faculdade. Disse que ligava para ele e nem liguei. Vi que tinha vestibular, prestei, passei e aí liguei para ele dizendo: “Passei. E agora?”.

JC – Mas você passou em quê? Educação Física?

Renata – Não, publicidade e propaganda. Nada a ver com piscina. Mas o Marcelo conseguiu para mim meia bolsa e fui para lá. Me formo no fim do ano.

JC – E o diploma de publicitária você vai usar para fazer a campanha das próximas Olimpíadas, né?

Renata – Pode ser... (risos).

JC – Aliás, a escolha de propaganda foi por quê?

Renata – Eu queria fazer arquitetura, mas na faculdade de Ribeirão não tinha. Como o Marcelo Teixeira disse que conseguiria uma bolsa de estudos para mim. Fiquei entre jornalismo e publicidade e escolhi publicidade.

JC – E como você recebeu a notícia da convocação? O que te fez ser chamada?

Renata – Este ano, era a última seletiva da Olimpíada, o Troféu Brasil, em maio, e eu tinha ficado com o 5º tempo pelo revezamento, mas como só iam as quatro primeiras. Eu estava como reserva. Uma dessas quatro meninas foi pega no dopping e consegui a vaga. Isso tudo foi em um mês. Eu nadei, não tinha dado certo. Passou um tempo, saiu a notícia que a menina tinha sido pega no dopping. Até que saiu a resposta. Foi terça-feira, dia 6, de manhã. Eu estava terminando o treino e tocou o celular. Vi que era código 021 e comentei, com uma amiga que estava ao meu lado. Ela gritou: “Atende, né!”. Eu respirei fundo e atendi. A moça da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) me falou: “Renata, parabéns! O revezamento foi convocado.” Aí ela foi me perguntando, mais um monte de coisa e eu não conseguia, nem falar e nem pensar direito no que ela estava falando. Eu falei: “Tá,obrigada!”. E ela já falou que tinha a viagem na sexta para Brasília, que tinha um encontro com o presidente, que precisava mandar uniforme, passagem. Falei com meu técnico e ele me mandou ir. Fui e encontrei um monte de gente da natação. Foi engraçado. Fui ao banheiro e quando voltei já estava todo mundo de pé, o presidente entrando, eu com um copo d’água na mão.

JC – O fato da sede da competição ser Atenas, que é o berço das Olimpíadas, tem um significado muito especial. Todo atleta sonha em participar de qualquer Olimpíada. Quais eram as suas perspectivas? Esse era o momento, você esperava isso mais para frente ou já chegou perto em outra ocasião?

Renata – Não, teve só os jogos Panamericanos no ano passado, mas Olimpíada não. Quando eu ganhei o Brasileiro, recebi uma carta dizendo que estava pré-convocada para as Olimpíadas de 2004, mas aí tinha que obter o índice e tudo mais. Eu dizia que em 2004 estaria velha, achava que não ia dar.

JC – E agora? Quais são seus maiores adversários?

Renata – Agora não tem. A Austrália, os Estados Unidos e a China são as grandes potências. Todo mundo me pergunta sobre medalha. Mas medalha vai ser difícil, seja para o grupo ou individual. Tem um menino que era o segundo melhor tempo do mundo, só que está tendo a seletiva dos Estados Unidos e não dá para chegar lá esperando que vá ser o segundo.

JC – Mas acho que só o fato de estar lá em Atenas, participar da Olimpíada e da despedida do Gustavo Borges, que é o maior ícone das piscinas brasileiras já é um prêmio?

Renata – Para todo mundo. Aliás, o Gustavo foi a primeira pessoa que veio me parabenizar. Eu e a Tatiana Lemos integramos a equipe depois e o Gustavo chegou no aeroporto dizendo parabéns. Foi superbacana. Desde a Copa do Mundo de 2002 que ele vem, fala alguma coisa, incentiva, como quem quer dizer: eu sei quem você é, sei como você nada. Outras pessoas não fazem isso.

JC – Aliás, como foi chegar em sua casa e ser recebida com festa?

Renata – Eu estava morrendo de vergonha!!!!!!!!!

JC – Você é uma menina tímida?

Renata – Sou, principalmente em relação a esse tipo de coisa. Mas para fazer amizades, não muito.

JC – Como o embarque já está marcado, o que você vai levar na mala e o que pretende trazer da Grécia para cá, além da medalha, por exemplo?

Renata – Para levar, tem que levar um monte de coisa. A gente ganhou uma mala cheia de uniforme. Para voltar, eu não sei o que te falo. Quero muita lembrança boa... Quero que seja a primeira, pois pretendo ir para Pequim em 2008 e nadar o Panamericano aqui em 2007. Vou trazer experiência de Olimpíada, para na próxima poder ser melhor. Mas não só isso, é uma oportunidade de ver e aprender muita coisa.