É comum perceber o orgulho do bauruense quando se diz que Pelé, o homem considerado o maior jogador de futebol de todos tempos, deu seus primeiros chutes e fez seus primeiros gols aqui, em Bauru. É como se pelo menos um pouco da magia que ele deixou nos gramados de todo o mundo tivesse saído dos campinhos pelos quais o menino Edson Arantes do Nascimento jogou suas peladas, ou mesmo do aprendizado prático no Baquinho.
Apesar disso, menos de 0,20% da população bauruense (estimada em 330 mil habitantes) foi ao cinema prestigiar o melhor filme já feito sobre o jogador. “Pelé Eterno” estreou na cidade na mesma data em que começava a ser exibido nas capitais, dia 25 de junho, mas o baixo público fez com a fita ficasse só sete dias em cartaz, totalizando apenas 396 espectadores, segundo a empresa exibidora local. Considerando o número de vezes que o documentário foi exibido na cidade a média é ridícula: apenas 15,8 pessoas por sessão, um fracasso.
O filme de Anibal Massaini não tem ido bem em todo País. “Pelé Eterno” entrou no circuito em 150 salas, um feito raro para um documentário. No primeiro final de semana teve uma média de 338 pessoas por cópia, quinze dias depois (até o final de semana passado), o filme só era exibido em 55 salas, com a média de 179 espectadores por cópia.
Por que razão um filme que enaltece uma das figuras mais famosas do País e do mundo não dá certo? O fato de ser um documentário não ajuda, segundo Rosinéia Vieira, gerente da Cinematográfica Araújo, proprietária das salas de cinema de Bauru. Para Rosinéia, além do brasileiro não ter o costume de assistir documentários, o filme foi feito para um público específico: os homens e, entre eles, os mais velhos, que viram Pelé jogar.
A primeira hipótese é bastante provável e não surpreende. Quando comparado a “Cazuza - O Tempo Não Pára”, o filme de Pelé perde feio. “Cazuza” já fez 1,8 milhão de espectadores, enquanto o longa do atleta mal chegou a 180 mil. A provável diferença está na linguagem. Apesar do filme sobre o cantor se baseado em fatos reais, se trata de uma versão romanceada da sua vida, assim, até sua trágica e precoce morte é atenuada. Além disso, o filme fala sobre a juventude e seus excessos, um tema que atrai jovens e adolescentes, ou seja, o grande público “consumidor” dos cinemas. “Pelé Eterno” é um documento, então não facilita a vida do público com soluções poéticas, apesar dos recursos visuais.
“O filme do Pelé é chato demais, demora e só mostra um monte de gols”, diz a estudante universitária Elisa Santos, que viu o filme - e seus mais de 400 gols - porque o namorado a levou. “Não queria ir, mas ele me convenceu porque é santista como o pai”. A universitrária é uma das raras mulheres que foram ver o filme em Bauru. Segundo a gerente das salas, a grande maioria dos 396 espectadores era de homens.
A questão do sexo é levada em conta pelo próprio Anibal Massaini, que se esforça para encontrar uma razão para o fracasso do filme. O aposentado Antônio Carlos Teixeira teve que ir ao filme sozinho. “Minha mulher não quis ver”, diz. “Valeu a pena para lembrar dos tempos em que o futebol era bonito”, avalia o corintiano Teixeira, que considera triste o fato dos bauruenses não terem ido ver o filme. “Pelo menos aqui o pessoal tinha que ir, ele cresceu aqui”, diz.
Na opinião do jornalista Fernando Nunes, que escreve sobre esporte, o insucesso do filme pode ter razões mais complexas, como as várias vezes em teve o seu lançamento adiado (era para ter estreado no início do ano), e o fato do público que assiste futebol na TV não ir aos estádios, muito menos ao cinema.
Nunes considera o filme bom e elogia a sua importância como documento, principalmente para as gerações futuras, e vai mais longe na sua análise. “Apesar de ter recebido todas as homenagens que pôde em vida, o Pelé não é adorado no Brasil como deveria, como o Maradona é na Argentina, por exemplo. Acho que ele só vai ter o seu valor reconhecido e ser adorado depois de morto”, diz. É triste, mas o desprezo dos brasileiros com o filme parece avalizar a opinião do jornalista.
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Pelé nas telas bauruenses
Período de exibição:
7 dias (de 25 de junho a 1 de julho)
Salas: 2 (Center 2 e Bauru 2)
Número total de sessões: 25
Público: 396 pessoas (média de 15,8 pessoas por sessão)