30 de maio de 2026
Geral

Receita médica não cumpre resolução

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Caligrafia ilegível, ausência do nome genérico do medicamento ou do carimbo e assinatura do médico. Esses foram alguns dos erros detectados em receitas médicas emitidas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), e que contrariam uma resolução estadual que disciplina as normas para a prescrição de medicamentos.

Durante uma hora de acompanhamento junto à farmácia do Posto de Saúde Central, que distribui medicamentos para pacientes de toda a rede básica de saúde, a reportagem flagrou 12 receitas com caligrafia ilegível, dez sem o nome genérico do medicamento, cinco sem carimbo ou assinatura do médico e três sem o nome completo do paciente. Algumas receitas também traziam abreviações do nome do medicamento ou do tempo de duração do tratamento.

Entre as exigências da resolução, publicada pela Secretaria Estadual de Saúde em junho do ano passado, está a obrigatoriedade da denominação genérica dos medicamentos nas prescrições, ou seja, do nome da substância ativa do medicamento, ao invés do nome fantasia. A mesma resolução exige que os médicos que atendem via SUS informem o nome completo do paciente, a posologia e a duração total do tratamento e a denominação completa do medicamento sem códigos ou abreviações.

Além disso, é obrigatório que a receita seja escrita em letra legível ou datilografada e traga o nome completo do profissional e o seu número de inscrição no Conselho Regional de Medicina (CRM).

A farmacêutica da Secretaria Municipal de Saúde, Maria Anice Iunis, admite que muitas receitas continuam apresentado erros, especialmente no que diz respeito ao nome comercial do medicamento. “Mesmo tendo essa resolução do Estado, ela não está sendo cumprida por muitos médicos”, avalia.

A emissão de receitas com caligrafia ilegível também é um problema, na opinião da farmacêutica. Maria Anice confessa que, em alguns casos, antes de entregar o medicamento aos pacientes, é necessário que o farmacêutico consulte novamente o médico para esclarecer o que foi prescrito. “Isso pode ser um problema. Quando têm medicamentos com nomes parecidos, pode haver inclusive a troca da medicação”, afirma.

Se os próprios profissionais da área deparam-se com dificuldades, para o pacientes, decifrar as receitas é uma tarefa quase impossível. É o que afirma José Inácio Neto, 54 anos, que tentava, na última quarta-feira, retirar um medicamento na farmácia do Posto de Saúde Central. “Eu nunca consigo entender o que está escrito na receita”, confessa. A mesma situação é enfrentada por Vilma Carneiro, 62 anos. “Eu preciso pedir para o farmacêutico me explicar de novo, porque não consigo ler o que está escrito”, diz.

Regularidade

O atendente da farmácia do Posto de Saúde Central, que preferiu não ser identificado, admite que não são raros os casos em que ele próprio tem que pedir ao paciente para retornar ao médico e decifrar o que está escrito na receita. “Isso acontece com uma certa regularidade”, diz. “Se o paciente chega em casa e quiser ler a orientação que foi dada, não consegue”, completa.

O profissional também assegura que cerca de 50% das receitas que passam pela unidade continuam trazendo o nome fantasia do medicamento. “Em alguns casos, eles também não especificam a quantidade de miligrama correta do remédio. Isso dificulta bastante, porque a gente não sabe a quantia de medicamento que pode entregar”, afirma.

Durante o período em que permaneceu junto à farmácia do Posto de Saúde Central, a reportagem pôde constatar que grande parte dos pacientes pedia orientações ao atendente sobre o tratamento prescrito. Dois pacientes, cujas receitas não traziam sequer o nome do médico, não puderam retirar o medicamento na farmácia do posto, já que a identificação do profissional é uma condição para o fornecimento. Um deles, a aposentada Idalina Lopes, 73 anos, estava indignada com a situação. “Eu vou ficar sem beber o remédio, mas não vou voltar até o médico para arrumar a receita”, diz ela, que havia sido atendida no Lauro de Souza Lima.

Ao lado da caligrafia ilegível, a farmacêutica Tatiana Zwicker Di Flora, responsável por uma drogaria do Centro da cidade, destacou a falta de identificação dos médicos como um dos principais problemas das receitas emitidas via SUS. “As receitas do posto de saúde, muitas vezes, vêm sem o carimbo do médico ou com o carimbo e a assinatura ilegível. Com isso, não conseguimos identificar o médico que está prescrevendo o medicamento”, diz ela, destacando que esse problema atingiria cerca de 60% das receitas que passam pela drogaria.

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Correria

O médico João Sérgio Carneiro, secretário municipal da Saúde e diretor do Pronto-Socorro (PS) Central, afirma que muitos profissionais, pelo volume do atendimento nas unidades básicas de saúde, acabam se habituando a emitir a receita com o nome comercial do medicamento. “É uma questão de hábito, correria e volume de atendimento. É uma somatória de fatores que contribui para isso”, diz.

Um médico do Pronto-Socorro da Bela Vista, que preferiu não ser identificado, apresentou a mesma justificativa, admitindo que receitava o nome comercial do medicamento por considerar mais rápido, e com o objetivo de agilizar o atendimento.

Em relação à caligrafia ilegível, Carneiro afirma que esta continua sendo uma característica da classe médica. “Eles (médicos) continuam escrevendo de uma forma abreviada. Você percebe na receita, no diagnóstico do paciente, palavras pela metade e você tem que adivinhar a outra metade. Mas por que isso ocorre? Às vezes pela rapidez de estar escrevendo, na tentativa de já estar atendendo outro paciente, vendo outro exame etc”, afirma o secretário.

Apesar do volume de atendimento, Carneiro defende que as receitas sejam aperfeiçoadas. Com o objetivo de melhorar esse quadro, o secretário afirma que foi criado recentemente no PS Central uma supervisão médica para avaliar as prescrições e orientar os profissionais sobre a necessidade de cumprimento das normas determinadas pela resolução estadual.

“Nós estamos trabalhando para criar novos hábitos”, diz. “Mas a questão da caligrafia (ilegível) já é tão histórica dentro da medicina que para você mudar é uma coisa extremamente difícil”, completa.

O titular da Diretoria Regional de Saúde (DIR-10), Affonso Viviani Júnior, não foi encontrado por telefone, ontem, para comentar o assunto.